Lula durante o debate presidencial da Band, realizado em São Paulo em 18 de outubro de 2026. O encontro com Flávio Bolsonaro foi marcado por provocações, acusações e momentos de tensão entre candidatos e assessorias. Foto: Ricardo Stuckert/Lula Oficial, via Wikimedia Commons — imagem sob licença CC BY-SA 4.0.

Um debate abaixo do Brasil: Lula mal preparado, Flávio provocador e o eleitor sem respostas

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O primeiro confronto direto entre Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno produziu muito barulho e poucas respostas sobre o Brasil que cada um pretende governar. Lula me pareceu mal preparado e, em vários momentos, mal assessorado para um debate que poderia ser decisivo. Flávio demonstrou maior domínio da estratégia que levou ao estúdio, mas essa estratégia esteve excessivamente baseada em provocações, gestos e tentativas de desestabilizar o adversário. Saí do debate ainda mais inclinado a Lula, mas não porque tenha considerado sua atuação boa. Pelo contrário: a impressão final foi de que o eleitor brasileiro — especialmente aquele que ainda cogita votar branco, nulo ou simplesmente não comparecer — merecia muito mais dos dois candidatos que disputam a Presidência da República.

O debate da Band realizado na noite deste domingo, 18 de outubro, deveria ter sido uma oportunidade rara para que Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro deixassem de falar principalmente para suas próprias bases e explicassem ao restante do país aquilo que pretendem fazer pelos próximos quatro anos. Faltando apenas uma semana para o segundo turno, havia questões enormes esperando respostas: desenvolvimento econômico, segurança pública, política industrial, infraestrutura, relações internacionais, o recém-aprovado fim da escala 6×1, situação fiscal e papel do Estado. Esses assuntos chegaram a aparecer, mas grande parte do encontro foi consumida por acusações sobre familiares, escândalos, ironias, interrupções e uma disputa para descobrir quem conseguiria irritar mais o adversário. A própria cobertura posterior da imprensa convergiu nesse ponto: Jota, Folha, UOL, Reuters e Associated Press descreveram um encontro dominado por ataques pessoais e no qual propostas concretas frequentemente ficaram em segundo plano.

Minha impressão é que os dois saíram menores do que poderiam ter saído, mas por motivos diferentes. Lula demonstrou experiência política ao recuperar terreno em determinados momentos, sobretudo quando pressionou Flávio sobre a escala 6×1, questionou o destino de recursos relacionados ao projeto do filme Dark Horse e propôs que ambos abrissem seus sigilos bancários e telefônicos. Contudo, esses bons momentos não escondem um problema evidente: Lula chegou a um debate decisivo parecendo pouco preparado para o formato e para a estratégia que o adversário utilizaria. Já Flávio parecia saber exatamente qual confronto desejava produzir. O problema, na minha avaliação, é que o confronto escolhido esteve muito mais próximo da lógica de uma disputa de redes sociais do que da sobriedade que espero de alguém que pretende assumir a Presidência de uma das maiores economias do mundo.

Lula parecia não ter sido preparado para o debate que encontraria

Foi estranho assistir a um político com a experiência eleitoral de Lula demonstrar tanta dificuldade logo no início do programa. Ele se confundiu com o posicionamento das câmeras, administrou mal o próprio tempo e permitiu que algumas perguntas do adversário ditassem o ritmo do confronto. Essa não foi apenas uma impressão minha. A Folha registrou que o presidente “derrapou” no começo, caminhando em direção à câmera errada e tendo dificuldades com o cronômetro; no UOL, o jornalista João Paulo Charleaux considerou surpreendente que Lula tivesse chegado tão mal preparado a um debate dessa importância, mencionando problemas de postura, posicionamento e capacidade de pautar a discussão.

Isso me parece sobretudo um problema de preparação. Era razoavelmente previsível qual seria a estratégia de Flávio. Sua campanha já havia demonstrado que pretendia transformar o debate em confronto direto, e o próprio senador havia anunciado antes do programa que seria “prazeroso esfregar verdades” no adversário. Pablo Marçal participou explicitamente de sua preparação e, segundo a CNN, aliados disseram que o treinamento ajudou a definir a postura adotada no palco. Lula deveria ter entrado preparado justamente para não aceitar essa dinâmica como eixo central do debate.

Havia temas nos quais o presidente poderia ter pressionado o adversário de maneira muito mais organizada. A experiência de Javier Milei na Argentina e o “tesouraço” defendido por Flávio, a política industrial, o financiamento da infraestrutura, a relação com os Estados Unidos, a preservação do fim da escala 6×1, o histórico econômico dos governos Bolsonaro e Lula e as próprias contradições fiscais do programa adversário ofereciam material suficiente para um debate programático. Alguns desses pontos apareceram, mas frequentemente foram abandonados rapidamente em favor de provocações pessoais. Lula também caiu repetidamente no terreno escolhido pelo adversário quando respondeu a ataques familiares com ataques à família Bolsonaro.

Isso não significa que Lula devesse ignorar acusações dirigidas ao próprio filho ou deixar de questionar o histórico de Flávio. Candidato à Presidência precisa responder por questões que envolvam sua trajetória. O problema foi a falta de hierarquia. Quando praticamente tudo se transforma em acusação, aquilo que é realmente importante perde força.

Flávio pareceu mais treinado — mas para qual tipo de debate?

Seria incorreto afirmar que Flávio esteve simplesmente perdido. Ele demonstrou maior adaptação ao formato em diversos momentos, conseguiu provocar reações do adversário e utilizou conscientemente o espaço físico do estúdio. A diferença é que dominar uma estratégia não significa necessariamente demonstrar a postura que considero adequada para a Presidência da República.

O comportamento do senador enquanto Lula falava foi um dos exemplos mais claros. Flávio circulava atrás do presidente, permanecia no enquadramento das câmeras, fazia gestos e reagia às declarações do adversário. A movimentação era permitida pelas regras, mas incomodou a campanha petista a ponto de gerar uma discussão entre os responsáveis pela comunicação das duas candidaturas. Durante as considerações finais, a própria mediadora Adriana Araújo pediu que Flávio deixasse de circular atrás de Lula enquanto ele utilizava seu tempo.

Segundo a CNN, a estratégia lembrava justamente a postura utilizada por Pablo Marçal nas eleições municipais de São Paulo em 2024, e Marçal participou da preparação de Flávio para o debate. Não vejo problema em um candidato utilizar técnicas de comunicação ou preparar-se para explorar as regras disponíveis. O que me incomoda é o objetivo. Em determinados momentos, parecia haver menos preocupação em demonstrar capacidade para governar e mais preocupação em produzir cortes de vídeo, reações e cenas destinadas às redes sociais.

Essa impressão tornou-se ainda mais forte ao observar o entorno da candidatura. Antes do debate, Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato gravaram vídeos provocando Fernando Haddad e chamando-o de “desempregado” por ter perdido a eleição paulista. Durante o programa, Nikolas mandou Sidônio Palmeira, responsável pela comunicação de Lula, calar a boca e fez gesto de silêncio em direção a Janja. Pablo Marçal dava instruções e gesticulava da plateia. Houve ainda uma discussão direta entre Sidônio e Fábio Portela, responsável pela comunicação de Flávio.

É importante registrar que a desordem não partiu apenas de um lado. Janja também se manifestou da plateia, dizendo “mentira” durante uma fala de Flávio, e a produção da Band precisou intervir. Gritos, gargalhadas, assobios e manifestações de convidados de ambos os candidatos interromperam as considerações finais por mais de dois minutos. A mediação precisou lembrar repetidamente que “a plateia não é parte do debate”.

Portanto, a crítica não deveria transformar o lado de Lula em exemplo impecável de comportamento. Não foi. Mas, na minha leitura, havia algo especialmente incômodo na estratégia deliberadamente construída ao redor da provocação. A campanha de Flávio parecia considerar a capacidade de tirar Lula do sério quase uma demonstração de competência política. Pode funcionar como estratégia eleitoral. Ainda assim, considero legítimo perguntar se esse é o padrão de comportamento que queremos associar à Presidência da República.

O presidente não deveria precisar competir pela atenção com a plateia

Foi sobretudo nas considerações finais que tive a sensação de desrespeito não apenas a Lula, mas ao próprio eleitor que acompanhava o debate. Independentemente de gostar ou não do presidente, ele possuía um tempo determinado pelas regras para dirigir-se aos brasileiros. Flávio possuía o mesmo direito. Quando convidados transformam esses minutos em espaço para gargalhadas, gritos, assobios e provocações, não estão atingindo apenas o adversário político: estão interferindo no direito de quem está assistindo de ouvir aquilo que os candidatos têm a dizer.

Esse talvez seja o ponto que mais me incomodou. O Brasil não estava assistindo a uma live entre influenciadores. Tratava-se de um debate entre duas pessoas que podem governar um país de mais de 200 milhões de habitantes, uma das maiores economias do planeta e uma democracia que passou nos últimos anos por tensões institucionais profundas. Existe uma diferença entre ser combativo e transformar o confronto político em espetáculo permanente.

Também por isso considero que Lula deveria ter resistido melhor à provocação. Chamar Flávio de “malandro carioca”, por exemplo, pouco contribuiu para elevar o debate e acabou oferecendo ao adversário um direito de resposta. Em outro momento, ao dizer que queria “distância de miliciano”, Lula transformou uma discussão complexa sobre o histórico das relações políticas de Flávio com personagens posteriormente ligados às milícias em um rótulo direto. O debate público ganha mais quando essas acusações são apresentadas com precisão do que quando são comprimidas em uma palavra de efeito. A Folha registrou essas trocas e também apontou que os dois candidatos utilizaram afirmações imprecisas ou distorcidas durante o confronto.

Nesse aspecto, nenhum dos dois pode reclamar exclusivamente do rebaixamento do nível da discussão.

Houve propostas, mas elas ficaram escondidas atrás do confronto

Seria igualmente injusto afirmar que absolutamente nada de programático apareceu. Flávio discutiu segurança pública, defendeu endurecimento de penas, ampliação do sistema prisional e sua proposta de combate às facções. Lula falou sobre economia, papel das estatais, distribuição de renda, saúde e política externa. Houve também confronto sobre a escala 6×1, relações com os Estados Unidos e a situação das empresas públicas. A própria Band reuniu posteriormente esses temas em seu resumo do debate.

O problema foi a proporção. Quando um debate presidencial é lembrado poucas horas depois principalmente pelas caminhadas atrás do adversário, pelas provocações da plateia, por parentes, lobistas, filmes, gargalhadas e bate-bocas entre marqueteiros, alguma coisa deu errado. Não porque corrupção ou integridade sejam temas irrelevantes — pelo contrário —, mas porque escolher um presidente exige compreender simultaneamente caráter, histórico e projeto de país.

Eu queria ter ouvido mais sobre como Flávio pretende executar o forte ajuste fiscal que promete sem comprometer investimento público, quais áreas seriam atingidas pelo “tesouraço” e como sua proposta de segurança pública funcionaria na prática. Queria ter ouvido Lula explicar de maneira mais clara como pretende conciliar investimento, política industrial, redução da dívida e crescimento econômico durante outro mandato. Queria ouvir os dois discutindo produtividade, educação básica, infraestrutura, inteligência artificial, indústria, transição energética e financiamento dos serviços públicos.

O Brasil chegará à votação de 25 de outubro precisando decidir muito mais do que quem conseguiu irritar quem em um estúdio de televisão.

Para quem pensa em votar branco ou nulo, o debate ofereceu pouco

Tenho a impressão de que o grupo que saiu mais confortável do debate foi justamente aquele eleitor que já olhava para Lula e Flávio com rejeição. Não estou afirmando que votos brancos e nulos cresceram depois de domingo — ainda não existe evidência suficiente para transformar essa impressão em fato eleitoral. Mas o encontro ofereceu poucos argumentos para convencer alguém decepcionado com as duas candidaturas de que a disputa política brasileira conseguiu superar sua lógica de hostilidade permanente.

Uma análise publicada pelo UOL com eleitores indecisos captou algo semelhante: participantes perceberam Lula como destreinado e Flávio como agressivo, e alguns demonstraram desconforto justamente com o estilo provocador do senador. Outra rodada de análises do próprio UOL descreveu frustração generalizada com os dois desempenhos e com a escassez de propostas. Isso não permite concluir como essas pessoas votarão, mas mostra que a sensação de um debate incapaz de conquistar o eleitor hesitante não é apenas uma impressão isolada.

É uma situação ruim para a democracia. Quando o eleitor chega ao segundo turno considerando ambos os candidatos inadequados e liga a televisão esperando ser convencido de que existe algum projeto capaz de representar suas preocupações, um debate dominado por hostilidade pode produzir precisamente o efeito contrário: reforçar a sensação de que a política se tornou uma guerra entre grupos que falam principalmente para aqueles que já escolheram um lado.

Continuo tendendo a Lula — mas não por causa do desempenho de domingo

Minha posição depois do debate permanece mais próxima de Lula, mas é importante explicar o que isso significa. Não considero que ele tenha feito uma boa apresentação. Achei-o mal preparado, pouco disciplinado no uso do tempo e excessivamente disposto a acompanhar Flávio no terreno das provocações. Em uma disputa apertada, com milhões de brasileiros ainda distantes das duas candidaturas, esperava do presidente uma capacidade muito maior de transformar sua experiência política em contraste programático.

Minha inclinação continua relacionada muito mais aos projetos que estão em disputa do que à performance de domingo. Tenho divergências com o governo Lula e com o próprio PT, especialmente sobre escolhas econômicas e limitações de seu projeto de desenvolvimento, mas continuo vendo no campo representado por Lula maior proximidade com uma ideia de Estado que participe do desenvolvimento, invista em infraestrutura, ciência, tecnologia e indústria e preserve direitos trabalhistas. Isso não transforma Lula em candidato imune a críticas, nem faz de qualquer adversário alguém automaticamente ilegítimo.

É justamente por não ser lulista que considero necessário cobrar mais dele.

O fato de eu preferir um projeto não me obriga a fingir que seu candidato debateu bem.

Flávio tinha a oportunidade de mostrar algo além do bolsonarismo — e escolheu outra coisa

Flávio possuía talvez a maior oportunidade política da noite. Pela primeira vez no segundo turno, poderia apresentar-se diante de milhões de brasileiros não apenas como filho de Jair Bolsonaro ou representante do mesmo campo político, mas como alguém capaz de construir uma identidade presidencial própria. Poderia ter utilizado a experiência no Senado, explicar seu programa econômico, detalhar como pretende reorganizar o Estado e demonstrar que sua candidatura possui densidade maior do que a confrontação que caracterizou grande parte do bolsonarismo.

Em alguns momentos, ele apresentou propostas e demonstrou preparo. Mas, para mim, a decisão de combinar esse conteúdo com gestos atrás do adversário, ironias permanentes e uma equipe mobilizada para provocar enfraqueceu justamente a imagem presidencial que poderia ter construído. A estratégia pode ter rendido cortes favoráveis nas redes sociais. Minha dúvida é se isso basta para demonstrar aquilo que se espera de alguém que terá de negociar com Congresso, governadores, Supremo, empresários, sindicatos e chefes de Estado estrangeiros.

Esse julgamento é necessariamente político e subjetivo. Outros eleitores podem considerar essa agressividade demonstração de energia ou capacidade de enfrentamento. Para mim, produziu efeito oposto: pareceu incompatível com a gravidade institucional do cargo disputado.

O Brasil merecia mais

Talvez esse seja meu principal sentimento depois do primeiro debate entre Lula e Flávio Bolsonaro.

O Brasil merecia mais de Lula. Um presidente experiente, disputando mais uma eleição nacional, deveria ter chegado ao estúdio muito mais preparado para distinguir provocações de questões que realmente precisavam ser respondidas.

O Brasil também merecia mais de Flávio. Um candidato que pretende governar uma potência regional não deveria precisar transformar a irritação do adversário em um dos principais elementos de sua estratégia de comunicação.

E o Brasil certamente merecia mais das duas equipes. Quando assessores, aliados e convidados passam a disputar protagonismo dentro de um debate presidencial, o espetáculo começa a ocupar o espaço que deveria pertencer aos candidatos e, principalmente, ao eleitor.

Há ainda outro debate pela frente. Talvez essa seja a oportunidade para corrigir o rumo.

Lula precisa mostrar que experiência política também significa disciplina, clareza e capacidade de ignorar armadilhas. Flávio precisa decidir se quer parecer o candidato que domina melhor uma provocação ou alguém preparado para assumir a Presidência da República. E ambos precisam compreender que existe um Brasil fora de suas bases eleitorais que ainda espera respostas.

Depois de assistir ao encontro de domingo, não fiquei com a sensação de ter visto um vencedor claro.

Fiquei com uma sensação mais incômoda:

um país grande demais assistindo a um debate pequeno demais para ele.

FONTES

Band — debate completo entre Lula e Flávio Bolsonaro. Registro integral do primeiro confronto direto entre os candidatos no segundo turno. Rever o debate completo na Band

Band — principais temas do confronto. Resumo da emissora sobre segurança, economia, saúde, relações internacionais e acusações discutidas pelos candidatos. Acessar o resumo da Band

CNN Brasil — tensão e bate-boca entre as equipes. Reconstituição das discussões entre assessores, das intervenções de Nikolas Ferreira e Janja, da atuação de Pablo Marçal e da estratégia de Flávio no palco. Acessar a reportagem da CNN

Folha de S.Paulo — Lula e Flávio trocam acusações no debate. Relato detalhado dos principais confrontos, incluindo Lulinha, Dark Horse, escala 6×1 e o desempenho inicial de Lula. Acessar a reportagem da Folha

Folha de S.Paulo — checagem das afirmações dos candidatos. Verificação das informações incorretas, exageradas ou sem contexto utilizadas pelos dois lados durante o debate. Acessar a checagem

Jota — análise do confronto. Avaliação do peso das provocações, das respostas dos candidatos e da pequena presença de propostas durante o encontro. Acessar a análise do Jota

UOL — percepção de eleitores indecisos. Relato sobre a reação de eleitores que avaliaram Lula como pouco preparado e demonstraram desconforto com a agressividade de Flávio. UOL Notícias

Reuters — primeiro confronto do segundo turno. Cobertura internacional do encontro, destacando ataques pessoais, corrupção, economia, segurança e política externa. Reuters

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