A cratera McGetchin surgiu entre abril e maio de 2024 e só foi descoberta depois, quando cientistas compararam imagens antigas e novas da superfície lunar. Com 222 metros de largura e 43 metros de profundidade, o impacto é estimado como um evento que ocorre aproximadamente uma vez por século — e revelou que uma colisão pode alterar uma área muito maior do que o buraco que deixa para trás.
Quando olhamos para a Lua, é fácil imaginar que estamos observando praticamente a mesma superfície que existia milhares ou até milhões de anos atrás. Não há chuva, rios ou ventos semelhantes aos terrestres desgastando montanhas e remodelando continuamente a paisagem. As marcas deixadas por colisões antigas permanecem visíveis durante períodos enormes, algumas por bilhões de anos. Mas isso não significa que nosso satélite tenha parado de mudar.
Em algum momento entre 11 de abril e 22 de maio de 2024, um asteroide ou cometa com dimensões estimadas na ordem de dezenas de metros atingiu a região oriental da Lua. A colisão escavou uma cratera de aproximadamente 222 metros de diâmetro e 43 metros de profundidade, grande o bastante para atravessar cerca de dois campos de futebol. Batizada oficialmente de McGetchin, em homenagem ao cientista lunar Tom McGetchin, ela é descrita pela NASA como a maior cratera recém-formada identificada até agora por esse tipo de monitoramento no Sistema Solar.
A NASA voltou a destacar a descoberta nesta quarta-feira, 23 de setembro, ao selecionar a comparação entre imagens anteriores e posteriores ao impacto como sua Astronomy Picture of the Day. Segundo a agência, o objeto responsável provavelmente tinha algo em torno de 10 a 20 metros, dimensão comparável à de uma baleia-jubarte e compatível com a estimativa de um corpo do tamanho aproximado de um prédio de três a seis andares. Modelos indicam que uma colisão capaz de produzir uma cratera dessa escala deve acontecer na Lua apenas aproximadamente uma vez a cada século — a estimativa citada pela NASA é da ordem de 132 anos, embora exista incerteza nesses cálculos.
A cratera estava ali — mas ninguém havia visto o impacto acontecer
Curiosamente, nenhum telescópio precisou registrar o momento exato da colisão para que os cientistas descobrissem quando ela aconteceu. O principal instrumento dessa investigação foi a Lunar Reconnaissance Orbiter, a LRO, sonda da NASA que orbita a Lua há mais de 17 anos e continuamente produz imagens e medições de sua superfície.

Animação compara a temperatura da superfície lunar antes e depois da formação da cratera McGetchin. A faixa azul revela uma área de cerca de 6,4 quilômetros ao redor do impacto que passou a ficar aproximadamente 9 °C mais fria durante a noite, consequência da alteração do regolito lunar. Imagem: NASA Goddard/UCLA/JHU APL.
A descoberta começou de maneira quase acidental. Em 24 de outubro de 2025, Robert Wagner, especialista em processamento de imagens que trabalha com dados da câmera LROC, realizava uma verificação rotineira em grandes mapas lunares quando percebeu uma mancha clara cercada por uma região escura. O padrão indicava que alguma coisa havia perturbado violentamente o regolito — a camada de poeira, fragmentos e rochas soltas que cobre a superfície lunar. Wagner comparou imagens de diferentes épocas e constatou que aquela estrutura não aparecia nos mapas anteriores.
Os cientistas então recorreram a fotografias de alta resolução. Imagens feitas posteriormente pela câmera de ângulo estreito da LRO mostraram claramente uma cratera que simplesmente não existia antes. Como havia registros da região antes e depois do impacto, foi possível restringir sua formação ao intervalo entre 11 de abril e 22 de maio de 2024. É quase como possuir fotografias de um terreno vazio e, algumas semanas depois, encontrar no mesmo lugar um enorme buraco cercado por material recém-lançado para todos os lados.
A diferença visual também chama atenção porque a região clara observada nas imagens não corresponde apenas à cavidade da cratera. Grande quantidade de material foi arremessada para fora durante a colisão, produzindo raios e alterações que se estendem muito além dos 222 metros do buraco central.
A Lua recebe impactos o tempo todo
McGetchin é excepcional pelo tamanho, mas impactos lunares não são raros. O que muda é a escala. Desde o início da missão LRO, pesquisadores já identificaram pelo menos mil novas crateras e aproximadamente 100 mil outras alterações na superfície relacionadas a colisões ou aos fragmentos lançados por elas. A maioria é muito menor do que McGetchin e muitos impactos são pequenos demais para serem individualmente reconhecidos nas imagens obtidas a partir da órbita.

A cratera McGetchin, formada após a colisão de um pequeno corpo celeste com a Lua entre abril e maio de 2024. Imagem: NASA/GSFC/Intuitive Machines.
Essa quantidade de colisões ocorre, em grande medida, porque a Lua praticamente não possui uma atmosfera capaz de protegê-la. Existe uma exosfera extremamente rarefeita, mas ela é tão tênue que não consegue frear ou destruir meteoróides como a atmosfera terrestre faz. Um objeto que cruza o caminho da Lua pode chegar à superfície praticamente sem encontrar resistência atmosférica. Com bilhões de anos de impactos acumulados, asteroides, cometas e partículas menores trituraram as camadas superficiais até produzir grande parte do material que hoje chamamos de regolito lunar.
A Terra também é atingida continuamente por material vindo do espaço. A diferença é que nossa atmosfera elimina uma enorme quantidade desses objetos antes que atinjam o solo, enquanto vento, água, vegetação e tectônica vão apagando ou deformando muitas das crateras que efetivamente se formam. Na Lua, sem rios ou chuvas e com atividade geológica superficial muito menor, as cicatrizes podem permanecer preservadas por períodos gigantescos. É por isso que olhar para a superfície lunar é, em certa medida, observar um arquivo da história de colisões de todo o Sistema Solar interno.
O impacto deixou uma área de 6 quilômetros estranhamente fria
A surpresa maior apareceu quando os cientistas deixaram de observar apenas fotografias e passaram a medir a temperatura do local. O instrumento Diviner, também instalado na LRO, detectou uma região de aproximadamente 6,4 quilômetros de largura ao redor da nova cratera que, durante a noite lunar, permanece cerca de 9 °C mais fria que as áreas vizinhas. É uma extensão quase trinta vezes maior do que o próprio diâmetro da cratera.
A explicação está no regolito. Durante o impacto, a enorme quantidade de energia transmitida ao solo sacudiu, lançou e reorganizou o material superficial. Parte dessa poeira e dos pequenos fragmentos ficou menos compactada, como se o impacto tivesse “fofado” uma enorme região ao redor da cratera. Um material mais poroso e menos denso conduz e retém calor de maneira diferente. Durante o dia lunar ele recebe energia do Sol, mas à noite perde calor mais rapidamente que as regiões mais compactadas.
Essa descoberta é importante porque mostra que uma colisão não modifica apenas aquilo que conseguimos identificar como cratera. O terreno ao redor pode ser fisicamente transformado numa escala dezenas de vezes maior. O próprio estudo menciona que diferenças desse tipo podem influenciar, por exemplo, a maneira como rodas de veículos lunares interagem com o regolito.
Isso é especialmente relevante num momento em que diferentes países e empresas planejam aumentar a atividade robótica e humana na Lua. Não significa que astronautas devam esperar uma cratera de 200 metros surgindo ao lado de uma futura base — eventos dessa magnitude são extremamente raros. Mas compreender quantos impactos ocorrem, como o solo responde e até que distância suas consequências se espalham ajuda a construir modelos mais precisos do ambiente lunar.
E se um objeto parecido atingisse a Terra?
Existe uma comparação interessante, mas que precisa ser feita com cuidado. O provável objeto que produziu McGetchin tinha dimensão semelhante à de corpos que também chegam às proximidades da Terra. Isso não significa que um asteroide do mesmo tamanho produziria aqui uma cratera igualmente grande, porque o resultado depende de velocidade, composição, ângulo de entrada e, principalmente, da nossa atmosfera.
Um exemplo conhecido aconteceu em Chelyabinsk, na Rússia, em 2013. O objeto que entrou na atmosfera terrestre tinha aproximadamente 17 a 20 metros de diâmetro, uma dimensão próxima da estimativa apresentada para o impacto lunar. Ele não abriu uma cratera semelhante à McGetchin: fragmentou-se em grande altitude e produziu uma poderosa explosão atmosférica, cuja onda de choque quebrou janelas e provocou danos em uma ampla região.
A comparação mostra simultaneamente a importância e os limites da nossa atmosfera. Ela não é um escudo perfeito, mas modifica completamente aquilo que acontece com muitos objetos pequenos e médios antes que alcancem o solo. Na Lua, esse amortecedor praticamente não existe.
Por isso, quando a NASA afirma que a descoberta é também um lembrete para valorizarmos a atmosfera terrestre, não se trata apenas de uma frase de efeito. O contraste entre os dois mundos pode ser visto diretamente na paisagem: a Lua preserva incontáveis marcas de impactos, enquanto na Terra boa parte dos pequenos corpos é destruída ou fragmentada antes mesmo de chegar à superfície.
Uma superfície antiga que continua mudando diante dos nossos olhos
Talvez o aspecto mais interessante da descoberta seja justamente a relação entre duas escalas de tempo muito diferentes. As principais feições da superfície lunar possuem bilhões de anos. Algumas crateras nasceram numa época em que a Terra era um planeta completamente diferente. Ao mesmo tempo, em 2024, enquanto bilhões de pessoas seguiam sua rotina aqui embaixo, um corpo vindo do espaço atingiu a Lua e criou uma nova formação com centenas de metros de extensão.
Ninguém precisou estar lá para vê-la surgir. Anos de imagens acumuladas por uma sonda permitiram comparar passado e presente e encontrar a diferença.
Esse é também um exemplo de como missões científicas continuam produzindo descobertas muito depois de seu lançamento. A Lunar Reconnaissance Orbiter chegou à Lua em 2009. Ao repetir continuamente as observações dos mesmos terrenos, a missão deixou de produzir apenas um mapa estático e passou a registrar mudanças acontecendo em tempo real geológico. A equipe consegue identificar crateras novas, deslizamentos, alterações superficiais e outros eventos que seriam invisíveis sem essa longa sequência de observações.
McGetchin não significa que a Lua esteja geologicamente ativa da mesma maneira que a Terra. Não são placas tectônicas ou chuvas esculpindo sua paisagem. Mas mostra que “antigo” não significa “imutável”.
Enquanto olhamos para aquela superfície aparentemente silenciosa no céu, pequenas partículas continuam atingindo-a todos os dias. De vez em quando, chega algo muito maior.
E, quando isso acontece, a Lua ganha uma cicatriz nova diante dos nossos olhos.
FONTES
NASA Science — Nova cratera McGetchin
Reportagem oficial com as dimensões da cratera, período de formação, descoberta pela LRO, frequência estimada do evento e alterações térmicas no regolito. NASA Science — McGetchin
NASA — Astronomy Picture of the Day, 23 de setembro de 2026
Comparação visual do terreno antes e depois da formação da cratera e estimativa do tamanho do objeto responsável. NASA APOD — McGetchin
Science Advances — estudo sobre a nova cratera lunar
Artigo científico utilizado pela equipe para descrever a formação e as características de McGetchin. Science Advances — estudo da cratera
Science Advances — efeitos térmicos do impacto
Estudo dedicado às alterações produzidas no regolito e à extensa região mais fria detectada ao redor da cratera. Science Advances — estudo térmico
NASA Science — A superfície e as crateras da Lua
Explica a ausência de uma atmosfera significativa, a formação do regolito e por que crateras permanecem preservadas durante períodos tão longos. NASA Science — Moon Facts
NASA/JPL — Meteoro de Chelyabinsk
Dados sobre o objeto de aproximadamente 17 a 20 metros que explodiu sobre a Rússia em 2013, útil para comparar os efeitos da atmosfera terrestre com o ambiente lunar. NASA/JPL — Chelyabinsk



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