A eleição terminou no domingo, mas na manhã seguinte parecia que uma segunda votação havia começado. O dólar disparou, a Bolsa despencou, os juros futuros subiram e o circuit breaker da B3 precisou ser acionado. O fato novo não era uma guerra, uma crise bancária ou a descoberta repentina de um rombo fiscal desconhecido. O fato novo era político: Lula havia sido reeleito, contrariando uma expectativa construída por boa parte do mercado financeiro em torno de uma vitória de Flávio Bolsonaro e de uma agenda econômica considerada mais favorável ao ajuste fiscal. Investidores desfizeram posições, aumentaram sua percepção de risco e passaram imediatamente a cobrar do novo governo sinais de contenção de gastos, compromisso fiscal e previsibilidade. É legítimo que investidores reajam a mudanças políticas. O que merece reflexão é o poder que essa reação possui sobre toda a sociedade. Em poucas horas, decisões tomadas por grandes agentes financeiros conseguem pressionar o câmbio, elevar o custo de financiamento do Estado, afetar expectativas empresariais e criar um ambiente político em que o governo recém-eleito passa a ser cobrado para responder não apenas ao eleitor que o escolheu, mas também aos detentores de capital que rejeitaram sua vitória.
Não é necessário imaginar uma reunião secreta entre banqueiros para compreender o que está acontecendo. O mercado financeiro não é uma pessoa e tampouco age como um bloco perfeitamente coordenado. Bancos, fundos, investidores estrangeiros, empresas, seguradoras e gestores tomam decisões diferentes, muitas vezes por razões puramente financeiras. Mas isso não torna o resultado politicamente neutro. Antes do segundo turno, boa parte dos agentes havia precificado uma vitória de Flávio Bolsonaro. Quando essa expectativa não se confirmou, veio o movimento inverso. O problema não é a existência dessa reação, mas a assimetria de poder que ela revela. Na urna, uma professora, um motorista de aplicativo e um gestor responsável por bilhões de reais possuem exatamente um voto cada. No dia seguinte, porém, eles não possuem a mesma capacidade de influenciar o câmbio, os juros ou o preço dos ativos. O investidor comum participa do mercado, mas quem efetivamente consegue deslocar preços são aqueles que controlam grandes volumes de capital. Isso significa que, depois que a democracia formal encerra sua votação, outra forma de poder continua atuando sobre as escolhas do governo.

Operadores na Bolsa de Valores de São Paulo. As decisões de grandes agentes financeiros podem se refletir rapidamente no câmbio, nos juros e nos preços dos ativos, produzindo efeitos que ultrapassam o próprio mercado financeiro. Foto: Rafael Matsunaga, via Wikimedia Commons — CC BY 2.0.
É aqui que a discussão sobre rentismo deixa de ser apenas ideológica e passa a ser estrutural. O Brasil possui um problema fiscal real: a dívida pública cresceu, o custo de financiamento é elevado e ignorar essa trajetória seria irresponsável. Mas a forma como esse problema costuma aparecer no debate público é profundamente seletiva. O ajuste é frequentemente apresentado como uma necessidade técnica, quase natural, quando na verdade sempre envolve escolhas distributivas. Cortar investimento, reduzir políticas sociais, conter salários, rever benefícios ou limitar despesas públicas são decisões políticas. Da mesma forma, rever renúncias fiscais, tributar mais progressivamente renda e patrimônio, reduzir subsídios regressivos ou discutir a própria estrutura de financiamento da dívida também são decisões políticas. Não existe ajuste fiscal neutro. Sempre há alguém pagando mais, recebendo menos ou deixando de acessar determinado serviço. O que chama atenção é como determinadas soluções aparecem imediatamente como “responsáveis”, enquanto outras são tratadas como radicalismo, mesmo quando ambas alteram a distribuição de renda e o equilíbrio das contas públicas.
Os números ajudam a mostrar por que essa discussão não pode ser simplificada. Nos doze meses encerrados em agosto de 2026, o setor público acumulou déficit primário equivalente a 0,62% do PIB, enquanto os juros nominais chegaram a 8,86% do PIB. Isso não significa que seria possível simplesmente eliminar a conta de juros por decreto, nem que todo esse valor tenha sido entregue diretamente a banqueiros. A dívida pública é financiada por diferentes agentes e cumpre funções importantes no sistema financeiro. Mas a diferença de escala é relevante porque desmonta a narrativa segundo a qual o problema fiscal brasileiro decorre fundamentalmente de gastos sociais ou do Estado prestar serviços demais. Quando o custo financeiro da dívida supera amplamente o déficit primário, fica evidente que qualquer discussão séria sobre sustentabilidade precisa considerar não apenas quanto o governo gasta, mas também quanto custa financiar aquilo que já deve e qual estrutura econômica produz esse custo.
O mercado não precisa conspirar para exercer poder político
Talvez o ponto mais importante seja justamente este: não é preciso haver conspiração para que o capital financeiro exerça pressão política. O mecanismo é muito mais simples. Se investidores consideram que determinado governo aumentará o risco fiscal, podem exigir remuneração maior para comprar títulos, retirar recursos de ativos brasileiros ou aumentar sua procura por dólares. Essas decisões elevam juros, pressionam a moeda e pioram a percepção de risco. A piora da percepção de risco aumenta novamente o custo do financiamento, que por sua vez pressiona a dívida e reduz o espaço fiscal do governo. O ciclo pode ocorrer sem que qualquer agente individual tenha como objetivo deliberado derrubar um governo ou provocar crise. Cada um pode estar apenas tentando proteger seu patrimônio. Ainda assim, o efeito coletivo é capaz de limitar aquilo que um governo democraticamente eleito consegue fazer.
Esse poder é frequentemente naturalizado pela expressão “o mercado reagiu”. A frase parece descrever apenas um fenômeno técnico, mas esconde uma questão fundamental: quem é esse mercado e quais interesses ele representa? O trabalhador com alguns milhares de reais investidos num fundo também faz parte dele, assim como o aposentado cuja previdência compra títulos públicos. Mas o poder de movimentar preços está concentrado em grandes instituições, gestores e investidores que controlam volumes incomparavelmente maiores de recursos. Quando se diz que “o mercado quer ajuste”, portanto, não estamos ouvindo a sociedade inteira. Estamos ouvindo uma parte muito específica dela, dotada de capacidade extraordinária de transformar preferência econômica em consequência macroeconômica.
E é nesse ponto que a interpretação de Jessé Souza sobre a chamada “elite do atraso” se torna provocadora. Jessé argumenta que uma parcela das elites brasileiras construiu historicamente formas de preservar riqueza e poder sem depender da formação de uma sociedade amplamente próspera. Sua crítica é especialmente dura ao rentismo e à concentração financeira, porque uma elite fortemente baseada em patrimônio, juros e rendas financeiras consegue, em determinadas circunstâncias, proteger-se mesmo quando o país cresce pouco, investe pouco ou permanece profundamente desigual. Essa interpretação é discutida e não deve ser tratada como descrição uniforme de todos os empresários ou pessoas ricas do Brasil. Há setores industriais, tecnológicos e empresariais profundamente interessados em crescimento, produtividade, infraestrutura e expansão do mercado interno. Mas a provocação permanece válida: que tipo de elite econômica construímos quando uma parcela relevante da acumulação de riqueza pode ocorrer sem depender diretamente do desenvolvimento produtivo do país?

Operadores no pregão da Bolsa de Valores de São Paulo. Embora o mercado seja formado por diferentes agentes, o poder de movimentar preços está fortemente concentrado em instituições e investidores que administram grandes volumes de capital. Foto: Léo Pinheiro, via Wikimedia Commons — CC BY-SA 3.0.
A concentração patrimonial torna essa pergunta ainda mais importante. Dados do Ministério da Fazenda mostram que o 1% de maior renda concentra parcela extraordinária da riqueza declarada no país, com grande peso de ativos financeiros. Estudos da FGV IBRE também mostram que o crescimento da concentração no topo da distribuição foi fortemente impulsionado por rendimentos do capital. Isso significa que os grupos que mais influenciam os mercados são, em grande medida, aqueles que possuem maior capacidade de proteger seu patrimônio de crises, inflação ou desvalorizações. O trabalhador que recebe salário mensal não possui a mesma defesa. Se o dólar dispara, alimentos, medicamentos, combustíveis, componentes industriais e diversos outros preços podem subir. Se juros aumentam, crédito fica mais caro, investimentos são adiados e empregos podem desaparecer. Quem possui capital pode mudar de posição, comprar moeda estrangeira ou diversificar patrimônio. Quem depende de salário absorve o impacto.
O problema não é o mercado existir; é tratar seus interesses como sinônimo de interesse nacional
Não há nada de errado em investidores defenderem seus interesses. Um gestor de fundo tem obrigação de proteger o patrimônio sob sua responsabilidade. Um banco avalia risco. Uma empresa tenta preservar margem e previsibilidade. O problema começa quando a preferência desses agentes passa a ser apresentada como se fosse automaticamente a preferência do país. O interesse de um investidor pode coincidir com o interesse público em vários pontos: inflação baixa, estabilidade institucional, segurança jurídica e dívida sustentável são bens econômicos importantes. Mas também pode haver divergências profundas. Juros elevados podem ser atraentes para quem possui títulos e extremamente prejudiciais para empresas endividadas, famílias financiando imóveis ou governos tentando investir em infraestrutura. Um câmbio valorizado pode ajudar a conter inflação e prejudicar indústrias exportadoras. Corte de investimento pode melhorar uma meta fiscal no curto prazo e reduzir capacidade de crescimento no futuro.
É por isso que me incomoda a ideia de que a reação do mercado após a eleição deva ser interpretada como uma espécie de correção moral aplicada ao eleitorado. O voto decidiu quem deveria governar, mas poucas horas depois o sistema financeiro estabeleceu condições sobre como esse governo deveria se comportar para recuperar “confiança”. Não é ilegítimo que essa confiança seja buscada. O governo precisa apresentar uma trajetória fiscal responsável e demonstrar como pretende estabilizar a dívida. Mas estabilidade econômica não deveria significar submissão automática à agenda preferida pelos detentores de patrimônio. Um governo social-democrata precisa ser capaz de construir responsabilidade fiscal de maneira própria: melhorar a qualidade do gasto, rever privilégios tributários, buscar maior progressividade, estimular crescimento e produtividade e preservar investimentos capazes de ampliar a capacidade futura da economia.
É justamente aqui que entra a discussão sobre projeto nacional. Uma elite verdadeiramente comprometida com o desenvolvimento deveria ter interesse em um Brasil mais industrializado, tecnologicamente autônomo, educado e produtivo. Isso exige investimento de longo prazo, pesquisa, infraestrutura, ciência e formação de trabalhadores. Nada disso produz retorno imediato comparável a uma aplicação financeira de curto prazo. Uma fábrica de semicondutores pode levar anos para se consolidar. Uma universidade não distribui dividendos. Um laboratório de pesquisa pode trabalhar durante décadas antes de produzir uma inovação comercial. Uma ferrovia pode exigir investimentos gigantescos antes de reduzir custos logísticos. Se a única régua utilizada para avaliar políticas públicas for a reação instantânea dos mercados, projetos desse tipo estarão sempre em desvantagem diante de aplicações financeiras capazes de oferecer retorno imediato.
Foi exatamente essa discussão que apareceu quando falamos da Ceitec, da indústria nacional e da soberania tecnológica. Um país não se torna desenvolvido apenas porque possui contas organizadas. Precisa também possuir capacidade produtiva, conhecimento, empresas, infraestrutura e tecnologia. Responsabilidade fiscal é condição importante para isso, mas não pode se transformar no objetivo final da política econômica. Um Estado pode apresentar um balanço fiscal melhor e, ao mesmo tempo, estar deixando para trás uma economia menos produtiva, menos tecnológica e mais dependente. A verdadeira responsabilidade precisa considerar as duas dimensões: sustentabilidade das contas e capacidade de desenvolvimento.
A “elite do atraso” não deveria ser entendida como uma acusação a todo empresário
Talvez valha fazer essa distinção de maneira clara. O Brasil precisa de empresários, investidores e sistema financeiro. Uma economia desenvolvida não existe sem capital privado, inovação e empresas capazes de assumir riscos. O problema é quando parcelas relevantes da elite econômica conseguem prosperar sem que o restante do país prospere junto. Uma indústria nacional forte depende de consumidores com renda, trabalhadores qualificados, infraestrutura e tecnologia. Um empresário industrial tem razões concretas para desejar um mercado interno mais rico. Já uma parcela do capital financeiro pode obter retornos expressivos mesmo num ambiente de baixo crescimento, desde que juros, ativos e oportunidades de arbitragem permaneçam favoráveis.
É esse contraste que torna a expressão de Jessé Souza útil como provocação. Uma “elite do atraso” não é simplesmente uma elite rica. É uma elite que consegue preservar seus interesses sem precisar construir um projeto coletivo de desenvolvimento. Uma elite moderna deveria desejar que seus lucros crescessem porque a produtividade do país aumentou, porque empresas inovaram, porque trabalhadores ganharam mais e porque o mercado interno se expandiu. Deveria disputar projetos industriais, tecnológicos e científicos, e não apenas exigir que o governo reduza riscos para o patrimônio já acumulado.
A reação desta segunda-feira talvez seja uma oportunidade para discutir exatamente isso. O Brasil não precisa escolher entre hostilizar o mercado financeiro e submeter-se a ele. Precisa construir instituições fortes o suficiente para que decisões financeiras não determinem sozinhas o horizonte político do país. Isso passa por reservas internacionais, bancos públicos, mercado doméstico de capitais, poupança interna, indústria competitiva, empresas nacionais e menor dependência de fluxos financeiros de curto prazo. Quanto mais robusta for a estrutura produtiva brasileira, maior será a autonomia do Estado para enfrentar períodos de volatilidade sem imediatamente abandonar seus objetivos.
O governo Lula também terá responsabilidade enorme nisso. Criticar rentismo não pode virar desculpa para desprezar inflação, dívida ou estabilidade monetária. O pior cenário para trabalhadores seria um governo que, em nome do desenvolvimento, permitisse desorganização macroeconômica e deixasse o custo aparecer depois na forma de inflação, desemprego e perda de renda. A resposta precisa ser mais ambiciosa: provar que é possível estabilizar as contas sem destruir investimento, distribuir melhor o peso do ajuste e utilizar o Estado para construir capacidade produtiva. Isso exige escolhas difíceis e provavelmente frustrará setores de todos os lados.
Mas é justamente esse o debate que deveria começar depois da eleição.
Não se trata de decidir se o mercado é bom ou mau.
Trata-se de reconhecer que ele possui poder.
E que esse poder precisa coexistir com outro princípio igualmente importante: a soberania democrática de uma sociedade para escolher seu caminho de desenvolvimento.
A urna escolheu um governo.
O mercado respondeu algumas horas depois.
É legítimo que responda.
O que não deveria ser automático é imaginar que sua resposta encerra a discussão.
Porque uma democracia não pode funcionar se todas as escolhas consideradas aceitáveis forem apenas aquelas que recebem aprovação imediata dos detentores de capital.
Responsabilidade fiscal importa.
Confiança importa.
Estabilidade importa.
Mas indústria também importa.
Ciência importa.
Tecnologia importa.
Emprego importa.
Renda importa.
E soberania importa.
A pergunta que deveria orientar os próximos anos não é apenas como tranquilizar o mercado.
É como construir um Brasil em que o mercado precise do desenvolvimento do país tanto quanto o país precisa do mercado.
Talvez seja essa a diferença entre uma elite simplesmente rica e uma elite realmente comprometida com um projeto nacional.
FONTES
Reuters — reação dos mercados à reeleição de Lula. A cobertura registra a queda do Ibovespa, o acionamento do circuit breaker, a forte desvalorização do real e a elevação dos juros futuros na primeira sessão após a eleição. Acessar a reportagem
Folha de S.Paulo — dólar, Bolsa e juros após o segundo turno. A reportagem mostra a forte reação dos mercados após o resultado presidencial e recupera o movimento inverso ocorrido depois do primeiro turno, quando investidores passaram a precificar uma vitória de Flávio Bolsonaro. Acessar a cobertura
Banco Central do Brasil — Estatísticas Fiscais. Fonte oficial para os dados sobre dívida bruta, déficit primário e juros nominais do setor público. Consultar as estatísticas
Ministério da Fazenda — Distribuição da Renda e da Riqueza no Brasil. Relatório utilizado para contextualizar a concentração patrimonial e a elevada participação dos ativos financeiros na riqueza dos estratos superiores da população. Acessar o relatório
FGV IBRE — concentração de renda e rendimentos do capital. Estudo que mostra o crescimento da participação das rendas de capital entre os estratos de maior renda no Brasil. Consultar o estudo
Ipea — renda do capital e progressividade tributária. Análise sobre a composição das rendas no topo da distribuição e a estrutura tributária brasileira. Consultar o estudo
Jessé Souza — “A Elite do Atraso”. Entrevista em que o sociólogo desenvolve sua interpretação sobre a formação das elites brasileiras, o peso do rentismo e a relação entre concentração econômica e poder político. Acessar a entrevista
Jessé Souza — mercado financeiro e projeto nacional. Discussão sobre a relação entre concentração econômica, rentismo e dificuldade de construção de um projeto nacional de desenvolvimento. Acessar a entrevista



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