Há mais de sete décadas, quando começa o principal encontro anual de líderes das Nações Unidas, a primeira voz de um país a ocupar a tribuna é a brasileira. Não é ordem alfabética, não está previsto na Carta da ONU e não depende de quem ocupa a Presidência da República. A tradição começou nos primeiros anos da organização e transformou-se em uma das mais duradouras distinções da diplomacia brasileira.
Todos os anos, em setembro, presidentes, primeiros-ministros e representantes de quase todos os países do mundo se reúnem em Nova York para o Debate Geral da Assembleia Geral das Nações Unidas. É uma das poucas ocasiões em que Estados Unidos, China, pequenos países insulares do Pacífico, potências europeias, nações africanas e latino-americanas dividem formalmente a mesma tribuna e possuem, ao menos dentro daquele plenário, o mesmo direito de apresentar sua posição diante da comunidade internacional. Em 2026, o encontro da 81ª sessão reúne representantes dos 193 Estados-membros entre 22 e 28 de setembro. E, como ocorre há décadas, quando chega o momento de iniciar os discursos dos países, o primeiro nome chamado é o Brasil.
Pode parecer natural para quem cresceu assistindo às Assembleias Gerais, mas não existe uma regra determinando que o Brasil ocupe esse lugar. O privilégio não resulta da ordem alfabética, do tamanho da população, da dimensão da economia brasileira ou de alguma posição permanente dentro da estrutura das Nações Unidas. Tampouco significa que o presidente brasileiro seja literalmente a primeira pessoa a falar durante toda a cerimônia: o presidente da Assembleia Geral e o secretário-geral da ONU fazem pronunciamentos de abertura. Entre os representantes dos Estados-membros no Debate Geral, porém, o Brasil tradicionalmente ocupa a primeira posição; os Estados Unidos vêm logo depois, por serem o país anfitrião da sede da ONU.
E talvez seja justamente o caráter informal dessa tradição que a torne tão particular. Não há um artigo da Carta das Nações Unidas garantindo ao Brasil a abertura do debate. Trata-se de um costume diplomático que sobreviveu a mudanças de governos brasileiros, guerras, ditaduras, redemocratizações, transformações no sistema internacional e à expansão da própria ONU de algumas dezenas para 193 Estados-membros.
Uma tradição que começou muito antes de Lula, Bolsonaro, Dilma ou qualquer governo recente
É importante fazer uma correção que frequentemente se perde quando essa história aparece nas redes sociais: o Brasil não abre todas as reuniões da ONU e não foi, sem exceção, o primeiro país em todas as Assembleias Gerais desde a criação da organização. A tradição especificamente relacionada ao Debate Geral anual consolidou-se em 1955, durante a 10ª sessão da Assembleia Geral. A própria ONU Brasil descreve a posição brasileira como uma honraria que não foi formalmente institucionalizada. Desde então, o Brasil tornou-se o país que tradicionalmente inaugura a sequência de pronunciamentos nacionais.

As bandeiras das Nações Unidas e do Brasil. A posição brasileira na abertura do Debate Geral é uma tradição diplomática, não uma regra prevista na Carta da ONU. Foto: OLES2129 Uni Module/Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.
As raízes dessa posição, contudo, remontam aos primeiros anos das Nações Unidas e estão associadas à presença brasileira na formação da organização e especialmente ao diplomata Oswaldo Aranha. Em 1947, Aranha presidiu a primeira sessão especial da Assembleia Geral e posteriormente a segunda sessão regular. Seu nome tornou-se um dos mais conhecidos da diplomacia brasileira do período e sua atuação contribuiu para consolidar a presença do país numa instituição internacional que ainda estava construindo seus próprios rituais e costumes. A ONU Brasil relaciona a tradição da abertura justamente a essa participação histórica de Aranha.
Há também uma explicação tradicional segundo a qual, nos primeiros anos da organização, diversas delegações não demonstravam grande interesse em ocupar o primeiro lugar da lista de discursos e os brasileiros se mostravam dispostos a iniciar as intervenções. Com o passar das sessões, aquilo que começou como uma prática acabou adquirindo força de costume diplomático. O ponto importante é que não houve uma resolução concedendo formalmente esse direito ao Brasil; a posição se tornou tradição porque foi repetida e reconhecida ao longo das décadas. Documentos históricos da própria Assembleia mostram que, já nos anos 1960 e 1970, representantes brasileiros se referiam explicitamente ao privilégio de abrir o Debate Geral como uma tradição consolidada.
Quando o Brasil fala, o restante do mundo ainda está ouvindo
Ser o primeiro país a ocupar a tribuna não concede ao Brasil poder jurídico adicional dentro da ONU. O voto brasileiro na Assembleia Geral continua tendo o mesmo peso formal do voto de qualquer outro Estado-membro, e a posição na ordem dos discursos não oferece poder de veto nem qualquer autoridade sobre os países que falarão depois. O significado é principalmente diplomático e simbólico.
Mas simbolismo importa em diplomacia. A abertura ocorre justamente quando o interesse internacional pelo encontro está no ponto mais alto, com dezenas de chefes de Estado presentes em Nova York, equipes diplomáticas reunidas e cobertura de veículos de imprensa de praticamente todo o mundo. Ser o primeiro país significa apresentar uma das primeiras leituras nacionais daquele momento internacional e, potencialmente, colocar determinados temas na conversa que continuará durante os dias seguintes.
Isso ajuda a explicar por que os discursos brasileiros na Assembleia Geral frequentemente assumem um caráter mais amplo. Em vez de tratar exclusivamente de assuntos internos, sucessivos governos utilizaram aquela tribuna para apresentar posições brasileiras sobre guerra e paz, desenvolvimento, comércio internacional, meio ambiente, desigualdade, reforma das instituições multilaterais e relações entre países ricos e países em desenvolvimento. O conteúdo naturalmente muda conforme o governo e o contexto histórico, mas a posição de abertura permanece.
E existe uma dimensão interessante nisso: a tradição é do Estado brasileiro, não de um presidente específico. Governos ideologicamente muito diferentes ocuparam aquela mesma posição. Presidentes civis e militares, governos de esquerda, centro e direita, chanceleres e representantes diplomáticos brasileiros já abriram o debate. A continuidade sobrevive justamente porque se transformou em patrimônio da diplomacia do país, não de uma administração.
Em 2026, isso voltou a acontecer. O Debate Geral da 81ª Assembleia Geral começou em 22 de setembro e o Brasil novamente foi o primeiro Estado-membro a ocupar a tribuna, seguindo uma prática que a própria ONU registra como existente desde 1955. Os Estados Unidos falaram depois, mantendo o segundo lugar tradicional reservado ao país anfitrião.
Oswaldo Aranha e um pedaço pouco conhecido da história brasileira
A presença de Oswaldo Aranha nessa história também ajuda a lembrar que a diplomacia brasileira possui uma trajetória internacional anterior ao papel que o país desempenha atualmente. Quando as Nações Unidas ainda davam seus primeiros passos após a Segunda Guerra Mundial, o Brasil já participava das discussões sobre a construção da nova ordem internacional.

Oswaldo Aranha em 1935, quando exercia funções centrais na diplomacia brasileira. Décadas depois, seu nome ficaria associado aos primeiros anos da Assembleia Geral das Nações Unidas. Foto: Los Angeles Times/UCLA Library — CC BY 4.0.
Aranha presidiu em 1947 a sessão da Assembleia Geral que tratou, entre outros temas, da questão da Palestina e posteriormente presidiu a segunda sessão regular da Assembleia. Sua atuação naquele período tornou seu nome estreitamente ligado aos primeiros anos da organização. A história da abertura brasileira não deve ser reduzida à atuação de uma única pessoa, mas a presença de Aranha é uma parte central da explicação apresentada pela própria ONU para a consolidação dessa distinção.
Há algo especialmente curioso quando se observa a dimensão do ritual atual. A ONU de 1945 começou com 51 Estados-membros. Hoje são 193. Impérios desapareceram, novos países surgiram, a Guerra Fria começou e terminou, a China mudou de representação dentro da organização, dezenas de países africanos e asiáticos conquistaram independência e o sistema internacional sofreu transformações profundas. Mesmo assim, quando chega setembro e os representantes nacionais começam a subir à famosa tribuna verde da Assembleia Geral, uma prática construída nos primeiros anos da organização continua praticamente intacta.
Primeiro, Brasil.
Depois, Estados Unidos.
E somente então começa a sequência dos demais países, cuja ordem é organizada considerando fatores como nível de representação e questões de protocolo.
É um privilégio simbólico — mas não é pouca coisa
Seria exagerado transformar a tradição numa demonstração de que o Brasil possui mais poder dentro das Nações Unidas do que realmente possui. O país não é membro permanente do Conselho de Segurança, não possui direito de veto e enfrenta, como qualquer potência média, limites concretos para transformar suas posições diplomáticas em decisões internacionais. A abertura do Debate Geral não altera essa estrutura.

Plenário da Assembleia Geral das Nações Unidas durante a abertura do Debate Geral de 2025. O Brasil tradicionalmente realiza o primeiro pronunciamento entre os Estados-membros. Foto: Ricardo Stuckert/PR — CC BY-SA 4.0.
Mas também seria um erro tratar a posição como uma curiosidade sem significado.
A diplomacia é constituída não apenas por tratados e votos, mas também por precedentes, reconhecimento, protocolos e símbolos. Quando representantes de praticamente todos os países do mundo se reúnem para apresentar suas visões sobre o estado do planeta, há mais de sete décadas o primeiro país convidado a falar é o Brasil. Não porque uma regra obrigue a ONU a fazer isso, mas porque um costume construído nos primeiros anos da organização tornou-se suficientemente forte para atravessar gerações.
Para um país que frequentemente discute qual é exatamente seu lugar no mundo — latino-americano, potência regional, país em desenvolvimento, integrante dos BRICS, parceiro do Ocidente e ao mesmo tempo representante recorrente de posições do Sul Global — há alguma força simbólica nessa imagem.
Antes de Washington apresentar sua posição, antes de Pequim, Londres, Paris ou Moscou ocuparem a tribuna, a Assembleia ouve uma voz em português.
Não significa que o Brasil seja mais poderoso que esses países.
Significa algo diferente: em um dos rituais diplomáticos mais importantes do mundo, existe um lugar que a história reservou ao Brasil e que, depois de mais de 70 anos, continua sendo reconhecido.
FONTES
ONU Brasil — Assembleia Geral da ONU 2026
Explica a realização da 81ª Assembleia Geral e registra que o Brasil abre o Debate Geral desde 1955, além da relação histórica com Oswaldo Aranha. (As Nações Unidas em Brasil)
Nações Unidas — Como funciona o Debate Geral
Confirma a tradição pela qual o Brasil fala primeiro entre os Estados-membros, seguido pelos Estados Unidos como país anfitrião. (Nações Unidas)
ONU Brasil — História da abertura brasileira
Apresenta a origem histórica da tradição, sua natureza não institucionalizada e a participação de Oswaldo Aranha na Assembleia Geral. (As Nações Unidas em Brasil)
Assembleia Geral da ONU — Debate Geral de 2026
Página oficial da 81ª sessão, com as datas e informações sobre o Debate Geral de 2026. (Nações Unidas)
Biblioteca Digital da ONU — Assembleia Geral de 1972
Registro histórico em que o representante brasileiro já descrevia a abertura do Debate Geral como um privilégio e responsabilidade tradicional do Brasil. (Biblioteca Digital da ONU)



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