Um coprólito encontrado em Montana preservou penas com cerca de 66 milhões de anos em um nível excepcional de detalhe. A descoberta não resolve sozinha um dos grandes mistérios da paleontologia, mas oferece uma nova pista para entender por que algumas linhagens de aves atravessaram a extinção que eliminou todos os outros dinossauros.
Há cerca de 66 milhões de anos, pouco antes de um asteroide transformar profundamente a história da vida na Terra, um grande dinossauro carnívoro comeu uma ave. O animal digeriu sua refeição, eliminou os restos e, por uma combinação extremamente improvável de circunstâncias, parte daquele excremento foi enterrada e fossilizada. Dentro dele permaneceram fragmentos de uma refeição que só seriam examinados dezenas de milhões de anos depois: pequenos ossos, escamas de peixe e, sobretudo, penas em um estado de preservação extraordinário.
A descoberta foi apresentada em um estudo publicado nesta quinta-feira, 10 de setembro, na revista científica Current Biology, por uma equipe liderada pela paleontóloga Jingmai O’Connor, do Field Museum de Chicago, com participação de pesquisadores da Universidade de Washington e de outras instituições. O fóssil veio da Formação Hell Creek, em Montana, uma das regiões mais estudadas do mundo quando o assunto são os últimos momentos do período Cretáceo. É dali que saíram inúmeros fósseis de Tyrannosaurus rex, Triceratops e outros animais que viviam pouco antes da extinção em massa do fim do Cretáceo.
O aspecto mais curioso da descoberta pode ser justamente aquilo que inicialmente parece menos importante: as penas não estavam preservadas em âmbar, impressas em uma placa de rocha ou associadas a um esqueleto praticamente completo. Elas estavam dentro de fezes fossilizadas. E isso permitiu aos pesquisadores observar algo que um osso dificilmente poderia registrar sozinho: não apenas como uma ave daquele período era constituída, mas também uma pequena interação ecológica ocorrida poucos instantes antes de sua morte.
Uma descoberta que começou com algo parecido com uma pedra
O fóssil foi encontrado em 2016 pelo pesquisador David DeMar Jr., durante trabalhos de campo no leste de Montana. Enquanto procurava fósseis de peixes em uma encosta da Formação Hell Creek, ele percebeu um pequeno nódulo escuro, avermelhado e com aproximadamente metade do tamanho de uma bola de golfe. Ao examiná-lo com uma lupa de mão, identificou algo incomum em sua superfície: uma pequena pena.
Isso era particularmente surpreendente porque, apesar de Hell Creek ser explorada por paleontólogos há mais de um século, penas ainda não haviam sido encontradas naquela formação. A região fornece um retrato excepcional dos ecossistemas existentes nos últimos milhões de anos do Cretáceo, mas tecidos delicados como penas são muito mais difíceis de preservar do que dentes e ossos. O pequeno objeto encontrado por DeMar acabou oferecendo justamente aquilo que faltava.
Análises posteriores mostraram que a estrutura era um coprólito, nome dado a fezes fossilizadas. Coprólitos podem parecer fósseis pouco impressionantes perto de um crânio de tiranossauro, mas são extremamente valiosos porque registram aquilo que um animal efetivamente comeu. Um dente pode sugerir que tipo de alimento um predador era capaz de consumir; fezes fossilizadas podem mostrar o que passou pelo seu sistema digestivo.
Os pesquisadores analisaram a composição mineral do material e utilizaram microtomografia computadorizada, técnica semelhante à tomografia médica, mas capaz de produzir imagens de altíssima resolução. Milhares de projeções de raios X permitiram reconstruir digitalmente o interior do coprólito sem destruí-lo. Foi então que aquilo que parecia um pequeno fragmento com uma pena na superfície revelou uma estrutura muito mais complexa: havia diversas penas preservadas em três dimensões, pequenos ossos da perna de uma ave e escamas de um peixe do grupo dos gars.
A partir desses elementos, os pesquisadores conseguiram reconstruir até parte da cadeia alimentar daquele dia no fim do Cretáceo.
Dentro das fezes havia uma pequena história de predação
Os ossos encontrados pertenciam a uma ave do grupo dos hesperornitiformes, aves aquáticas extintas que lembravam ecologicamente mergulhões modernos. Algumas delas tinham adaptações extremamente especializadas para nadar e mergulhar e viveram durante grande parte do Cretáceo. Apesar de serem parentes relativamente próximos das linhagens que deram origem às aves atuais, os hesperornitiformes desapareceram na extinção ocorrida há 66 milhões de anos.
Reconstrução histórica de Hesperornis, ave aquática do Cretáceo pertencente a um grupo próximo dos hesperornitiformes encontrados no registro fóssil. A ilustração é de 1912 e não representa especificamente o indivíduo encontrado no coprólito do novo estudo. Imagem: Alice B. Woodward / Wikimedia Commons — Domínio Público.
A presença de penas e ossos da mesma ave dentro do coprólito levou os pesquisadores a concluir que as penas provavelmente pertenciam ao indivíduo que foi consumido. As pequenas escamas de peixe tornam a história ainda mais interessante. Como os grandes terópodes que poderiam ter produzido aquelas fezes não são conhecidos principalmente por uma alimentação baseada em pequenos peixes, os autores levantam a possibilidade de que o próprio hesperornitiforme tivesse comido o peixe pouco antes de ser capturado pelo predador.
Nesse caso, um único coprólito estaria preservando duas etapas de uma cadeia alimentar: um peixe foi consumido por uma ave aquática; pouco depois, essa ave foi devorada por um grande dinossauro carnívoro.
Não é possível determinar com segurança qual espécie produziu as fezes. Pelo tamanho e pelo contexto, grandes terópodes que viviam naquele ecossistema são candidatos, e os pesquisadores mencionam tiranossauros, como Tyrannosaurus rex ou formas próximas, entre as possibilidades. A identidade do predador, porém, não é necessária para que o fóssil tenha valor científico. O que chamou mais atenção estava nas próprias penas.
Duas delas apresentavam uma combinação de características que surpreendeu a equipe. O eixo central possuía uma seção aproximadamente quadrada e, em seu interior, uma estrutura esponjosa semelhante à encontrada nas penas de aves modernas. Segundo os pesquisadores, nenhuma outra pena mesozoica conhecida reúne exatamente essa combinação de características. O registro seguinte de uma estrutura interna semelhante é do início do Eoceno, aproximadamente 10 milhões de anos depois.
Isso significa que elementos extremamente sofisticados da arquitetura das penas modernas já haviam evoluído antes de o asteroide atingir a Terra.
E é aqui que uma pequena pena dentro de fezes fossilizadas começa a se conectar a uma pergunta muito maior.
Se as aves já existiam, por que apenas algumas sobreviveram?
Dizer que o asteroide extinguiu os dinossauros é uma simplificação. As aves são dinossauros, descendentes de pequenos terópodes emplumados, e já existiam muitas linhagens diferentes quando ocorreu o impacto de Chicxulub, há cerca de 66 milhões de anos. A extinção eliminou todos os dinossauros não avianos, mas também destruiu grande parte da diversidade de aves que existia naquele momento.
Camadas geológicas da Formação Hell Creek, em Montana, próximas à transição entre o fim do Cretáceo e o início do Paleógeno, período marcado pela extinção em massa de 66 milhões de anos atrás. Imagem: Joseph H. Hartman / Geoscience Digital Image Library / Wikimedia Commons — CC0 1.0.
Apenas algumas linhagens conseguiram atravessar a fronteira entre o Cretáceo e o Paleógeno. Delas descendem todas as aves existentes hoje, dos beija-flores aos avestruzes.
Entender por que elas sobreviveram enquanto tantas outras desapareceram é uma questão muito mais complicada do que simplesmente perguntar por que “as aves” sobreviveram e “os dinossauros” não. Alguns grupos extintos também eram pequenos, possuíam penas, voavam e ocupavam ambientes que aparentemente deveriam oferecer alguma vantagem durante uma catástrofe. Mesmo assim, desapareceram.
O impacto de Chicxulub provocou mudanças ambientais extremas. Material lançado para a atmosfera bloqueou parte da luz solar, derrubou temperaturas e reduziu drasticamente a fotossíntese. Estudos climáticos indicam que poeira muito fina poderia permanecer na atmosfera por anos, produzindo aquilo que costuma ser chamado de inverno de impacto. Plantas e plâncton foram atingidos, cadeias alimentares entraram em colapso e aproximadamente três quartos das espécies conhecidas no registro fóssil desapareceram.
Nesse mundo repentinamente escuro e frio, pequenas diferenças biológicas poderiam se transformar em vantagens decisivas.
Durante algum tempo, uma das hipóteses utilizadas para explicar a sobrevivência das aves modernas esteve relacionada ao ambiente em que viviam. Talvez espécies associadas à água tivessem sido parcialmente protegidas do colapso dos ecossistemas terrestres. O problema é que os hesperornitiformes eram justamente aves fortemente associadas a ambientes aquáticos — e desapareceram mesmo assim.
A nova descoberta oferece outra possibilidade: talvez o tipo de plumagem também tenha feito diferença.
As penas podem ter ajudado — mas ainda não temos uma resposta definitiva
As penas encontradas dentro do coprólito revelam uma situação particularmente interessante. Os hesperornitiformes aparentemente possuíam algumas penas bastante semelhantes às das aves modernas, inclusive estruturas potencialmente relacionadas a impermeabilização e desempenho aerodinâmico. Ao mesmo tempo, os pesquisadores identificaram também penas corporais menores e mais primitivas, descritas como mais simples e felpudas.
Essa combinação pode ajudar a reconstruir como diferentes grupos de aves administravam algo essencial para qualquer animal de sangue quente: a perda de calor.
Uma pena não serve apenas para voar. A plumagem também aprisiona camadas de ar próximas ao corpo e funciona como isolamento térmico. Basta observar uma ave moderna arrepiando as penas em uma manhã fria: ao aumentar o volume da plumagem, ela cria uma camada adicional de ar que reduz a transferência de calor para o ambiente.
Se algumas aves do final do Cretáceo possuíam plumagens menos eficientes para isolamento térmico, elas poderiam ter entrado no período posterior ao impacto em desvantagem. Pequenos animais precisam conservar energia, e um planeta que passa rapidamente por escuridão, queda de temperatura e escassez de alimentos transforma qualquer diferença na eficiência térmica em um possível fator de sobrevivência.
Há também outra variável importante: a muda das penas. A maneira como uma ave substitui sua plumagem interfere temporariamente em sua capacidade de isolamento, voo e gasto energético. Estudos anteriores já levantaram a possibilidade de que estratégias diferentes de muda tenham influenciado a sobrevivência das aves na extinção do fim do Cretáceo. A nova descoberta fornece material que poderá ajudar a investigar essa hipótese com maior detalhe.
Mas é fundamental não transformar uma possibilidade científica em uma conclusão que o estudo não apresenta.
Os pesquisadores não descobriram “o motivo” pelo qual as aves modernas sobreviveram ao asteroide. Extinções em massa dificilmente são explicadas por uma única característica. Tamanho corporal, alimentação, capacidade de encontrar sementes e outros recursos resistentes, reprodução, habitat, metabolismo, comportamento e características da plumagem podem ter atuado conjuntamente.
Além disso, a ave encontrada no coprólito pertencia justamente a uma linhagem que não sobreviveu. O interesse está em comparar suas características com aquelas presentes nas linhagens que atravessaram a extinção. É essa diferença que poderá ajudar a revelar por que animais aparentemente semelhantes tiveram destinos tão diferentes.
A pena é uma nova peça do quebra-cabeça, não o quebra-cabeça completo.
Um fóssil que também muda onde os paleontólogos procuram respostas
Talvez exista outra consequência da descoberta que receba menos atenção porque não envolve diretamente o asteroide: os paleontólogos agora têm um novo lugar onde procurar tecidos delicados.
Penas normalmente exigem condições excepcionais de fossilização. Por isso, algumas das descobertas mais espetaculares vieram de depósitos capazes de preservar organismos com enorme detalhe, como os famosos fósseis emplumados da China ou espécimes aprisionados em âmbar. Hell Creek possui uma quantidade impressionante de ossos e dentes, mas não era conhecida por fornecer penas.
O coprólito muda essa perspectiva.
Uma pena ingerida fica protegida dentro de material orgânico que posteriormente pode sofrer mineralização. Se condições adequadas permitirem a preservação tridimensional de estruturas microscópicas, fezes fossilizadas que permaneceram décadas em coleções de museus podem esconder muito mais informação do que sua aparência externa sugere. Os próprios autores sugerem que outros coprólitos sejam examinados com microtomografia.
Isso cria uma possibilidade interessante para a paleontologia: algumas descobertas futuras talvez já estejam dentro de museus, guardadas em pequenas pedras que ninguém tinha motivos para escanear.
O exemplar de Montana só chamou atenção porque o coprólito havia se partido de maneira a deixar uma das penas visível na superfície. Foi, literalmente, uma ruptura fortuita. Sem ela, o fóssil poderia ter sido coletado sem que ninguém percebesse o que carregava internamente.
Agora sabemos o que procurar.
E o que parecia apenas excremento fossilizado tornou-se um registro excepcional de um pequeno episódio ocorrido às vésperas de uma das maiores transformações da história da vida: um peixe foi comido por uma ave, a ave acabou dentro de um grande predador e parte daquela refeição permaneceu preservada por aproximadamente 66 milhões de anos.
A descoberta não explica sozinha por que nossos céus ainda possuem aves enquanto Tyrannosaurus, Triceratops e tantas outras linhagens desapareceram. Mas oferece algo que a paleontologia raramente encontra: uma comparação direta entre características de uma ave que não atravessou a grande extinção e aquelas encontradas nos descendentes das aves que conseguiram sobreviver.
Às vezes, respostas para os maiores acontecimentos da história da Terra não aparecem em esqueletos gigantes.
Às vezes, estão escondidas dentro de algo do tamanho de metade de uma bola de golfe.
FONTES
O’Connor, Jingmai et al. — “Bird feathers from a Late Cretaceous coprolite” — Current Biology, 10 de setembro de 2026. Estudo científico revisado por pares que descreve o coprólito, as penas, as análises por tomografia e as implicações evolutivas da descoberta. DOI: 10.1016/j.cub.2026.08.054.
Acessar o artigo na Current Biology
University of Washington — “Fossil feathers preserved inside dinosaur poop could help explain why some birds survived the dinosaur mass extinction” — 10 de setembro de 2026. Utilizada para informações sobre a descoberta em campo, a Formação Hell Creek, o conteúdo do coprólito e as interpretações dos pesquisadores. (UW Homepage)
Acessar a publicação da Universidade de Washington
Field Museum — divulgação do estudo “A fossil feather preserved inside dinosaur poop could help explain why birds survived the mass extinction” — 10 de setembro de 2026. Material institucional da equipe responsável pela pesquisa, com informações sobre a identificação das penas e as hipóteses relacionadas à sobrevivência das aves. (EurekAlert!)
Acessar a divulgação do estudo
Smithsonian National Museum of Natural History — “Extinction Over Time”. Utilizado para contextualizar a extinção Cretáceo–Paleógeno, ocorrida há aproximadamente 66 milhões de anos, e o desaparecimento dos dinossauros não avianos. (Museu Nacional de História Natural)
Acessar o material do Smithsonian
Morgan, Joanna V. et al. — “The Chicxulub impact and its environmental consequences” — Nature Reviews Earth & Environment, 2022. Revisão científica utilizada para contextualizar os efeitos ambientais do impacto de Chicxulub e a extinção de aproximadamente três quartos das espécies. (Nature)
Acessar a revisão na Nature
Senel, Cem Berk et al. — “Chicxulub impact winter sustained by fine silicate dust” — Nature Geoscience, 2023. Referência para o chamado inverno de impacto e para os efeitos de partículas finas lançadas na atmosfera sobre temperatura e disponibilidade de luz solar. (Nature)
Acessar o estudo na Nature Geoscience




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