Antes dos dinossauros: novo peixe descoberto no Piauí revela um Brasil de 280 milhões de anos atrás

Written by:

Dois fósseis encontrados a cerca de 60 quilômetros de Teresina pertencem a uma espécie que a ciência ainda não conhecia. Com aproximadamente 20 centímetros de comprimento, a Nazaria limnica viveu em um grande sistema de lagos quando o território brasileiro fazia parte de um mundo muito diferente — cerca de 50 milhões de anos antes do surgimento dos primeiros dinossauros.

Imagine o Piauí sem cidades, sem caatinga, sem cerrado e sem qualquer animal ou planta que reconheceríamos facilmente hoje. No lugar da paisagem atual havia um extenso sistema aquático cercado por vegetação, submetido a um clima que oscilava entre períodos secos e fases mais úmidas. Peixes, anfíbios, pequenos répteis e outros vertebrados ocupavam ambientes que desapareceriam completamente ao longo dos milhões de anos seguintes. Os continentes também não tinham a configuração atual: as terras que formariam o Brasil integravam Gondwana, a enorme porção meridional do supercontinente Pangeia.

Foi nesse mundo que viveu um pequeno peixe cujo nome só passaria a existir 280 milhões de anos depois.

A nova espécie, batizada de Nazaria limnica, foi descrita por uma equipe internacional de pesquisadores que inclui o paleontólogo Juan Carlos Cisneros, da Universidade Federal do Piauí (UFPI). O estudo científico foi publicado on-line em 26 de agosto no Journal of Vertebrate Paleontology, e a descoberta ganhou divulgação da universidade em 10 de setembro. A espécie foi identificada a partir de dois fósseis encontrados no município de Nazária, aproximadamente 60 quilômetros ao sul de Teresina.

O animal media cerca de 20 centímetros, pertencia ao grupo dos actinopterígios — os peixes de nadadeiras raiadas, grupo que hoje representa a maior parte das espécies de peixes existentes — e possuía um corpo relativamente alto. Embora pequeno diante de muitos dos grandes vertebrados que costumam dominar o imaginário sobre a pré-história, o novo peixe abre uma janela rara para um período da história brasileira ainda muito anterior aos dinossauros.

Dois fósseis encontrados no mesmo dia

A descoberta começou em março de 2018, durante uma expedição paleontológica em Nazária. Dois exemplares foram encontrados no mesmo dia e, por sorte, preservavam partes diferentes do animal. Um deles conservou o crânio e parte do tronco; o outro preservou outra região do tronco e a cauda. Quando analisados em conjunto, os fósseis permitiram aos pesquisadores reconstruir praticamente todo o esqueleto da nova espécie.

Fóssil de Cheirolepis trailli, um antigo peixe de nadadeiras raiadas. A imagem é ilustrativa e não representa a Nazaria limnica descrita no Piauí. Imagem: Wikimedia Commons — Domínio Público.

Mas encontrar um fóssil não significa imediatamente descobrir uma espécie nova. Os exemplares passaram por um processo de limpeza e preparação no Laboratório de Paleontologia da UFPI. Em seguida, os pesquisadores identificaram os ossos preservados, fizeram desenhos anatômicos detalhados e compararam o material com fósseis existentes em coleções de museus brasileiros e estrangeiros. O objetivo era responder a uma pergunta essencial: aquele animal pertencia a uma espécie já conhecida ou apresentava uma combinação de características diferente de tudo o que havia sido descrito?

A resposta veio da anatomia. A Nazaria limnica apresentava uma combinação particular de características, incluindo uma nadadeira peitoral alongada, escamas profundas ornamentadas por estrias finas, dentes pequenos na mandíbula e estruturas dentárias no palato adaptadas à trituração. Os pesquisadores também realizaram análises filogenéticas, comparando dezenas ou centenas de características anatômicas entre diferentes peixes fósseis para tentar determinar onde a nova espécie se encaixa na árvore evolutiva dos vertebrados.

O resultado mostrou algo comum na paleontologia: descobrir uma espécie nova nem sempre significa saber imediatamente quem eram seus parentes mais próximos. Diferentes análises produziram relações evolutivas distintas, e os próprios autores reconhecem que ainda existe incerteza sobre a posição exata da Nazaria. Em uma das análises, ela aparece próxima de peixes conhecidos na América do Norte; em outra, sua posição se aproxima de formas encontradas em outras regiões, incluindo um peixe brasileiro chamado Paranaichthys. Essa incerteza não enfraquece a descoberta. Pelo contrário: indica que ainda faltam peças importantes para reconstruir a evolução dos peixes durante o Paleozoico.

O nome escolhido também preserva a origem do animal. Nazaria homenageia o município piauiense onde os fósseis foram encontrados, enquanto limnica faz referência ao ambiente lacustre em que o peixe viveu. O nome científico, portanto, carrega literalmente a paisagem desaparecida que permitiu sua existência.

O Piauí possuía um grande sistema de lagos

A região onde a Nazaria limnica foi encontrada faz parte da Formação Pedra de Fogo, conjunto de rochas da Bacia do Parnaíba que guarda um dos registros paleontológicos mais importantes do Permiano brasileiro. Hoje seus afloramentos aparecem em áreas do Piauí, Maranhão e Tocantins, mas as rochas registram ambientes que existiram centenas de milhões de anos antes de essas divisões geográficas — ou mesmo o próprio Oceano Atlântico — existirem.

Estudos geológicos mostram que a Pedra de Fogo registrava um amplo sistema lacustre. Havia lagos rasos, planícies de lama, rios temporários e áreas que se expandiam ou retraíam conforme o clima variava. As condições poderiam ser quentes e áridas durante determinados períodos, enquanto fases relativamente mais úmidas permitiam a expansão da vegetação e dos ambientes aquáticos. Era um ecossistema dinâmico, e justamente essas mudanças ajudaram a formar as camadas sedimentares nas quais animais e plantas acabaram preservados.

A região de Nazária onde viveu o novo peixe abrigava um grande lago de águas alcalinas. A Nazaria ocupava esse ambiente juntamente com diversos outros organismos e, segundo a reconstrução apresentada pelos pesquisadores, provavelmente se alimentava de pequenos crustáceos associados ao fundo do lago. Suas placas dentárias capazes de esmagar alimento ajudam a sustentar essa interpretação. Ao mesmo tempo, um peixe com apenas cerca de 20 centímetros também poderia servir de alimento para animais maiores.

É possível, portanto, imaginar uma cadeia alimentar bastante complexa. Pequenos invertebrados ocupavam o fundo; peixes como a Nazaria se alimentavam deles; peixes maiores, anfíbios e outros vertebrados podiam ocupar posições superiores nessa rede. A paisagem também era acompanhada por vegetação abundante em determinadas áreas. Parte daquela flora deixou outro registro espetacular do mesmo mundo: a Floresta Fóssil do Rio Poti, em Teresina, contém troncos fossilizados de idade semelhante.

Isso significa que os fósseis de Nazária e os troncos preservados na atual capital piauiense são peças diferentes de uma mesma história geológica. Um revela os animais que viviam na água; o outro preserva vestígios da vegetação que ocupava aquela região quando o Nordeste brasileiro fazia parte de uma configuração continental completamente diferente.

Um Brasil anterior aos dinossauros

Os 280 milhões de anos atribuídos ao fóssil tornam a descoberta particularmente interessante porque ela pertence ao Permiano, último período da Era Paleozoica. Os primeiros dinossauros surgiriam apenas dezenas de milhões de anos depois, durante o Triássico. Quando a Nazaria limnica nadava pelos lagos da atual região de Nazária, portanto, nenhum Tyrannosaurus, Triceratops, saurópode ou qualquer outro dinossauro existia.

Até mesmo o mapa do planeta seria praticamente irreconhecível para alguém transportado até aquele período. A maior parte das terras emergidas estava reunida na Pangeia, enquanto o território que posteriormente se transformaria na América do Sul fazia parte de Gondwana. A atual Bacia do Parnaíba estava situada em uma região tropical dessa enorme massa continental, distante da geografia que surgiria quando o Atlântico começou a se abrir muito tempo depois.

Representação histórica da Pangeia produzida por Alfred Wegener. Durante o Permiano, quando a Nazaria limnica viveu, as terras que futuramente formariam o Brasil integravam Gondwana, na porção sul do supercontinente. Imagem: Alfred Wegener / Wikimedia Commons — CC0 1.0.

O Permiano também representa uma etapa decisiva na evolução dos ecossistemas terrestres. Grandes grupos de vertebrados se diversificavam, novas estratégias alimentares surgiam e ecossistemas progressivamente mais complexos se estabeleciam em diferentes partes do planeta. Fósseis encontrados nos mesmos depósitos da Pedra de Fogo incluem diferentes tipos de peixes, anfíbios e répteis primitivos. Em 2026, pesquisadores também anunciaram os primeiros registros definitivos no Brasil de antigos sinapsídeos tradicionalmente chamados de “pelicossauros”, encontrados em rochas da mesma formação e aproximadamente da mesma idade.

Essa concentração de descobertas transforma o Nordeste brasileiro em uma região importante para responder a um problema histórico da paleontologia. Grande parte do que sabemos sobre vertebrados terrestres do início do Permiano foi construída a partir de fósseis encontrados principalmente na América do Norte e na Europa. Quanto mais material aparece em regiões que pertenciam a Gondwana, maior a possibilidade de descobrir se aquilo que parecia ser uma regra evolutiva global era, na verdade, apenas consequência de termos escavado determinados lugares com muito mais intensidade do que outros.

A Nazaria limnica acrescenta mais uma espécie a esse quebra-cabeça.

O formato do peixe também conta uma história evolutiva

Uma das características que chama atenção na nova espécie é seu corpo relativamente alto, diferente do formato alongado que associamos imediatamente a muitos peixes. Essa morfologia não pertence a uma única linhagem: ao longo de centenas de milhões de anos, diferentes grupos de peixes evoluíram independentemente corpos altos e lateralmente comprimidos.

Essa repetição é interessante porque o formato corporal de um animal está relacionado ao ambiente que ocupa e à maneira como se movimenta. Um peixe alongado e hidrodinâmico pode ser favorecido em situações que exigem deslocamento rápido por grandes distâncias; formas mais altas podem apresentar vantagens em ambientes complexos ou em determinados estilos de natação. No caso de espécies extintas, porém, essas interpretações precisam ser feitas com cautela porque nenhum pesquisador consegue observar diretamente o comportamento do animal.

Os dentes fornecem uma pista adicional. A Nazaria possuía dentes pequenos na mandíbula e placas dentárias capazes de triturar alimento no palato. É uma anatomia compatível com o consumo de pequenos organismos com estruturas relativamente duras, como os crustáceos existentes naquele antigo lago. Em vez de encontrar simplesmente “um peixe”, os paleontólogos conseguem combinar formato do corpo, dentes, posição das nadadeiras, escamas, sedimentos e outros fósseis para reconstruir parcialmente o modo de vida de um animal desaparecido há quase 300 milhões de anos.

As comparações evolutivas também podem revelar conexões muito mais amplas. Algumas análises realizadas no estudo aproximaram a nova espécie de grupos conhecidos em depósitos antigos da América do Norte, enquanto outras produziram relações diferentes. Essas semelhanças interessam porque, no Permiano, continentes hoje separados por oceanos estavam conectados dentro da Pangeia. Distribuições fósseis podem, portanto, ajudar a reconstruir não apenas parentesco, mas antigas conexões entre ecossistemas.

Nesse sentido, uma espécie descoberta no interior do Piauí pode oferecer informação sobre a evolução de peixes encontrados a milhares de quilômetros de distância.

Por que demorou oito anos para a espécie ser anunciada?

Os fósseis foram encontrados em 2018, mas a descrição científica só apareceu em 2026. Para quem acompanha uma descoberta apenas pela manchete, oito anos podem parecer tempo demais. Na paleontologia, porém, esse intervalo não é incomum.

Depois da coleta, um fóssil precisa ser preparado cuidadosamente. Rocha e sedimento são retirados sem danificar estruturas que podem ter apenas alguns milímetros. Cada osso precisa ser identificado e comparado com animais conhecidos. Pesquisadores consultam coleções, revisam estudos anteriores, produzem imagens e desenhos, constroem matrizes de características anatômicas e realizam análises filogenéticas. Depois disso, o trabalho científico ainda passa pela revisão de outros especialistas antes de ser aceito por uma revista.

No caso da Nazaria, as comparações envolveram peixes fósseis encontrados não apenas no Brasil, mas também em regiões como América do Norte, África, China e Austrália. Quanto mais antiga e pouco conhecida é uma linhagem, mais difícil pode ser determinar quais características realmente indicam parentesco e quais surgiram independentemente em grupos distintos.

É também por isso que novas descobertas podem modificar interpretações anteriores. Uma árvore evolutiva construída hoje não é um desenho definitivo da história da vida: ela é a melhor hipótese possível diante dos fósseis disponíveis. Encontrar outro exemplar amanhã pode preencher uma lacuna e reorganizar parte dessa história.

Os fósseis permanecerão no Piauí

Existe ainda outro aspecto importante da descoberta: os dois exemplares permaneceram no estado onde foram encontrados. Os fósseis que serviram para descrever a Nazaria limnica integram atualmente a coleção científica do Museu de Arqueologia e Paleontologia da Universidade Federal do Piauí, em Teresina.

Isso tem importância maior do que simplesmente decidir onde guardar duas pedras. O exemplar utilizado para estabelecer formalmente uma nova espécie funciona como referência científica para aquele animal. Pesquisadores futuros podem precisar retornar ao material para revisar sua anatomia, utilizar novas técnicas de análise ou questionar interpretações feitas atualmente. Preservá-lo em uma coleção científica pública garante que a descoberta continue disponível para pesquisa.

Também existe uma dimensão regional. Durante grande parte da história da paleontologia, fósseis provenientes da América Latina, África e outras regiões foram enviados para instituições estrangeiras, muitas vezes em contextos históricos profundamente desiguais. Manter coleções científicas próximas das regiões onde o material foi encontrado fortalece museus locais, laboratórios e programas de pesquisa, além de permitir que o patrimônio paleontológico participe da formação de novos pesquisadores.

A equipe responsável pela descoberta reúne cientistas de diferentes países, mas a presença da UFPI no estudo mostra outro movimento importante: descobertas internacionalmente relevantes podem ser investigadas a partir de instituições localizadas exatamente sobre os depósitos fósseis que estão mudando aquilo que sabemos sobre o passado.

Um pequeno peixe em uma história gigantesca

A Nazaria limnica provavelmente não seria um animal particularmente impressionante se pudéssemos observá-la viva. Tinha aproximadamente 20 centímetros, vivia em um lago e fazia parte de uma cadeia alimentar que incluía inúmeros outros organismos. Não era um gigantesco predador nem possuía as dimensões que geralmente transformam fósseis em atrações populares.

Sua importância está justamente em outra coisa.

Cada espécie encontrada amplia a resolução com que conseguimos enxergar um ecossistema desaparecido. Antes, sabemos que havia um lago. Depois encontramos plantas. Encontramos anfíbios. Encontramos répteis. Identificamos diferentes peixes. Descobrimos quem provavelmente comia o quê. Aos poucos, aquilo que inicialmente era apenas uma camada de rocha começa a parecer novamente um ambiente vivo.

280 milhões de anos, muito antes dos dinossauros, um peixe pequeno nadava em águas que ocupavam parte do território onde hoje fica o Piauí. O lago desapareceu, os continentes mudaram de posição, inúmeros grupos de animais surgiram e desapareceram e a evolução transformou profundamente a vida na Terra.

Dois desses peixes, porém, terminaram preservados nas rochas.

Quase 300 milhões de anos depois, eles agora têm um nome.

Nazaria limnica.

FONTES

Richter, Martha; Cisneros, Juan C.; Kammerer, Christian F.; Pardo, Jason D.; Marsicano, Claudia A.; Fröbisch, Jörg; Smith, Roger M. H.; Angielczyk, Kenneth D. — “A new deep bodied ray-finned fish (Osteichthyes/Actinopterygii) from the Permian Pedra de Fogo Formation (Northeastern Brazil) and its phylogenetic and paleogeographic affinities” — Journal of Vertebrate Paleontology, publicado on-line em 26 de agosto de 2026. Estudo científico que descreve formalmente a Nazaria limnica, sua anatomia, relações evolutivas e importância paleogeográfica. DOI: 10.1080/02724634.2026.2697805. (Taylor & Francis Online)
Acessar o artigo no Journal of Vertebrate Paleontology

Universidade Federal do Piauí — “Pesquisa com participação da UFPI identifica nova espécie de peixe que viveu há cerca de 280 milhões de anos no Piauí” — 10 de setembro de 2026. Principal fonte para a descoberta dos dois exemplares em Nazária, tamanho aproximado do animal, preparação dos fósseis, ambiente do antigo lago, alimentação e localização atual dos exemplares. (UFPI)
Acessar a matéria da UFPI

Araújo Neto, Raphael et al. — “Shallow lacustrine system of the Permian Pedra de Fogo Formation, Western Gondwana, Parnaíba Basin, Brazil” — Journal of South American Earth Sciences, 2016. Utilizado para contextualizar o sistema de lagos, planícies de lama, rios temporários, mudanças climáticas e ambiente sedimentar da Formação Pedra de Fogo. (ScienceDirect)
Acessar o registro do estudo no Serviço Geológico do Brasil

Estudo sobre peixes da Formação Pedra de Fogo — Journal of African Earth Sciences, 2022. Utilizado para contextualizar a Bacia do Parnaíba como um sistema lacustre localizado na região tropical da Pangeia e a diversidade de vertebrados conhecida nos depósitos permianos do Nordeste brasileiro. (ScienceDirect)
Acessar o estudo

Angielczyk, Kenneth D. et al. — estudo sobre sinapsídeos da Formação Pedra de Fogo — Journal of Vertebrate Paleontology, 2026. Referência para o contexto recente das descobertas de vertebrados do Permiano no Piauí e para a importância da formação na reconstrução dos ecossistemas de Gondwana. (Taylor & Francis Online)
Acessar o artigo no Journal of Vertebrate Paleontology

Deixe um comentário