Sobre parte da América do Sul e do Atlântico Sul existe uma enorme região onde o campo magnético terrestre é significativamente mais fraco do que em outras áreas do planeta. Conhecida como Anomalia Magnética do Atlântico Sul, ela não representa perigo para quem está na superfície, mas é um problema real para satélites que passam sobre a região, pois permite que partículas energéticas se aproximem mais da Terra e atinjam equipamentos eletrônicos. Agora, pesquisadores brasileiros e chineses vão se reunir no INPE, em São José dos Campos, para estudar justamente esse fenômeno — em um momento em que novas medições mostram que a área enfraquecida continua mudando e se expandindo.
Entre os dias 21 e 23 de setembro, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, receberá em São José dos Campos pesquisadores do Brasil, da China e de outros países para um simpósio dedicado à Anomalia Magnética do Atlântico Sul, ou AMAS. O encontro será organizado em conjunto pelo INPE e pelo National Space Science Center da Academia Chinesa de Ciências e terá como objetivo ampliar o monitoramento espacial e terrestre dessa região, compartilhar resultados recentes e desenvolver novas formas de prever os efeitos do chamado clima espacial sobre satélites e outras tecnologias. A programação inclui missões de satélites, instrumentos instalados no solo, pesquisas ionosféricas e até projetos conjuntos entre Brasil e China.
À primeira vista, falar em uma “região onde o campo magnético da Terra é mais fraco” pode parecer algo distante ou até alarmante. Afinal, o campo magnético terrestre funciona como parte de um enorme escudo que ajuda a controlar o movimento de partículas carregadas provenientes do Sol e do ambiente espacial. Mas a intensidade desse campo não é igual em todo o planeta. Sobre a América do Sul e o sul do Oceano Atlântico existe uma espécie de depressão magnética, uma região em que a proteção proporcionada pelo campo é menor. É justamente ali que o cinturão interno de radiação da Terra consegue se aproximar mais da superfície do planeta.
O campo magnético da Terra não é um escudo perfeitamente uniforme
Quando imaginamos o magnetismo terrestre, é comum pensar na Terra como um gigantesco ímã de barra, com um polo magnético norte, outro sul e linhas de campo envolvendo o planeta. Essa comparação é útil, mas incompleta. O campo terrestre é muito mais irregular e está em constante transformação. Sua principal origem está a milhares de quilômetros abaixo de nossos pés, no núcleo externo da Terra, formado principalmente por metais líquidos ricos em ferro em intenso movimento. Esses movimentos produzem correntes elétricas e, consequentemente, o campo magnético por meio de um processo chamado geodínamo.
Distribuição de partículas energéticas medida por satélites da NOAA. A região avermelhada sobre o Atlântico Sul corresponde à Anomalia Magnética do Atlântico Sul. Imagem: NOAA — domínio público.
Como o fluxo desse material no interior do planeta muda ao longo do tempo e o eixo magnético não coincide perfeitamente com o eixo de rotação terrestre, o campo apresenta áreas mais fortes e mais fracas. Na região do Atlântico Sul, essas características se combinam de maneira particularmente interessante. A NASA explica que existem estruturas no campo próximas à fronteira entre o núcleo e o manto que contribuem para reduzir sua intensidade nessa área. Dados mais recentes da missão europeia Swarm também identificaram regiões onde o fluxo magnético apresenta orientação incomum, ajudando a explicar por que a anomalia não se comporta como um bloco uniforme.
Isso significa que a AMAS não é literalmente um “buraco” no campo magnético. O campo continua existindo ali. Ele simplesmente possui intensidade menor em comparação com outras partes do planeta. A expressão “fraqueza” ou mesmo a metáfora de uma “depressão” magnética é mais adequada do que imaginar uma abertura pela qual toda a radiação espacial passa livremente.
O problema aparece principalmente para quem está centenas de quilômetros acima de nós
Para quem vive no Brasil, a existência da anomalia não significa receber uma dose perigosa de radiação ao caminhar na rua, viajar de carro ou usar um telefone celular. Tanto a NASA quanto a Agência Espacial Europeia afirmam que a Anomalia do Atlântico Sul não produz efeitos perceptíveis sobre a vida cotidiana na superfície terrestre. A atmosfera continua oferecendo uma enorme proteção contra partículas energéticas, e o enfraquecimento observado permanece dentro das variações naturais conhecidas do campo magnético.
A situação muda completamente quando subimos algumas centenas de quilômetros. Satélites em órbita baixa atravessam periodicamente a região e ficam expostos a uma quantidade maior de partículas energéticas. Um próton de alta energia atingindo um componente eletrônico pode provocar um chamado single-event upset, uma alteração causada por uma única partícula capaz de corromper dados, reiniciar sistemas ou, em determinadas circunstâncias, danificar componentes eletrônicos. Por isso, operadores de missões espaciais podem desligar temporariamente instrumentos sensíveis durante a passagem pela anomalia.
Até a Estação Espacial Internacional atravessa a região. A estrutura é protegida e a NASA não considera a anomalia uma ameaça direta aos astronautas dentro dela, mas alguns equipamentos científicos externos podem registrar interferências. A agência já relatou, por exemplo, que instrumentos instalados na estação sofreram alterações e reinicializações relacionadas às partículas encontradas durante essas passagens. Isso mostra por que saber exatamente onde a anomalia está, qual é sua intensidade e como ela se movimentará nos próximos anos não é apenas uma curiosidade acadêmica: essas informações podem ser utilizadas no planejamento e na construção de satélites.
E ela está crescendo
A Anomalia Magnética do Atlântico Sul não permanece parada. Em outubro de 2025, a Agência Espacial Europeia divulgou uma análise baseada em 11 anos de medições da constelação Swarm. Os pesquisadores concluíram que, entre 2014 e 2025, a região de campo enfraquecido se expandiu em uma área equivalente a quase metade do tamanho da Europa continental. Os dados também mostraram que uma parte do Atlântico a sudoeste da África passou por um enfraquecimento ainda mais acentuado desde 2020.
É justamente esse comportamento irregular que torna o fenômeno particularmente interessante. A AMAS não está simplesmente crescendo como um círculo que aumenta igualmente em todas as direções. Diferentes partes estão mudando em velocidades distintas. Estudos anteriores da NASA já haviam mostrado que a região de menor intensidade estava começando a apresentar dois mínimos separados, enquanto observações indicavam um deslocamento gradual da anomalia. As medições mais recentes da ESA reforçam a ideia de que estamos observando uma estrutura dinâmica produzida por processos que ocorrem profundamente no interior do planeta.
Isso transforma os satélites em uma espécie de instrumento indireto para estudar lugares aos quais jamais poderíamos chegar fisicamente. O núcleo externo começa a aproximadamente 2.900 quilômetros de profundidade, e não existe qualquer tecnologia capaz de perfurar a Terra até essa região. Ao medir minúsculas mudanças no campo magnético do lado de fora, entretanto, cientistas conseguem obter pistas sobre o movimento do ferro líquido no interior do planeta e aperfeiçoar os modelos que descrevem o geodínamo.
Isso significa que os polos da Terra vão inverter?
Não há evidência de que a Anomalia do Atlântico Sul seja, por si só, sinal de uma inversão magnética iminente. Inversões realmente aconteceram muitas vezes ao longo da história geológica: em determinados períodos, o norte e o sul magnéticos trocaram de posição. A última inversão completa ocorreu há aproximadamente 780 mil anos, mas esses fenômenos não obedecem a um relógio e os intervalos entre eles variam enormemente.
A própria ESA já destacou que o enfraquecimento observado no Atlântico Sul permanece dentro das flutuações consideradas normais do campo terrestre. Mesmo que a região continue perdendo intensidade nas próximas décadas, isso não significa necessariamente que o processo continuará durante milhares de anos até provocar uma reversão. Portanto, associar a AMAS a uma inversão prestes a acontecer seria ir muito além do que os dados científicos permitem afirmar.
Há ainda outro ponto importante: uma inversão magnética não seria um evento repentino no qual os polos simplesmente trocariam de lugar de um dia para o outro. Os registros preservados em rochas mostram que o campo terrestre passou por muitas reorganizações ao longo da história do planeta. Estudar a AMAS ajuda os cientistas justamente a compreender melhor como essas mudanças acontecem e como a dinâmica do núcleo se manifesta no campo que medimos na superfície e no espaço.
Por que Brasil e China estão tão interessados nisso
Para o Brasil, a resposta começa pela localização. Uma parte importante da anomalia se encontra sobre a América do Sul e regiões próximas, colocando o país em posição privilegiada para instalar instrumentos terrestres e realizar observações complementares às feitas por satélites. O INPE possui tradição em pesquisas de geofísica espacial, ionosfera e clima espacial, e o novo simpósio busca integrar essas observações com projetos chineses.
A programação prevista para setembro inclui discussões sobre a Missão Galileo do Brasil, a missão sino-europeia SMILE, instrumentos de clima espacial do futuro CBERS-5, satélites chineses da série Zhangheng e uma proposta de constelação sino-brasileira de satélites ionosféricos. Outra frente pretende integrar instrumentos instalados no solo, observações solares, estudos de irregularidades da ionosfera e sistemas de lidar espalhados pela América do Sul. O objetivo é observar a região simultaneamente de cima e de baixo, reunindo diferentes tipos de informação para construir um retrato mais completo do ambiente espacial.
Esse conhecimento tem aplicação direta. Quanto melhor entendermos a concentração de partículas energéticas e a evolução do campo magnético, melhores podem ser os modelos utilizados para prever condições de clima espacial, planejar órbitas, definir requisitos de proteção eletrônica e proteger instrumentos científicos. O próprio INPE classifica a AMAS como uma região de importância estratégica para a segurança de satélites e para serviços de previsão e alerta de clima espacial.
Uma “fraqueza” sobre nossas cabeças que começa no centro da Terra
A Anomalia Magnética do Atlântico Sul é um bom exemplo de como diferentes partes do planeta estão conectadas. O fenômeno que preocupa engenheiros responsáveis por satélites a centenas de quilômetros de altitude começa, em grande parte, com movimentos de metal líquido ocorrendo milhares de quilômetros abaixo da superfície.
Ela não está abrindo um buraco na proteção da Terra, não representa uma ameaça para as pessoas que vivem no Brasil e não significa que os polos magnéticos estão prestes a trocar de lugar. Mas está mudando. As medições mais recentes mostram que a região enfraquecida se expandiu consideravelmente ao longo da última década, e compreender exatamente por que isso está acontecendo continua sendo um problema científico em aberto.
É por isso que, a partir de 21 de setembro, pesquisadores estarão reunidos no Brasil olhando simultaneamente para duas direções aparentemente opostas: para o espaço, onde satélites atravessam a anomalia, e para o interior da Terra, onde os movimentos do núcleo ajudam a criá-la.
A região mais peculiar do campo magnético terrestre passa justamente pela nossa vizinhança. E, para a ciência espacial brasileira, isso representa não apenas um desafio, mas uma oportunidade rara de estudar um fenômeno global praticamente sobre nossas cabeças.
Fontes
INPE — Simpósio 2026 sobre a Anomalia Magnética do Atlântico Sul
Página oficial do encontro que ocorrerá entre 21 e 23 de setembro de 2026 em São José dos Campos, com informações sobre os objetivos da cooperação Brasil–China e o estudo da AMAS. (Serviços e Informações do Brasil)
Acessar a página oficial do INPE
INPE — Tema e programação científica do simpósio
Detalhes sobre missões espaciais, CBERS-5, observações terrestres e projetos conjuntos previstos para discussão no encontro. (Serviços e Informações do Brasil)
Ver os tópicos científicos do encontro
Agência Espacial Europeia — Swarm revela expansão da região enfraquecida
Análise publicada em 2025 com 11 anos de medições da missão Swarm e informações sobre a expansão e a evolução recente da anomalia. (Agência Espacial Europeia)
Ler a análise da ESA
NASA — South Atlantic Anomaly
Explicação detalhada da origem da anomalia e de seus efeitos sobre satélites e instrumentos em órbita terrestre. (NASA)
Ler a explicação da NASA




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