O passado já não existe e o futuro ainda não chegou: afinal, o que é o tempo?

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Há mais de 1.600 anos, Santo Agostinho formulou uma das perguntas mais famosas da filosofia. Sua resposta não estava nos relógios nem no movimento dos astros, mas na memória, na atenção e na expectativa — e na diferença entre a existência humana e a eternidade de Deus.

Poucas coisas parecem tão evidentes quanto o tempo. Marcamos compromissos, contamos aniversários, lembramos do que aconteceu ontem e planejamos aquilo que faremos amanhã. Sabemos que cinco minutos parecem pouco diante de uma vida inteira e intermináveis quando esperamos por uma notícia importante. Organizamos praticamente toda a existência por horas, dias, meses e anos. Ainda assim, quando tentamos explicar exatamente o que estamos medindo, aquilo que parecia óbvio começa a escapar.

Foi diante desse problema que Santo Agostinho escreveu, no século IV, uma das passagens mais conhecidas das Confissões. Sua pergunta atravessaria séculos de filosofia: o que é o tempo? Agostinho percebe que, enquanto ninguém exige uma definição, parece que sabemos perfeitamente do que estamos falando; quando precisamos explicá-lo, porém, a certeza desaparece. O problema não surge porque nos faltam relógios suficientemente precisos, mas porque passado, presente e futuro possuem uma existência muito mais estranha do que normalmente percebemos.

A investigação aparece no Livro XI das Confissões, dentro de uma reflexão sobre a criação descrita no Gênesis. Agostinho não começa tentando construir uma teoria física do universo. A questão teológica vem primeiro: se Deus criou o céu e a terra, o que existia antes da criação? E o que Deus fazia “antes”? A própria pergunta, para Agostinho, contém um problema. Falar em antes já pressupõe a existência do tempo. Mas, se o tempo também pertence à criação, não pode haver um período anterior à criação no qual Deus estivesse simplesmente esperando para criar o mundo. Deus não existe dentro de uma sucessão de horas e anos como nós; Ele é apresentado como causa dos próprios tempos.

A pergunta sobre Deus acaba, então, levando Agostinho a uma pergunta sobre nós.

O passado desapareceu. O futuro ainda não existe. E o presente não para.

Imagine o dia de ontem. Ele certamente aconteceu. Podemos lembrar das pessoas que encontramos, das conversas que tivemos e dos lugares pelos quais passamos. Mas ontem, enquanto ontem, já não existe. Aqueles acontecimentos deixaram de estar presentes.

Agora pense em amanhã. Podemos marcar um compromisso para amanhã, temer alguma coisa que acontecerá amanhã ou esperar ansiosamente por ela. Porém, amanhã ainda não existe como acontecimento realizado. Ele permanece futuro justamente porque ainda não chegou.

Restaria então o presente. Mas Agostinho percebe que aqui surge outro problema. Se determinado intervalo presente possuir duração, ele pode ser dividido. Um ano contém meses; um mês contém dias; um dia contém horas; uma hora contém minutos. Podemos continuar dividindo até tentar encontrar um instante absolutamente presente. Nesse limite, porém, o presente parece não possuir duração: assim que tentamos segurá-lo, ele já se transforma em passado.

Surge assim o paradoxo: o passado não existe mais, o futuro ainda não existe e o presente parece existir apenas enquanto deixa de existir.

Mesmo assim, ninguém concluiria seriamente que o tempo é uma ilusão sem importância. Nós lembramos, esperamos, envelhecemos, fazemos planos e percebemos durações. Conseguimos inclusive dizer que uma espera foi longa ou que determinada experiência passou rapidamente. Portanto, alguma coisa está acontecendo quando experimentamos aquilo que chamamos de tempo.

É nesse ponto que a investigação agostiniana deixa de procurar o tempo apenas no mundo exterior e se volta para a interioridade humana.

Talvez existam três presentes

Em vez de simplesmente falar em passado, presente e futuro, Agostinho propõe uma formulação muito mais precisa: haveria um presente das coisas passadas, um presente das coisas presentes e um presente das coisas futuras.

Página iluminada de um manuscrito medieval das Confissões de Santo Agostinho, produzido em Utrecht por volta de 1425–1430. Reprodução: Wikimedia Commons — domínio público.

O passado está presente através da memória. O acontecimento desapareceu, mas permanece em nós como lembrança. O futuro está presente através da expectativa: aquilo que ainda não aconteceu já influencia nossas escolhas, medos e esperanças. E o presente propriamente dito aparece através da atenção, o contato da consciência com aquilo que está acontecendo agora.

Isso muda completamente o problema. Quando pensamos na infância, não retornamos fisicamente ao passado; experimentamos agora uma memória do passado. Quando sentimos ansiedade diante de uma prova que acontecerá na próxima semana, não estamos no futuro; experimentamos agora uma expectativa do futuro. E quando lemos esta frase, nossa atenção acompanha palavras que continuamente deixam de ser futuras, tornam-se presentes e imediatamente passam para a memória.

Agostinho ilustra isso de maneira particularmente elegante recorrendo à recitação de um salmo. Antes de começar, todo o texto que será pronunciado está na expectativa. Conforme as palavras são recitadas, aquilo que antes era esperado passa pela atenção e entra na memória. Quanto mais a recitação avança, menor se torna a expectativa e maior se torna a memória, até que todo o salmo tenha sido pronunciado. Para Agostinho, o mesmo processo pode ser observado não apenas em uma canção ou oração, mas em uma ação inteira e, em escala maior, na própria vida humana.

Nossa existência parece acontecer permanentemente nesse movimento: lembramos aquilo que já fomos, prestamos atenção ao que somos e antecipamos aquilo que ainda poderemos ser.

O tempo como “distensão da alma”

Agostinho chega então a uma expressão que se tornaria central para interpretações posteriores de sua filosofia: distentio animi, frequentemente traduzida como “distensão da alma”.

A expressão não deve ser entendida simplesmente como se Agostinho dissesse que cada pessoa inventa o tempo individualmente. A questão é mais profunda. O que ele investiga nas Confissões é a maneira pela qual a consciência humana experimenta uma existência que nunca está inteiramente reunida em um único instante. Parte de nós encontra-se voltada para aquilo que já aconteceu, parte ocupa-se do presente e outra parte projeta-se continuamente em direção ao que ainda não existe.

Somos, nesse sentido, seres distendidos.

Uma lembrança antiga pode continuar determinando decisões tomadas décadas depois. Uma expectativa futura pode transformar completamente aquilo que sentimos no presente. Podemos estar fisicamente em determinado lugar enquanto nossa consciência retorna incessantemente ao passado ou se lança para uma situação que ainda nem aconteceu.

Talvez por isso a reflexão de Agostinho continue tão reconhecível mesmo depois de mais de dezesseis séculos. A tecnologia mudou radicalmente nossa capacidade de medir o tempo, mas não eliminou a experiência de sermos puxados simultaneamente pela memória e pela expectativa. Continuamos habitando um presente estreito enquanto carregamos conosco aquilo que já aconteceu e aquilo que imaginamos que acontecerá.

Estudos filosóficos posteriores encontrariam nessa análise um precedente importante para discussões sobre consciência temporal. Séculos depois, pensadores como Husserl voltariam ao problema da experiência interna do tempo; Paul Ricoeur faria da relação entre Agostinho, temporalidade e narrativa um ponto fundamental de sua própria filosofia. Isso não significa que Agostinho tenha formulado antecipadamente essas teorias modernas, mas mostra a profundidade de uma pergunta que continuou reaparecendo na tradição filosófica.

Mas Agostinho não está falando apenas sobre psicologia

Retirar Deus dessa discussão produziria uma versão incompleta do argumento agostiniano.

O Livro XI das Confissões contrapõe continuamente a temporalidade humana à eternidade divina. Nós existimos na sucessão: fazemos algo, depois fazemos outra coisa; nascemos, mudamos e envelhecemos. Aquilo que somos está permanentemente atravessado pelo que fomos e pelo que ainda esperamos ser. Deus, por outro lado, não é concebido por Agostinho simplesmente como alguém que vive por um número infinito de anos. Isso ainda seria permanecer dentro do tempo.

A eternidade divina é de outra natureza. Deus não atravessa sucessivamente passado, presente e futuro como as criaturas. Não existe para Ele um ontem que desapareceu nem um amanhã que ainda precise chegar. A tradição filosófica que parte de Agostinho desenvolveria justamente essa distinção entre existir eternamente dentro do tempo e não estar submetido à sucessão temporal.

É por isso que perguntar “o que Deus fazia antes de criar o universo?” perde parte do sentido dentro do pensamento agostiniano. Não haveria um enorme relógio cósmico funcionando enquanto Deus esperava determinado momento para criar. Se o próprio tempo pertence à criação, o “antes da criação” não corresponde simplesmente a mais um período temporal.

Aqui a investigação deixa de ser apenas uma curiosidade metafísica. A diferença entre tempo e eternidade diz algo sobre a própria condição humana.

Enquanto Deus é apresentado como permanência, a existência humana é mudança. Enquanto a eternidade não se dispersa numa sucessão de instantes, nós vivemos constantemente entre lembrança, atenção e expectativa. A distentio não descreve apenas nossa capacidade de perceber duração; ela também expressa a instabilidade de uma criatura que nunca possui sua existência inteira de uma só vez. A análise do tempo nas Confissões, por isso, possui simultaneamente dimensões filosófica, existencial e teológica.

Talvez nunca estejamos inteiramente no presente

Existe algo profundamente contemporâneo nessa ideia.

Podemos passar uma tarde inteira pensando em algo que aconteceu cinco anos atrás. Podemos perder uma noite de sono por causa de uma conversa que talvez aconteça amanhã. Uma pessoa pode ter deixado nossa vida há muito tempo e continuar presente através da memória; algo que ainda não aconteceu pode determinar nossas decisões porque já existe como expectativa.

O relógio mede intervalos. Agostinho está interessado em outra coisa: como uma vida humana consegue permanecer una enquanto atravessa continuamente esses intervalos?

Essa talvez seja uma das consequências mais profundas da imagem do salmo. Assim como cada palavra pronunciada desaparece, mas participa de uma composição que continua fazendo sentido, cada momento de uma vida passa sem necessariamente se tornar desconectado dos demais. Memória, atenção e expectativa permitem que interpretemos nossa existência como alguma coisa que possui continuidade.

Por isso, nas Confissões, falar sobre memória nunca está completamente separado de falar sobre identidade. Somos capazes de contar nossa própria história porque aquilo que deixou de existir como acontecimento continua presente de alguma maneira na consciência. Ricoeur exploraria séculos depois justamente essa proximidade entre experiência temporal e narrativa: compreender uma vida envolve organizar temporalmente acontecimentos que, considerados isoladamente, já desapareceram.

Mas Agostinho vai além. Para ele, a unidade definitiva dessa história não é produzida apenas pelo sujeito que se recorda. A existência temporal encontra seu horizonte na eternidade. A alma distendida entre aquilo que passou e aquilo que ainda virá encontra em Deus aquilo que ela própria não possui: permanência.

É nesse ponto que uma investigação aparentemente abstrata sobre a natureza do tempo retorna ao centro das Confissões. Agostinho não está escrevendo um tratado neutro observado de fora. Ele está confessando uma vida: lembrando os próprios erros, interpretando escolhas passadas, reconhecendo mudanças e tentando compreender como todos aqueles momentos podem formar uma história inteligível diante de Deus.

O tempo, portanto, não é apenas aquilo que aparece no relógio.

É também o espaço no qual lembramos, esperamos, nos arrependemos, escolhemos e mudamos. O passado desaparece como acontecimento, mas permanece como memória. O futuro ainda não chegou, mas já existe para nós como expectativa. Entre ambos existe um presente que parece escapar no instante em que tentamos capturá-lo.

Há mais de 1.600 anos, Agostinho percebeu que talvez o maior mistério do tempo não esteja no movimento dos astros, mas no fato de que uma criatura passageira consegue carregar consigo aquilo que já não existe e antecipar aquilo que ainda não existe.

E talvez seja exatamente por isso que sabemos tão bem o que é o tempo — até alguém nos pedir para explicá-lo.

FONTES

Santo Agostinho — Confissões, Livro XI. Texto primário utilizado para a análise de memória, atenção, expectativa, criação e eternidade. Ler o Livro XI das Confissões

Stanford Encyclopedia of Philosophy — Augustine of Hippo. Discussão acadêmica sobre a filosofia agostiniana, incluindo a análise da temporalidade nas Confissões. Consultar a Stanford Encyclopedia of Philosophy

Stanford Encyclopedia of Philosophy — Eternity in Christian Thought. Contextualização filosófica da distinção agostiniana entre tempo e eternidade. Consultar o verbete sobre eternidade

SciELO — “Considerações sobre a ideia de tempo em Sto. Agostinho, Hume e Kant”. Artigo acadêmico que examina a concepção agostiniana do tempo e sua relação com a interioridade. Ler o artigo na SciELO

Kriterion/SciELO — “Il concetto agostiniano di futuro: Confessiones, XI”. Estudo específico sobre o futuro, o instante e a medida temporal no Livro XI. Ler o artigo na Kriterion

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