Escrevo esta carta como alguém que se reconhece na centro-esquerda e que ainda acredita na social-democracia como um projeto possível para o Brasil. Não escrevo em nome de partido, movimento ou liderança alguma. Escrevo em meu próprio nome, a partir das minhas próprias inquietações, porque vejo o país chegar a mais uma decisão eleitoral importante enquanto uma parte do campo progressista parece dividida entre a defesa automática de lideranças já conhecidas e a dificuldade de formular uma identidade própria para o futuro. Neste 25 de outubro de 2026, Lula e Flávio Bolsonaro disputam o segundo turno da eleição presidencial. E confesso que acompanho esse momento com preocupação, não apenas pelo resultado eleitoral em si, mas pelo que ele revela sobre o tipo de país que estamos discutindo e sobre a dificuldade que ainda temos, na centro-esquerda, de apresentar à sociedade um projeto claro que vá além da defesa circunstancial de um candidato ou da rejeição ao outro.
Minha preocupação com uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro não nasce de uma adesão irrestrita ao governo Lula, muito menos de uma identificação automática com o PT. Há decisões, posturas e caminhos da esquerda brasileira que considero criticáveis, e acredito que uma democracia saudável precisa permitir que essas críticas existam sem que toda divergência seja tratada como traição. O que me preocupa é a possibilidade de vermos ganhar força um projeto político cuja visão de Estado, desenvolvimento, relações de trabalho, política industrial e proteção social me parece distante daquela que considero necessária para um país com as características do Brasil. É justamente por não enxergar política como torcida organizada que consigo reconhecer essa preocupação sem transformar o outro lado em caricatura. Flávio Bolsonaro representa um campo político real, com milhões de eleitores e propostas que precisam ser debatidas com seriedade. O próprio TSE disponibiliza os programas registrados pelos dois candidatos para o segundo turno, permitindo que qualquer eleitor compare diretamente os projetos apresentados. Minha divergência, portanto, é antes de tudo uma divergência de projeto.
Acredito que o Brasil precisa de um Estado capaz de fazer mais do que administrar contas e corrigir falhas pontuais do mercado. Precisamos de um Estado que pense desenvolvimento, infraestrutura, ciência, tecnologia, saúde, educação, indústria e soberania nacional no longo prazo. Isso não significa defender que o governo controle toda a economia, substitua empresas privadas ou ignore restrições fiscais. Significa reconhecer algo que a própria história das economias desenvolvidas demonstra: nenhuma transformação estrutural de grande escala ocorreu sem instituições capazes de coordenar investimentos, financiar inovação, construir infraestrutura e assumir riscos que o setor privado sozinho muitas vezes não assumiria. É por isso que, quando discutimos Ceitec, semicondutores, soberania de dados, inteligência artificial, indústria nacional ou minerais críticos, não estamos discutindo apenas empresas ou políticas isoladas. Estamos discutindo se o Brasil pretende continuar comprando no exterior as capacidades tecnológicas das quais dependerá no futuro ou se pretende construir parte dessas capacidades dentro do próprio país.
Essa é uma das razões pelas quais me identifico com uma tradição social-democrata. Não acredito que o mercado seja inimigo. Pelo contrário: empresas, competição, investimento privado, empreendedorismo e inovação são indispensáveis para qualquer economia moderna. Mas também não acredito que o mercado, sozinho, consiga responder às necessidades de uma sociedade profundamente desigual ou construir todas as capacidades que uma nação precisa. Há investimentos que exigem décadas para maturar, há regiões que jamais receberiam recursos suficientes se a única métrica fosse retorno financeiro imediato e há direitos que não deveriam depender exclusivamente da capacidade individual de pagamento. Saúde, educação, previdência, proteção trabalhista, ciência básica e infraestrutura possuem dimensões sociais que não cabem inteiramente numa planilha de rentabilidade. Para mim, a social-democracia começa justamente nessa tentativa de conciliar economia de mercado, democracia política e proteção social, submetendo o poder econômico a instituições capazes de impedir que liberdade formal conviva com insegurança material permanente.
Também acredito que precisamos falar novamente sobre indústria sem nostalgia. Durante décadas, o Brasil discutiu industrialização como se o problema fosse simplesmente construir fábricas. Hoje, a questão é muito mais complexa. Indústria significa semicondutores, biotecnologia, inteligência artificial, medicamentos, equipamentos médicos, baterias, sistemas energéticos, software, máquinas de precisão e centenas de tecnologias que atravessam praticamente toda a economia. Podemos ser uma potência agrícola e mineral e, ao mesmo tempo, construir capacidade tecnológica. Não existe contradição necessária entre agronegócio e indústria, entre mineração e inovação ou entre exploração de petróleo e transição energética. A verdadeira contradição aparece quando exportamos matéria-prima e recompramos, por valores muito maiores, os produtos que incorporam conhecimento, patentes, engenharia e tecnologia. Foi por isso que me chamou tanto a atenção a discussão recente sobre a Ceitec. Quando se resume uma empresa de semicondutores à ideia de que “o Estado não deveria produzir chips”, corre-se o risco de reduzir uma questão estratégica a uma comparação empresarial de curto prazo. A empresa pode ter problemas, pode precisar de metas, reestruturação ou até de outro modelo institucional, mas a pergunta principal permanece: quem desenvolverá essa capacidade no Brasil se simplesmente desistirmos dela?
Da mesma maneira, penso na soberania digital. Hoje, dados públicos, sistemas de saúde, redes financeiras, plataformas de comunicação e serviços essenciais dependem de infraestruturas tecnológicas que muitas vezes pertencem a empresas estrangeiras. Isso não significa que devamos expulsar empresas internacionais ou criar uma internet brasileira isolada do mundo. Significa que precisamos ter alternativas. Um país soberano não é aquele que fabrica tudo sozinho, mas aquele que consegue continuar funcionando quando um fornecedor externo deixa de estar disponível. É por isso que considero importante discutir empresas nacionais de tecnologia, fortalecer instituições como Serpro e Dataprev, apoiar pesquisa universitária, criar capacidade em nuvem, cibersegurança e inteligência artificial e utilizar compras públicas para estimular empresas brasileiras. Soberania não é autarquia; é capacidade de escolha. E escolha só existe quando há mais de uma opção.
Tudo isso se conecta diretamente à eleição que estamos vivendo. Minha preocupação com uma vitória de Flávio não está baseada numa ideia de que todo eleitor que o apoia seja antidemocrático, desinformado ou contrário aos direitos sociais. Seria intelectualmente preguiçoso pensar assim. Milhões de brasileiros têm motivos diferentes para votar como votam: segurança pública, economia, valores culturais, rejeição ao PT, insatisfação com o governo atual ou simples preferência por outro projeto. Se a centro-esquerda não conseguir compreender essas razões, continuará falando apenas consigo mesma. O erro seria responder à derrota ou ao risco de derrota chamando o eleitor de ignorante, fascista ou manipulado. Uma força política democrática precisa convencer pessoas que ainda não concordam com ela. Se metade do país não acredita no nosso projeto, a pergunta não pode ser apenas “o que há de errado com essas pessoas?”. Precisamos perguntar também onde falhamos em explicar aquilo que defendemos.
É aí que acredito que a centro-esquerda precisa reconstruir uma identidade própria. Não quero uma esquerda que dependa eternamente de uma única liderança, assim como não quero uma direita organizada ao redor de um sobrenome. Quero um campo político capaz de produzir novos quadros, novas ideias e um projeto nacional que sobreviva às pessoas que temporariamente o representam. Isso significa reconhecer conquistas de Lula sem transformar Lula numa condição permanente para a existência da esquerda brasileira. Significa apoiar políticas corretas e criticar políticas erradas, mesmo quando ambas vêm do mesmo governo. Significa admitir que responsabilidade fiscal importa sem aceitar que responsabilidade fiscal se transforme em justificativa automática para desmontar investimento público. Significa defender políticas sociais sem imaginar que a pobreza será resolvida apenas pela transferência de renda. Programas sociais são indispensáveis para proteger quem precisa, mas uma sociedade verdadeiramente desenvolvida precisa também criar empregos produtivos, aumentar salários, oferecer serviços públicos de qualidade e ampliar a autonomia material das famílias.
Também precisamos abandonar a ideia de que existe uma competição entre direitos sociais e pautas culturais. Uma pessoa pode querer segurança pública e proteção trabalhista. Pode ser religiosa e defender o SUS. Pode ser conservadora em determinados costumes e favorável a políticas econômicas redistributivas. Pode trabalhar por aplicativo, abrir uma pequena empresa e continuar dependendo da escola pública para os filhos. A sociedade real não se organiza nas categorias perfeitamente separadas que muitas vezes utilizamos nas redes sociais. Se a social-democracia quiser falar novamente com trabalhadores, precisa compreender a maneira concreta como eles vivem hoje: empregos formais e informais misturados, trabalho por aplicativo, pequenos negócios, endividamento, medo do desemprego, insegurança urbana, jornadas extensas e expectativa de mobilidade social. Não basta repetir a linguagem política do século XX para uma estrutura de trabalho que mudou profundamente.
É justamente por isso que considero tão importante recuperar a ideia de projeto nacional. Quero saber qual Brasil estamos tentando construir para 2040, 2050 ou 2060. Queremos uma economia baseada principalmente em exportação de commodities ou queremos utilizar nossas vantagens agrícolas, minerais e energéticas para construir novas vantagens industriais? Queremos formar engenheiros e pesquisadores para que trabalhem apenas em tecnologias produzidas no exterior ou queremos criar empresas capazes de empregar esse conhecimento aqui? Queremos que nossos dados estratégicos dependam integralmente de empresas estrangeiras ou queremos possuir infraestrutura nacional suficiente para garantir continuidade e segurança? Queremos que desenvolvimento seja medido apenas pelo crescimento anual do PIB ou também pela capacidade de produzir tecnologia, melhorar serviços públicos, aumentar salários e reduzir desigualdades?
Essas perguntas explicam minha preocupação neste segundo turno melhor do que qualquer slogan eleitoral. Não se trata, para mim, de considerar Lula uma solução para todos os problemas do Brasil nem de imaginar que quatro anos de qualquer governo possam resolver questões estruturais acumuladas durante décadas. Trata-se de reconhecer que eleições também escolhem direções. Algumas decisões podem ser corrigidas rapidamente; outras destroem capacidades que levam anos para serem reconstruídas. Uma fábrica pode ser fechada em meses e levar uma década para reaparecer. Um grupo de pesquisadores pode se dispersar rapidamente e nunca voltar a trabalhar junto. Uma empresa tecnológica nacional pode desaparecer antes que o país perceba que precisava dela. Política econômica não é apenas o balanço de um mandato; muitas vezes ela determina aquilo que estará disponível para o mandato seguinte.
Por isso, se esta carta é dirigida à centro-esquerda, ela não é um pedido para que nos acomodemos. Pelo contrário. Independentemente do resultado desta eleição, acredito que o nosso campo precisa sair dela maior intelectualmente do que entrou. Se vencer o projeto mais próximo das nossas ideias, isso não pode significar complacência. Se perder, não pode significar desprezo pelo eleitorado. Precisamos voltar a formular, estudar, organizar e convencer. Precisamos falar de indústria sem medo de parecermos antiquados, de Estado sem defender burocracia inútil, de mercado sem transformar empresários em inimigos, de responsabilidade fiscal sem aceitar austeridade permanente, de segurança pública sem abandonar direitos humanos, de políticas sociais sem desistir de autonomia econômica e de soberania sem imaginar que o Brasil deva se fechar ao mundo.
Eu acredito que existe espaço político para isso. Talvez exista uma parcela enorme da sociedade que não queira escolher permanentemente entre um Estado ausente e um Estado incapaz, entre um mercado sem limites e uma economia controlada, entre progressismo sem projeto econômico e desenvolvimento sem compromisso social. Há pessoas que acreditam em empresas e sindicatos, em mercado e SUS, em investimento privado e universidade pública, em responsabilidade fiscal e política industrial, em liberdade individual e proteção coletiva. Pessoas que não querem destruir o capitalismo, mas também não aceitam que a lógica do lucro determine sozinha quanto vale uma vida, uma escola, uma pesquisa científica ou o futuro industrial de um país.
É para essas pessoas que escrevo.
E também para mim mesmo, porque esta carta é uma tentativa de colocar em palavras o tipo de posição política na qual ainda acredito.
Não sou social-democrata porque considero que todas as respostas já foram encontradas.
Sou porque acredito que democracia, liberdade, desenvolvimento e justiça social precisam caminhar juntos, e porque nenhuma dessas palavras, isoladamente, é suficiente para construir o Brasil que imagino.
Hoje, enquanto o país decide seu próximo presidente, minha preocupação é real.
Mas maior do que o medo de um resultado eleitoral específico é a preocupação de que a centro-esquerda deixe de construir aquilo que deveria existir depois dessa eleição: um projeto capaz de sobreviver aos candidatos, dialogar com quem pensa diferente e oferecer ao Brasil algo maior do que a escolha entre dois nomes numa urna.
Porque eleições terminam.
Projetos de país precisam continuar.



Deixe um comentário