Em 2011, Flávio Bolsonaro foi o único deputado estadual a votar contra a criação do Renda Melhor, programa fluminense destinado a complementar a renda de famílias em extrema pobreza. Chamou a iniciativa de “bolsa-farelo”, acusou-a de clientelismo eleitoral e tentou limitar o benefício a dois anos. Nos anos seguintes, associou programas de transferência à dependência e à manutenção eleitoral da pobreza. Quinze anos depois, candidato à Presidência, passou a definir o Bolsa Família como um “direito adquirido” e sua equipe econômica promete ampliar a proteção de beneficiários que entrarem no mercado de trabalho. Políticos podem mudar de opinião. O que merece ser discutido é como ocorreu uma transformação tão profunda — e por que parte das declarações antigas desapareceu das redes justamente quando o programa se tornou central na campanha.
A controvérsia começou novamente nesta segunda-feira, 19 de outubro, quando Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, apresentou uma proposta de transição de dois anos para beneficiários do Bolsa Família. Durante entrevista à CBN Bahia, Marques afirmou que pessoas atendidas pelo programa teriam uma transição para abrir um negócio ou aceitar emprego formal e declarou que elas não poderiam ficar “presas para sempre” ao benefício. A fala produziu repercussão imediata e interpretações diferentes sobre o que exatamente começaria a ser contado durante esses dois anos. Horas depois, tanto Daniella quanto Flávio enfatizaram que não pretendiam estabelecer um prazo máximo geral para permanência no Bolsa Família: segundo a versão detalhada posteriormente, famílias que aumentassem sua renda continuariam recebendo parte do benefício durante até 24 meses, com possibilidade de retorno caso voltassem à pobreza.
Esse esclarecimento precisa ser registrado porque não há base para afirmar que a campanha tenha formalmente proposto simplesmente expulsar todos os beneficiários depois de dois anos. Mas a repercussão abriu uma discussão que vai muito além da interpretação de uma frase. A referência feita por Daniella à experiência do governo Jair Bolsonaro, a linguagem de “emancipação” e, principalmente, o histórico político do próprio Flávio mostram que a ideia de estabelecer uma trajetória relativamente rápida de saída dos programas de transferência de renda não surgiu agora. Ela já estava presente em sua atuação parlamentar quando ele ainda era deputado estadual no Rio de Janeiro.
Em 2011, o prazo de dois anos já estava na proposta de Flávio
O episódio talvez mais importante dessa trajetória ocorreu em novembro de 2011. O governo do Rio de Janeiro enviou à Assembleia Legislativa o projeto que criava o Renda Melhor e o Renda Melhor Jovem, integrantes do programa Rio Sem Miséria. A Lei 6.088/2011 descrevia como objetivo proporcionar condições dignas às famílias em extrema pobreza e criar oportunidades para que superassem essa condição de maneira sustentável. O Renda Melhor complementava a renda de famílias já vinculadas ao Bolsa Família, enquanto o Renda Melhor Jovem acrescentava incentivos associados à permanência de adolescentes no ensino médio.
A Assembleia aprovou a proposta por 54 votos a 1. O único voto contrário foi o de Flávio Bolsonaro. Nas redes sociais, ele comemorou ter sido o único parlamentar a se posicionar contra o programa e passou a chamá-lo de “bolsa-farelo”, argumentando que a política possuía caráter clientelista eleitoral. Mais importante para a discussão de 2026, Flávio também informou ter apresentado uma emenda estabelecendo dois anos como período máximo de recebimento do benefício. A proposta não foi aprovada. Durante a discussão na Alerj, reconheceu que caberia ao Estado oferecer meios para que pessoas alcançassem autonomia em áreas como educação, saúde e ascensão social, mas afirmou que uma transferência dessa natureza não deveria possuir caráter permanente.
É justamente essa coincidência histórica que torna a atual controvérsia mais interessante. Não significa que a proposta de 2011 seja tecnicamente idêntica àquela apresentada pela campanha presidencial de 2026 — não é. A proposta contemporânea foi posteriormente descrita como uma extensão da proteção para famílias cuja renda aumente, enquanto a emenda de 2011 pretendia fixar um prazo máximo para o programa estadual. Mas o número de dois anos, a linguagem da emancipação e a preocupação com a permanência prolongada em programas sociais aparecem nos dois momentos. Tratar a fala de Daniella como se tivesse surgido completamente desconectada da trajetória de Flávio apagaria uma parte relevante de seu histórico político.
“Bolsa-farelo” não apareceu apenas uma vez
O voto contra o Renda Melhor também não foi uma manifestação isolada perdida no começo da carreira parlamentar. Levantamento da AP Exata Inteligência, posteriormente publicado pelo Estadão e reproduzido pelo UOL, recuperou uma sequência de postagens de Flávio entre 2010 e 2014 nas quais programas de transferência de renda eram associados à dependência econômica e à obtenção de apoio eleitoral. Em 2010, ele vinculou Bolsa Família, cestas básicas e “esmola” à troca de votos. Em 2011, além da controvérsia envolvendo o Renda Melhor, criticou reajustes em programas sociais federais. Em 2013, voltou a utilizar a expressão “bolsa-farelo” ao acusar o PT de perpetuar a pobreza para manter apoio eleitoral.
Há uma concepção relativamente coerente atravessando essas manifestações: o receio de que transferências sociais possam produzir dependência política e econômica e de que governos tenham incentivos para manter beneficiários vinculados aos programas. Essa é uma crítica que existe há décadas no debate sobre assistência social e pode ser discutida legitimamente. O problema é que, para avaliá-la, também precisamos confrontá-la com as evidências produzidas posteriormente sobre programas como o Bolsa Família e com a própria mudança de discurso de Flávio.
A ideia de que beneficiários permaneceriam simplesmente fora do mercado de trabalho para preservar o auxílio é difícil de conciliar com uma realidade em que milhões deles trabalham, inclusive formalmente. O desenho atual do Bolsa Família possui justamente uma Regra de Proteção para impedir que o aumento de renda produza cancelamento imediato, reconhecendo oficialmente que conseguir emprego não significa superar a pobreza de maneira instantânea. A família pode continuar recebendo parte da transferência durante um período transitório, cujo prazo depende das regras aplicáveis ao caso, e existe ainda mecanismo de retorno caso a renda volte a cair.
Essa lógica é importante porque revela que proteção e emancipação não são necessariamente objetivos opostos. Uma família pode utilizar a transferência justamente enquanto começa a aumentar sua renda, até construir estabilidade suficiente para deixá-la.
Em 2026, o “bolsa-farelo” virou “direito adquirido”
O contraste com o discurso atual é considerável. Em junho deste ano, durante evento em São Paulo, Flávio Bolsonaro afirmou que o Bolsa Família havia se tornado um “direito adquirido” do povo brasileiro e criticou a ideia de que seus beneficiários simplesmente não querem trabalhar. Também demonstrou compreender uma preocupação real presente entre trabalhadores pobres: alguém que começa um emprego formal pode temer perder imediatamente o benefício e, pouco depois, ser demitido, ficando sem uma fonte ou outra de renda. Sua proposta, afirmou, seria ampliar a segurança durante essa passagem.
Questionado sobre a aparente mudança em relação às declarações antigas, Flávio negou que houvesse contradição. Segundo sua explicação, sempre teria defendido mobilidade social e seria contrário não à existência da transferência, mas ao seu uso clientelista e à ausência de caminhos para autonomia. Em sua interpretação, ampliar uma regra de proteção seria coerente com essa concepção: o benefício existiria, mas acompanhado de mecanismos que permitissem às famílias aumentar sua renda sem medo de perder imediatamente a proteção.
É uma explicação que precisa ser registrada. Ao mesmo tempo, ela não elimina o contraste documental. Em 2011, Flávio votou sozinho contra a criação de um programa destinado à extrema pobreza, chamou-o de “bolsa-farelo” e tentou limitar sua duração a dois anos. Em outras publicações, relacionou transferências sociais à dependência e ao interesse eleitoral. Em 2026, considera o Bolsa Família um direito, critica o preconceito contra beneficiários e promete protegê-los por mais tempo quando entrarem no mercado de trabalho. As duas posições pertencem ao mesmo político e fazem parte do histórico que deve ser conhecido quando suas propostas atuais são avaliadas.
Mudar de opinião não deveria ser um problema
Não existe nada de necessariamente condenável em um político mudar de posição ao longo de quinze anos. Na realidade, seria estranho exigir que qualquer pessoa permanecesse vinculada para sempre às opiniões que possuía em 2011. Políticas públicas geram evidências, sociedades mudam, experiências administrativas produzem novos aprendizados e posições políticas podem amadurecer. Se dados posteriores convenceram Flávio de que o Bolsa Família não produz a dependência que imaginava ou de que sua função social é maior do que reconhecia anteriormente, rever a posição seria perfeitamente legítimo.
A questão democrática surge quando uma transformação dessa dimensão não é explicada claramente. Um político pode dizer que estava errado, que mudou de opinião diante de novos dados ou que continua defendendo os mesmos princípios, mas encontrou instrumentos melhores para realizá-los. Qualquer dessas respostas permitiria ao eleitor avaliar a coerência da mudança. O que não ajuda o debate público é tratar o discurso atual como se todo o histórico anterior simplesmente não existisse.
E é nesse ponto que outro episódio ocorrido nesta semana ganha relevância.
As publicações antigas foram apagadas
Nesta terça-feira, 20 de outubro, reportagens informaram que diversas publicações antigas utilizadas pelo levantamento do Estadão já não estavam mais disponíveis na conta de Flávio no X. O jornal havia preservado cópias dos posts quando realizou sua reportagem em junho e constatou posteriormente que mensagens nas quais Flávio atacava programas sociais, utilizava a expressão “bolsa-farelo” e associava o Bolsa Família à manutenção da pobreza haviam sido excluídas. Entre os registros desaparecidos estavam justamente publicações relacionadas ao Renda Melhor e às críticas feitas entre 2011 e 2014. Procurada pelas reportagens para explicar as exclusões, a campanha não havia apresentado justificativa até as publicações consultadas.
É importante não atribuir automaticamente uma motivação que não podemos demonstrar. A exclusão dos posts não prova, por si só, que tenha existido uma operação deliberada para ocultar o passado com finalidade eleitoral. Perfis políticos removem publicações por várias razões e a intenção específica de Flávio precisaria ser explicada por ele próprio. O fato jornalisticamente verificável é mais simples: declarações antigas que contrastam com seu discurso atual estavam disponíveis, foram preservadas por jornalistas e posteriormente deixaram de estar acessíveis em seu perfil.
Esse fato ganha peso justamente porque o Bolsa Família tornou-se um assunto eleitoralmente importante. Desde fevereiro, Flávio passou a afirmar publicamente que programas sociais serão preservados enquanto houver pessoas que precisem deles; em junho os classificou como direitos; e, agora, sua campanha tenta apresentar uma proposta de ampliação da proteção na passagem para o mercado formal. O eleitor tem direito a conhecer tanto essa posição quanto aquela registrada quinze anos antes.
A fala de Daniella importa justamente por causa desse histórico
Nesse contexto, a declaração de Daniella Marques ganha uma dimensão diferente. Se fosse analisada isoladamente, poderia ser tratada apenas como uma formulação pouco clara rapidamente corrigida pela campanha. A coordenadora falou em dois anos, disse que beneficiários não poderiam permanecer “presos para sempre” e associou a proposta ao modelo adotado durante o governo Bolsonaro; depois, ela e Flávio esclareceram que os dois anos seriam uma extensão da proteção para pessoas cuja renda aumentasse.
Mas o histórico mostra que a ideia de porta de saída possui raízes anteriores dentro do pensamento político de Flávio. Quinze anos antes, ele já defendia prazo máximo de dois anos para uma transferência estadual e criticava seu caráter permanente. Anos depois, associava programas semelhantes à reprodução da dependência. Por isso, a questão relevante não precisa ser formulada como a acusação de que a campanha pretende secretamente acabar com o Bolsa Família — não há evidência suficiente para afirmar isso. A pergunta mais precisa é qual deve ser o objetivo prioritário de uma política social: reduzir o tempo de permanência no programa ou reduzir as condições materiais que tornam aquela permanência necessária?
Essa diferença parece pequena, mas altera completamente a política pública. Se o foco principal estiver no número de beneficiários, retirar pessoas da folha pode ser apresentado como sucesso mesmo quando a renda delas continua insuficiente. Se o foco estiver na redução efetiva da pobreza, o benefício deveria desaparecer apenas como consequência de uma transformação da vida material daquela família.
Uma família não deixa de ser pobre porque deixou de constar numa folha
É exatamente nesse ponto que a ideia de “emancipação” precisa de alguma cautela. Emprego formal é uma conquista importante, mas não produz automaticamente segurança econômica. Uma pessoa pode conseguir carteira assinada ganhando pouco, sustentar vários dependentes, pagar aluguel, transporte e alimentação e continuar sem qualquer patrimônio capaz de protegê-la de uma demissão. Abrir uma pequena empresa também não significa imediatamente prosperidade: receita não é lucro, pequenos empreendedores enfrentam oscilação de demanda e um negócio que começa com crédito pode terminar em dívida caso não funcione.
O próprio desenho da atual Regra de Proteção reconhece essa realidade ao permitir que determinadas famílias continuem recebendo parte do benefício depois que a renda aumenta. O Ministério do Desenvolvimento Social afirma expressamente que a superação da pobreza não ocorre automaticamente quando alguém encontra emprego e que é necessário período de adaptação e estabilização.
Portanto, não existe contradição necessária entre defender que pessoas saiam do Bolsa Família e defender que permaneçam nele enquanto ainda estiverem vulneráveis. O ideal de qualquer programa focalizado é que menos famílias precisem dele no futuro. A questão é como esse número diminui. Se diminui porque salários cresceram, empregos se estabilizaram, filhos tiveram acesso à escola e creche e as famílias passaram a possuir renda suficiente para viver sem transferência, houve mobilidade social. Se diminui apenas porque regras ficaram mais rígidas ou um prazo administrativo terminou, houve redução do programa — não necessariamente redução da pobreza.
O debate não precisa escolher entre a fala antiga e a nova
Talvez esse seja o aspecto mais importante deste histórico. A posição atual de Flávio precisa ser apresentada com precisão. Ele afirma que não pretende acabar com o Bolsa Família, considera a política um direito, diz reconhecer a vulnerabilidade de quem já passou fome e pretende ampliar a proteção daqueles que aumentem a renda. Depois da controvérsia de segunda-feira, sua campanha afirmou que os dois anos significariam justamente mais segurança, e não um ultimato aos beneficiários.
Mas o passado também precisa permanecer no mesmo enquadramento. Em 2011, ele foi o único voto contrário ao Renda Melhor, chamou a política de “bolsa-farelo” e defendeu limitá-la a dois anos. Nos anos seguintes, voltou a associar transferências à dependência e ao uso eleitoral da pobreza. Em 2026, essas publicações antigas deixaram de estar disponíveis em seu perfil justamente quando ele passou a apresentar uma linguagem muito mais favorável aos programas de renda.
Não é necessário escolher antecipadamente uma explicação para esse contraste. Pode representar amadurecimento político, aprendizado, adaptação às evidências, mudança ideológica ou reposicionamento eleitoral. A motivação não está documentada e cabe ao próprio Flávio explicá-la. O trabalho jornalístico é mostrar que a mudança existiu e oferecer ao leitor os elementos necessários para avaliá-la.
É justamente por isso que o histórico político importa. Campanhas são momentos em que todos os candidatos procuram apresentar a versão de si mesmos mais adequada ao eleitorado que precisam conquistar. Isso é parte natural da disputa democrática. Mas uma candidatura à Presidência não começa no momento em que a propaganda eleitoral é gravada; ela carrega votos, projetos, declarações e escolhas acumuladas ao longo de toda uma carreira pública.
No caso de Flávio Bolsonaro, essa carreira oferece um contraste particularmente claro.
Em 2011, “bolsa-farelo”.
Em 2026, “direito adquirido”.
Entre essas duas expressões existem quinze anos de política brasileira e uma mudança substantiva de discurso que merece mais explicação do que simplesmente fingir que uma delas nunca existiu.
Também por isso a discussão sobre a proposta de Daniella não deveria terminar na pergunta sobre se são doze, dezoito ou vinte e quatro meses de transição. Existe uma pergunta anterior: o que significa, de fato, emancipar uma família da pobreza?
A resposta não pode ser apenas tirá-la de uma lista.
Uma família não se torna autônoma porque deixou de receber o Bolsa Família. Ela deveria deixar de precisar do Bolsa Família porque se tornou autônoma.
E quando um candidato passa a defender como direito aquilo que antes chamou de instrumento de dependência e clientelismo, mudar de opinião não é o problema.
O que a democracia exige é que essa mudança também faça parte da história contada ao eleitor.
FONTES
Estadão Conteúdo/UOL — histórico das posições de Flávio Bolsonaro sobre o Bolsa Família. Levantamento baseado em publicações preservadas do parlamentar reconstrói a passagem das críticas ao Renda Melhor e ao Bolsa Família para a defesa do programa em 2026. Acessar a reportagem
Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro / Lei 6.088 de 2011 — Renda Melhor e Renda Melhor Jovem. Legislação que instituiu os programas estaduais destinados ao enfrentamento da pobreza extrema. Pantheon UFRJ
Folha de S.Paulo — posição atual de Flávio sobre o Bolsa Família. Reportagem de junho registra o candidato classificando o programa como “direito adquirido” e defendendo maior proteção para quem entrar no mercado de trabalho. Acessar a reportagem
UOL — declaração de Daniella Marques sobre a transição de dois anos. Registra a entrevista à CBN Bahia, a referência à autonomia econômica e a declaração de que beneficiários não poderiam ficar “presos para sempre”. Acessar a reportagem
Poder360 — esclarecimento posterior de Flávio Bolsonaro. O candidato negou que os dois anos representassem o encerramento geral do benefício e afirmou que seriam uma proteção para quem conseguisse emprego ou abrisse empresa. Acessar o esclarecimento
Ministério do Desenvolvimento Social — Regra de Proteção do Bolsa Família. Explica os mecanismos atuais que permitem a permanência temporária no programa após aumento da renda e o retorno em caso de nova vulnerabilidade. Consultar as regras oficiais
Estadão Conteúdo/O Dia — exclusão das publicações antigas. Reportagem de 20 de outubro registra que postagens utilizadas anteriormente para documentar as críticas de Flávio já não estavam disponíveis em sua conta no X. Acessar a reportagem



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