Usina de lixo de Barueri prevê conclusão em 2027: entenda o projeto e as preocupações dos moradores

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Com capacidade projetada para receber até 870 toneladas de resíduos por dia, a unidade pretende transformar parte do lixo urbano em eletricidade. Sua implantação na região da Aldeia coloca em discussão os custos do tratamento, o controle das emissões e a participação da população no acompanhamento do empreendimento.

A Unidade de Recuperação Energética (URE) de Barueri está prevista para operar em 2027, segundo a Orizon, responsável pelo empreendimento. Em 17 de setembro, a Folha de Alphaville publicou que as obras haviam alcançado 87% de execução, conforme atualização da empresa, com conclusão esperada para o início do próximo ano. O cronograma é uma previsão empresarial.

Instalação de incineração de resíduos em Saga, no Japão, fotografada em 2017. A imagem é ilustrativa e não retrata a URE Barueri. Foto: Peka / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.

Instalada na Avenida Pirarucu, em Nova Aldeinha, a usina foi projetada para processar aproximadamente 300 mil toneladas anuais. A dimensão ajuda a explicar por que o assunto merece atenção para além do anúncio de uma nova obra: o projeto envolve o destino de grandes quantidades de resíduos e a convivência de uma atividade industrial com seu entorno urbano. Avaliar seus resultados exigirá acompanhar tanto a energia produzida quanto os materiais recebidos, os resíduos que permanecerão depois da queima e o desempenho dos controles ambientais.

Como o lixo pode virar eletricidade

A recuperação energética por combustão aproveita o calor liberado pela queima dos resíduos. Esse calor transforma água em vapor, que movimenta uma turbina conectada a um gerador. A eletricidade é, portanto, resultado de uma sequência industrial que exige recepção do material, alimentação da caldeira, controle da combustão e tratamento dos gases. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, a EPA, descreve esse funcionamento em sua documentação sobre geração de energia a partir de resíduos urbanos.

No caso de Barueri, a empresa apresenta a queima controlada como uma etapa posterior ao aproveitamento dos materiais por outras formas de tratamento. A proposta é recuperar energia da parcela encaminhada à unidade, reduzindo o volume que seguiria diretamente para disposição final. Esse benefício precisa ser analisado junto com as exigências do processo: a combustão produz gases e deixa cinzas, que também precisam de tratamento ou destinação adequada. A qualidade da operação depende desse conjunto de etapas.

O investimento precisa ser entendido junto com o contrato

O investimento estimado passou de R$ 600,5 milhões para R$ 641,3 milhões em relatório da S&P Global Ratings de agosto de 2025, citado pela Folha de Alphaville. É uma estimativa histórica, sem atualização confirmada nesta apuração. Segundo o jornal, a parceria público-privada com o município tem duração de 30 anos.

Para avaliar o efeito sobre as contas municipais, a análise precisa avançar além do preço da construção. É necessário conhecer a remuneração pelo tratamento dos resíduos, os reajustes previstos, a distribuição dos riscos e as obrigações assumidas pelas partes. O custo de implantação de uma instalação e os pagamentos públicos ao longo de um contrato são informações diferentes. Uma avaliação de economicidade também deve considerar coleta, transporte, tratamento, destinação das cinzas e fiscalização, usando critérios comparáveis aos das alternativas disponíveis.

Essa é uma questão concreta para quem mora em Barueri. Um contrato prolongado influencia a organização do serviço por muitos anos. Por isso, acompanhar eventuais aditivos, indicadores de desempenho e pagamentos permite verificar se o resultado entregue corresponde às obrigações contratadas. O anúncio do investimento, isoladamente, não permite concluir quanto a Prefeitura economizará ou desembolsará durante toda a operação.

As preocupações dos moradores exigem respostas verificáveis

A Folha de Alphaville registra oposição de moradores e do coletivo SOS Barueri, preocupados com a proximidade de residências e possíveis efeitos ambientais e na saúde. Esses questionamentos precisam ser examinados à luz dos estudos e do monitoramento.

A empresa informa que a instalação contará com tratamento dos gases e acompanhamento das emissões. Em sua explicação sobre a tecnologia, descreve sistemas destinados a controlar partículas e outros poluentes da combustão. A relevância desses equipamentos é reconhecida na documentação da EPA, que relaciona a evolução das exigências para incineradores à necessidade de controlar emissões, incluindo mercúrio e dioxinas. Essa referência explica a importância da fiscalização, mas não constitui uma avaliação específica da segurança da unidade de Barueri.

Para a população, o acompanhamento ganha utilidade quando responde a perguntas objetivas: quais substâncias serão medidas, com que frequência, quais limites precisam ser cumpridos e como serão tratadas eventuais falhas? Também importa saber onde esses resultados poderão ser consultados e como os moradores receberão respostas às suas reclamações. Informações claras sobre essas medidas permitem avaliar o funcionamento real da unidade e cobrar providências quando necessário.

As cinzas continuarão precisando de destino

A própria URE Barueri informa que as cinzas deverão representar entre 15% e 18% do material que entrar na caldeira. Nas perguntas frequentes, a empresa diferencia as cinzas do fundo da caldeira, destinadas a aterro classe 2, daquelas provenientes do tratamento dos gases, previstas para aterro classe 1. Também afirma que, durante a parada anual de manutenção, os resíduos serão encaminhados aos aterros utilizados pelo sistema.

Essas informações mostram que a gestão dos resíduos continuará envolvendo outras instalações e trajetos. O acompanhamento público precisa incluir o transporte, a quantidade e a destinação dos materiais remanescentes. A EPA observa que as características das cinzas variam conforme os resíduos queimados e o processo empregado, exigindo cuidados em seu manejo. Para Barueri, isso reforça a importância de acompanhar a classificação efetiva desses materiais e a comprovação de seu encaminhamento aos destinos autorizados.

A reciclagem precisa continuar avançando

A Política Nacional de Resíduos Sólidos estabelece uma ordem de prioridade: evitar a geração de resíduos, reduzir, reutilizar, reciclar, tratar e, por fim, dar destinação adequada aos rejeitos. A legislação admite tecnologias de recuperação energética, condicionadas à comprovação de viabilidade técnica e ambiental e a um programa de monitoramento de gases tóxicos aprovado pelo órgão ambiental. A geração de eletricidade precisa ser situada dentro dessa política mais ampla de gestão. (Lei nº 12.305/2010, artigo 9º)

Triagem manual de resíduos para reciclagem, em registro de março de 2006. A imagem é ilustrativa e não retrata a Cooperyara. Foto: Ignácio Costa / Agência Minas / Wikimedia Commons — CC BY 3.0.

A URE afirma que atuará de forma complementar à reciclagem e divulga ações de educação ambiental e apoio à Cooperyara, cooperativa do município. O programa descrito pela empresa inclui atividades com a comunidade, materiais educativos e capacitação de integrantes da cooperativa. São iniciativas apresentadas pela responsável pelo projeto, cujo efeito poderá ser acompanhado por indicadores como volume separado, recuperação de recicláveis e condições de trabalho dos cooperados.

Uma avaliação consistente deve observar se a coleta seletiva se expande e se materiais aproveitáveis continuam retornando à cadeia produtiva. A quantidade recebida pela usina, sozinha, não é uma medida suficiente do sucesso da política municipal. Também importa quanto lixo deixou de ser gerado e quanto foi recuperado antes de chegar ao tratamento térmico.

O que acompanhar até a entrada em operação

Até 2027, os pontos centrais para o acompanhamento são o cronograma atualizado, as autorizações aplicáveis, os resultados dos testes, as condições do contrato e a divulgação dos controles ambientais. Os documentos consultados para esta matéria não permitiram confirmar a situação atual da licença de operação. Portanto, a previsão anunciada pela empresa não deve ser apresentada como confirmação de que todas as etapas de autorização e verificação já foram concluídas.

Para os moradores, a discussão sobre a usina envolve o direito de compreender uma mudança importante na infraestrutura da cidade. A própria Política Nacional de Resíduos Sólidos reconhece o acesso à informação e o controle social entre seus princípios. Acompanhamento acessível, respostas documentadas e resultados publicados são caminhos para que Barueri avalie o empreendimento ao longo do tempo, considerando o serviço prestado, seus custos e seus efeitos sobre o território. (Lei nº 12.305/2010, artigo 6º)

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