Trecho analisado: Gênesis 1:6–13
Neste estudo, acompanhamos o segundo e o terceiro dias da criação: o surgimento do firmamento, a separação das águas, o aparecimento da terra seca e o início da vegetação.
Depois de introduzir a luz e separar o dia das trevas, Gênesis avança para uma imagem que pode parecer estranha ao leitor moderno. Deus ordena que exista um “firmamento” no meio das águas, separando as águas inferiores das superiores. Em seguida, esse firmamento recebe o nome de céu. Somente depois as águas que permanecem abaixo são reunidas, a porção seca aparece e a Terra começa a produzir vegetação. Em poucos versículos, portanto, o texto passa de um mundo coberto pelas águas para uma realidade organizada em céu, mares e terra habitável.
Para quem lê a passagem no século XXI, é quase inevitável tentar visualizar o processo fisicamente: que águas seriam essas acima do céu? O firmamento seria a atmosfera? As nuvens? Uma estrutura sólida? Como poderiam existir plantas antes do Sol, que somente aparece no quarto dia da narrativa? São perguntas legítimas, mas elas também mostram a distância entre o nosso modo de imaginar o Universo e aquele disponível aos povos do antigo Oriente Próximo. Talvez, novamente, o ponto mais importante não seja descobrir qual fenômeno científico moderno estaria escondido atrás de cada palavra, mas compreender como o texto organiza o mundo para seus primeiros leitores e o que essa organização pretende dizer sobre a criação.
“Haja um firmamento no meio das águas”
Gênesis 1:6 introduz a palavra hebraica raqia, tradicionalmente traduzida em português como “firmamento”. A palavra está ligada ao verbo hebraico raqa, utilizado para ideias relacionadas a espalhar, estender ou achatar algo, e ao longo da história sua tradução produziu diferentes interpretações sobre aquilo que os autores bíblicos imaginavam existir acima da Terra. A antiga tradução grega da Bíblia utilizou stereoma, termo que carrega uma ideia de firmeza, enquanto a tradição latina empregaria firmamentum, origem direta do nosso “firmamento”. A partir daí consolidou-se no imaginário cristão a imagem de uma estrutura celeste que separaria o mundo das águas existentes acima dele.

The Creation of the Firmament, xilogravura de Paul Nash inspirada no relato de Gênesis sobre a separação das águas. Crédito: Paul Nash / Wellcome Collection / Wikimedia Commons — CC BY 4.0.
Entre estudiosos modernos, a natureza exata desse raqia continua discutida. Parte da pesquisa sobre a cosmologia do antigo Oriente Próximo sustenta que os autores bíblicos compartilhavam, em alguma medida, a concepção antiga de um céu semelhante a uma abóbada que estabelecia um limite entre a região habitável e águas superiores. Outros pesquisadores chamam atenção para o fato de que o verbo do qual raqia deriva expressa principalmente a ideia de extensão e que o termo pode ser entendido de maneira mais ampla como a expansão do céu. A própria utilização posterior da palavra dentro de Gênesis, relacionada tanto aos astros quanto ao espaço em que aparecem as aves, torna arriscado imaginar que exista consenso absoluto sobre sua composição física.
Talvez seja mais importante perceber aquilo que não está em discussão: a função do firmamento no relato é separar. O texto começa com águas e escuridão dominando a cena; depois da separação entre luz e trevas no primeiro dia, surge agora uma segunda grande fronteira. Há águas acima e águas abaixo. Entre elas existe o céu. O movimento que observamos no estudo anterior continua, portanto, praticamente sem interrupção: criar significa estabelecer distinções dentro de uma realidade ainda não organizada.
O mundo dos antigos não era o nosso Universo
Isso nos obriga a considerar uma questão delicada, mas fundamental para qualquer estudo sério da Bíblia. Os autores de Gênesis não conheciam o Universo da maneira como nós o conhecemos. Não possuíam o conceito moderno de atmosfera, não sabiam que a Terra orbita o Sol, desconheciam galáxias, gravidade, pressão atmosférica ou as dimensões do espaço. Como qualquer povo de sua época, observavam o céu a partir da superfície terrestre e procuravam compreender a estrutura do mundo utilizando aquilo que lhes era acessível.
Isso não é uma crítica à Bíblia; é simplesmente reconhecer que um texto nasce dentro de uma cultura. Quando observamos o céu sem instrumentos científicos, ele realmente parece formar uma grande superfície acima de nós. A chuva vem do alto, as nuvens carregam água e a linha do horizonte produz a impressão de que o céu encontra a terra ou o mar. Diversas civilizações antigas construíram cosmologias a partir dessas experiências, e o povo de Israel participou desse mesmo ambiente intelectual do antigo Oriente Próximo.
O material de estudo da Yale Divinity School destaca justamente que Gênesis 1 organiza a criação através de sucessivas separações: luz e trevas, águas superiores e inferiores, água e terra seca. Para os autores do estudo, a preocupação central do relato está em colocar cada parte do mundo em seu devido lugar. O que inicialmente aparece como uma realidade desordenada vai recebendo divisões, funções e nomes, e a cada nova etapa o mundo se torna progressivamente mais apto à vida.
Essa estrutura é especialmente importante para nossa interpretação porque permite ler o firmamento sem precisar escolher entre dois extremos. Não precisamos transformar raqia à força em uma descrição antecipada da atmosfera moderna, como se Gênesis estivesse secretamente explicando meteorologia; ao mesmo tempo, reconhecer que o autor possuía uma imagem antiga do cosmos não obriga o leitor religioso a concluir que o significado do texto desapareceu junto com aquela cosmologia. A representação física pertence ao mundo do autor; a mensagem construída através dela pode ultrapassar esse mundo.
As águas deixam de dominar
Depois da criação do firmamento, Gênesis volta sua atenção para as águas abaixo dele. Deus ordena que elas se reúnam em um único lugar para que apareça a porção seca. A terra seca recebe o nome de “Terra”, enquanto as águas reunidas são chamadas de “Mares”. Novamente, o ato criador acontece por meio da delimitação. Aquilo que antes ocupava toda a paisagem passa a ter fronteiras, e é justamente quando a água recebe seus limites que surge um espaço capaz de sustentar outra forma de existência.
Essa imagem possui uma importância particular dentro do universo bíblico porque o mar frequentemente aparece associado a forças difíceis de controlar. Outros textos da própria Bíblia conservam tradições em que Deus domina o mar ou estabelece limites para suas águas, como ocorre em determinados salmos e no livro de Jó. Gênesis 1 apresenta essa soberania de maneira extremamente serena: não há combate, esforço ou resistência. Deus ordena, as águas se reúnem e a terra aparece. A professora Christine Hayes, de Yale, chama atenção para esse contraste com narrativas do antigo Oriente Próximo nas quais a organização do cosmos envolve conflitos entre divindades ou seres ligados às águas primordiais. Em Gênesis, temas conhecidos naquele ambiente cultural são preservados, mas profundamente transformados.
Há também uma continuidade interessante com nossa primeira análise. Quando falávamos da criação como passagem da desordem para a ordem, poderíamos imaginar que isso se aplicava apenas ao primeiro versículo ou ao aparecimento da luz. Aqui percebemos que se trata de um princípio que percorre todo o capítulo. Luz e escuridão recebem seus espaços; águas superiores e inferiores são separadas; mar e terra recebem limites. Deus não está apenas acrescentando coisas ao Universo: está construindo relações entre elas.
Basílio de Cesareia e a tentativa de compreender o firmamento
A dificuldade de interpretar essa passagem está longe de ser moderna. No século IV, Basílio de Cesareia, um dos mais importantes autores cristãos da Antiguidade, dedicou uma de suas homilias do Hexaemeron especificamente ao firmamento. Seu texto é particularmente interessante porque mostra um cristão de aproximadamente 1.600 anos atrás tentando conciliar as Escrituras com o conhecimento sobre o mundo disponível em sua própria época.
Basílio discute a existência das águas superiores, a natureza do céu, a evaporação, as nuvens, a chuva e até teorias de filósofos gregos sobre a estrutura celeste. Algumas de suas explicações físicas evidentemente não correspondem ao conhecimento científico atual, mas isso é justamente o que torna o documento tão importante para nossa leitura: ele revela que os cristãos já interpretavam Gênesis utilizando as categorias intelectuais disponíveis em seu próprio tempo. Basílio não possuía nossa meteorologia, assim como o autor de Gênesis não possuía a ciência de Basílio, e nós provavelmente também não possuímos a descrição definitiva de toda a realidade física.
Existe, porém, uma observação particularmente interessante em sua homilia. Basílio pergunta como Deus “fala” ao ordenar a criação e rejeita a ideia de que a divindade precise literalmente de língua, ar, ouvido ou cordas vocais para produzir palavras. Para ele, a linguagem bíblica apresenta de forma compreensível uma ação divina que não precisa funcionar biologicamente como a fala humana. Mesmo defendendo uma leitura bastante concreta de outros elementos da criação, Basílio reconhecia que certas expressões bíblicas utilizavam linguagem humana para comunicar uma realidade divina diferente da nossa experiência comum.
Essa observação se aproxima bastante da questão que estamos desenvolvendo nesta série. Se ninguém precisa imaginar Deus produzindo ondas sonoras para aceitar o significado de “Deus disse”, por que toda imagem utilizada na narrativa necessariamente teria de corresponder a uma descrição física precisa segundo categorias modernas? O próprio processo de revelação, dentro de uma interpretação religiosa, pressupõe comunicação entre realidades radicalmente diferentes.
E então surge a terra
O terceiro dia amplia essa lógica. Depois de separar as águas e revelar a porção seca, Deus ordena que a própria terra produza vegetação: plantas que deem sementes e árvores que produzam frutos. Há aqui uma mudança importante. Até então, Deus havia estabelecido diretamente luz, firmamento, mares e terra. Agora a criação começa, em alguma medida, a participar do processo: “produza a terra”.

Representação do terceiro dia da criação, quando a terra produz plantas e árvores segundo o relato de Gênesis. Gravura de Nicolaes de Bruyn, a partir de Maerten de Vos. Crédito: Rijksmuseum / Wikimedia Commons — CC0.
A natureza criada deixa de aparecer somente como algo passivo e passa a possuir capacidade de gerar. A terra produz vegetação, e cada planta é descrita como capaz de gerar sementes “segundo a sua espécie”. Dentro da lógica do relato, começa a surgir aquilo que poderíamos chamar de continuidade da criação: o mundo recebe mecanismos que permitem que a vida continue se reproduzindo sem que cada nova árvore precise aparecer por um comando criador individual.
Isso não significa transformar Gênesis em uma antecipação da biologia moderna ou da evolução. O próprio guia de Yale alerta contra tentativas de converter os dias da criação em eras científicas ou identificar elementos do relato diretamente com processos descobertos pela cosmologia contemporânea. O texto possui uma estrutura literária própria e procura construir uma visão teológica da ordem do mundo, não apresentar uma teoria científica no sentido moderno.
Mas há algo filosoficamente importante nesse momento: o Criador produz uma realidade que passa a produzir. A existência de sementes representa continuidade, potencialidade e futuro. A árvore não encerra a criação nela mesma; carrega dentro de si a possibilidade de outras árvores. Podemos perceber aqui uma diferença entre criar um objeto pronto e criar um mundo dotado de processos próprios.
Plantas antes do Sol?
É nesse ponto que encontramos novamente uma dificuldade para uma leitura estritamente cronológica e científica. A vegetação aparece no terceiro dia, enquanto o Sol, a Lua e as estrelas somente serão introduzidos no quarto. Para a botânica moderna, sabemos que a luz solar possui papel essencial nos processos fotossintéticos das plantas. Se lermos a passagem como um relatório científico sequencial, portanto, surge imediatamente a pergunta de como essa vegetação existiria antes daquilo que hoje reconhecemos como sua principal fonte de energia.
Diversas tentativas de harmonização foram propostas, como imaginar que o Sol já existia e apenas se tornou visível no quarto dia ou interpretar cada “dia” como um longo período geológico. Essas leituras fazem parte da história contemporânea da interpretação bíblica, mas não são exigidas pelo próprio texto. Há uma alternativa mais simples: a ordem apresentada pode obedecer a uma arquitetura literária e teológica, e não a uma cronologia científica.
Isso fica mais perceptível quando observamos o capítulo inteiro. O primeiro dia estabelece luz e trevas; posteriormente os luminares ocuparão essa esfera. O segundo estabelece céu e águas; depois surgirão criaturas que ocupam esses ambientes. O terceiro estabelece terra e vegetação; posteriormente aparecem os animais terrestres e os seres humanos. Há, portanto, um movimento entre preparar espaços e posteriormente preenchê-los. O interesse do relato está muito mais claramente na construção de um cosmos ordenado do que na apresentação dos mecanismos físicos envolvidos em sua formação. O próprio guia de Yale chama atenção para o caráter altamente esquemático e repetitivo dessa estrutura.
Nossa leitura: Deus não precisava ensinar cosmologia para falar da criação
Aqui podemos avançar na hipótese que apresentamos no primeiro estudo. Se entendermos a revelação bíblica como uma comunicação de Deus aos seres humanos, não há motivo para esperar que ela forneça aos povos antigos conhecimentos que não eram necessários para compreender sua mensagem. Explicar pressão atmosférica, formação planetária, condensação de vapor, fotossíntese ou evolução estelar não tornaria a mensagem de Gênesis mais compreensível aos seus primeiros leitores; provavelmente faria exatamente o contrário.
A ideia de um firmamento separando águas era inteligível. A experiência de chuva descendo do céu era inteligível. A visão de mares delimitados pela terra era inteligível. A experiência de observar sementes produzindo plantas e árvores era inteligível. Gênesis trabalha justamente com essas experiências cotidianas e constrói, através delas, uma narrativa sobre uma realidade que deixa de ser indistinta e passa a possuir estrutura.
Sob essa perspectiva, não precisamos escolher entre dizer que o céu realmente é uma abóbada contendo um oceano cósmico ou acusar o texto de erro porque sabemos que essa estrutura física não existe. A cosmologia utilizada pertence ao horizonte de compreensão de seus autores e primeiros leitores. Se existe revelação nesse texto, podemos entendê-la justamente como uma mensagem transmitida por meio desse horizonte, e não como sua substituição por conhecimentos científicos que somente seriam construídos milhares de anos depois.
Talvez isso explique também por que a Bíblia continua compreensível mesmo depois de nossa visão do Universo ter mudado profundamente. A física descrita ou pressuposta por uma sociedade antiga pode envelhecer; a imagem de uma realidade recebendo limites, estrutura, fecundidade e ordem continua intelectualmente acessível. O firmamento deixa então de ser apenas um problema cosmológico e passa a representar algo central em Gênesis: criar é também estabelecer condições para que algo possa existir.
No primeiro dia, a luz foi separada das trevas. No segundo, as águas recebem uma divisão. No terceiro, o mar encontra seus limites e a terra passa a produzir vida. A criação avança não simplesmente porque novos elementos aparecem, mas porque cada um começa a ocupar um lugar e desempenhar uma função.
Do caos ao mundo habitável
Ao final do terceiro dia, estamos muito distantes da imagem apresentada em Gênesis 1:2. A realidade “sem forma e vazia”, coberta pelas águas e pelas trevas, agora possui luz e escuridão, céu, mares, continentes e vegetação. Ainda não existem animais nem seres humanos e, curiosamente, nem mesmo os astros que utilizamos para marcar nossos dias já apareceram na narrativa. Mesmo assim, o mundo começa a se tornar reconhecível.
Esse processo talvez seja a chave para compreender os primeiros dias de Gênesis. A criação não é apresentada apenas como surgimento da matéria, mas como transformação de uma realidade não ordenada em um mundo habitável. Limites tornam a existência possível. A separação entre mar e terra permite que exista solo; o céu estabelece outro domínio; a terra fértil produz aquilo que posteriormente servirá de alimento. Cada nova distinção prepara o caminho para algo que virá depois.
Nossa leitura continuará, portanto, evitando duas tentações opostas. Não procuraremos transformar cada frase de Gênesis em uma descoberta científica escondida, porque isso pode significar impor ao texto perguntas que seus autores nunca pretenderam responder. Mas também não trataremos suas imagens como detalhes descartáveis de um povo antigo. Firmamento, águas, terra e vegetação fazem parte da maneira como aquela sociedade compreendia o mundo e são precisamente as ferramentas através das quais sua reflexão sobre Deus, criação e ordem foi construída.
E isso nos leva diretamente ao próximo trecho. Se os três primeiros dias estabelecem luz, céu, mares, terra e vegetação, o quarto dia colocará no céu o Sol, a Lua e as estrelas. É aí que surge outra questão fascinante: por que Gênesis evita até mesmo chamar o Sol e a Lua pelos nomes e prefere falar simplesmente em “luminar maior” e “luminar menor”?
Essa escolha talvez diga muito mais sobre a mensagem religiosa do capítulo do que parece à primeira vista.
FONTES
Sefaria — Genesis 1:6–13. Texto hebraico de Gênesis utilizado para consulta da passagem e da expressão raqia.
Genesis 1:6–13 — Sefaria
Yale Bible Study — “Creation – Study Guide”. Estudo da Yale Divinity School sobre Gênesis 1–2, sua estrutura literária, as sucessivas separações realizadas durante a criação e a relação entre a narrativa e o contexto do antigo Oriente Próximo.
Creation – Study Guide — Yale Bible Study
Yale Open Courses — Christine Hayes, “The Hebrew Bible in Its Ancient Near Eastern Setting: Genesis 1–4 in Context”. Aula utilizada para contextualizar Gênesis dentro das tradições do antigo Oriente Próximo e analisar a criação como estabelecimento de ordem.
Genesis 1–4 in Context — Yale Open Courses
Basílio de Cesareia — Hexaemeron, Homilia III: “On the Firmament”. Comentário cristão do século IV dedicado especificamente ao segundo dia da criação, ao firmamento, às águas e às interpretações cosmológicas disponíveis na Antiguidade.
Hexaemeron, Homily III — New Advent



Deixe uma resposta