Sede da CEITEC, em Porto Alegre. Criada para desenvolver capacidade brasileira em microeletrônica e semicondutores, a empresa voltou ao centro do debate sobre política industrial e soberania tecnológica. Foto: Paulo RS Menezes, via Wikimedia Commons — CC BY-SA 3.0 Brasil.

O Estado deve produzir chips? A Ceitec e a disputa pelo futuro industrial do Brasil

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A coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, colocou a Ceitec entre as empresas que deveriam ser liquidadas em um eventual governo e resumiu sua crítica afirmando que “não faz sentido o Estado ter uma estatal de chip do boi”. A objeção parte de uma pergunta legítima: por que o contribuinte deveria sustentar uma empresa pública que historicamente dependeu do Tesouro e encontrou dificuldades para transformar conhecimento tecnológico em receita? O problema está em imaginar que essa pergunta encerra o debate. Semicondutores deixaram há muito tempo de ser apenas uma mercadoria produzida por quem consegue fazê-la mais barato. Estados Unidos, União Europeia, Japão e Taiwan investem bilhões para garantir capacidade doméstica de fabricação, pesquisa e desenvolvimento porque chips estão no centro da indústria automobilística, da inteligência artificial, da infraestrutura energética, das telecomunicações e da defesa. A verdadeira discussão brasileira, portanto, não deveria ser simplesmente se “o governo deve fabricar chips”, mas se um país do tamanho e das ambições do Brasil pode aceitar não dominar nenhuma capacidade relevante de produzir uma tecnologia que estará presente praticamente em tudo aquilo que chamaremos de indústria no século XXI.

Existe algo aparentemente razoável na crítica feita à Ceitec. Uma empresa possui funcionários, equipamentos, despesas e precisa entregar resultados. A Ceitec historicamente encontrou dificuldades para construir escala comercial e permaneceu dependente de recursos públicos. Em setembro, Daniella Marques afirmou que a estatal não possuía “sentido econômico”, disse que tinha “mais contingente trabalhista do que receita” e declarou que algumas empresas públicas precisariam ser liquidadas, citando nominalmente a Ceitec. Pouco depois, reportagens sobre os planos econômicos da campanha de Flávio Bolsonaro voltaram a indicar a empresa como um dos primeiros alvos de uma eventual reorganização das estatais. A crítica, portanto, não é uma invenção de adversários políticos: existe efetivamente uma visão dentro da equipe econômica de Flávio segundo a qual manter uma fábrica pública de semicondutores não justificaria o gasto necessário para sustentá-la.

O problema começa quando eficiência empresarial e estratégia nacional passam a ser tratadas como se fossem exatamente a mesma coisa. Uma empresa comercial normal existe primordialmente para gerar retorno sobre o capital investido. Uma infraestrutura tecnológica estratégica pode possuir outra função: criar conhecimento, formar engenheiros, desenvolver processos produtivos, testar tecnologias, fornecer componentes para determinadas cadeias nacionais e manter dentro do país competências que desapareceriam caso toda a produção fosse importada. Isso não significa conceder cheque em branco para uma estatal eternamente deficitária. Significa apenas reconhecer que lucro contábil de curto prazo e valor econômico de longo prazo são conceitos diferentes. Universidades públicas também não são avaliadas pela receita que conseguem vender no mercado; laboratórios militares não precisam gerar dividendos para justificar sua existência; institutos de pesquisa podem produzir conhecimento cujo retorno aparece décadas depois em empresas privadas. A pergunta sobre a Ceitec precisa considerar esse tipo de externalidade, principalmente num setor em que o aprendizado acumulado e a formação de mão de obra especializada constituem parte central do ativo.

A Ceitec nunca foi uma TSMC brasileira — e talvez esse nunca devesse ter sido o objetivo

Parte da discussão também é prejudicada por uma expectativa irreal sobre aquilo que a Ceitec deveria ser. O Brasil não possui hoje uma empresa comparável à taiwanesa TSMC, capaz de fabricar os processadores mais avançados utilizados em inteligência artificial e computação de ponta. A Ceitec tampouco está perto disso. A companhia foi criada como empresa pública em 2008 e desenvolveu competências em projeto e fabricação de circuitos integrados, especialmente dispositivos RFID, smartcards e circuitos para aplicações específicas. Os famosos “chips do boi” são dispositivos de identificação por radiofrequência utilizados na rastreabilidade animal, mas a tecnologia também pode ser aplicada à identificação de medicamentos, veículos, ativos e outros produtos. O próprio MCTI define a missão da empresa como o desenvolvimento de soluções de microeletrônica para demandas estratégicas e comerciais brasileiras.

Reduzir tudo isso à expressão “chip do boi” funciona muito bem politicamente porque faz a empresa parecer quase caricata: centenas de milhões investidos para colocar uma etiqueta na orelha de um animal. Só que rastreabilidade é uma tecnologia relevante para uma das maiores potências agropecuárias do planeta, principalmente num mercado internacional cada vez mais exigente quanto a origem, sanidade, controle ambiental e acompanhamento das cadeias de alimentos. Mais importante ainda, aprender a fabricar um circuito integrado específico não significa apenas possuir aquele produto. Significa desenvolver conhecimento em projeto, materiais, processos químicos, operação de sala limpa, encapsulamento, teste, controle de qualidade e engenharia de semicondutores. O produto inicial pode ser simples quando comparado ao processador de um smartphone, mas a infraestrutura necessária para fabricá-lo constitui uma base tecnológica que pode ser utilizada para outros projetos.

Sala limpa utilizada na fabricação e pesquisa de semicondutores. Produzir circuitos integrados exige infraestrutura industrial altamente especializada, controle ambiental e conhecimento acumulado em processos de microeletrônica. Foto: NASA Glenn Research Center, via Wikimedia Commons — domínio público nos Estados Unidos.

Esse era, inclusive, um dos argumentos utilizados desde os primeiros anos do projeto. Em audiência no Senado em 2011, representantes do governo reconheciam explicitamente que a Ceitec não seria uma indústria de ponta comparável às maiores fabricantes internacionais. A intenção era “aprender a fazer”, desenvolver chips dedicados, fortalecer design houses brasileiras, formar recursos humanos e utilizar o mercado interno como instrumento para atrair investimentos privados à cadeia de semicondutores. Essa distinção continua importante hoje: a escolha não precisa ser entre transformar a Ceitec numa TSMC estatal ou fechá-la. Existe um espaço intermediário em que uma infraestrutura pública funciona como núcleo de capacitação, prototipagem, fabricação especializada e apoio ao desenvolvimento de uma cadeia privada muito maior.

O governo Bolsonaro tentou liquidar a empresa — e o TCU considerou insuficientes as justificativas apresentadas

A discussão tampouco começou na eleição de 2026. Em dezembro de 2020, durante o governo Jair Bolsonaro, foi determinada a dissolução societária da Ceitec. A empresa deveria ser liquidada e parte de suas atividades de pesquisa seria transferida para outra estrutura. Em 2021, porém, o Tribunal de Contas da União determinou a suspensão do processo. O TCU considerou frágeis as justificativas apresentadas para fundamentar a liquidação e exigiu que o governo demonstrasse adequadamente onde estava o interesse público em fechar a empresa, levando em conta sua posição estratégica na produção nacional de semicondutores e o capital intelectual desenvolvido com recursos da União. A Corte também chamou atenção para o risco de perder investimentos públicos já realizados e para um detalhe particularmente irônico: apenas desmontar e descontaminar adequadamente a infraestrutura fabril poderia custar cerca de R$ 140 milhões.

Esse episódio é importante porque mostra que mesmo a discussão fiscal não era tão simples quanto “empresa dá prejuízo, então basta fechar”. Uma fábrica de semicondutores não é uma sala comercial na qual se apaga a luz e devolve a chave. Existem salas limpas, gases, sistemas químicos, máquinas extremamente especializadas e conhecimento acumulado. Encerrar tudo também custa dinheiro e destrói um ativo cuja reconstrução futura pode custar muito mais. O TCU não declarou que a Ceitec era necessariamente eficiente nem que deveria permanecer estatal para sempre; determinou que uma decisão de tamanho impacto precisava ser fundamentada considerando custos, ativos tecnológicos, capital humano e interesse estratégico, e não apenas uma fotografia financeira da empresa. Essa é uma diferença importante.

O governo Lula reverteu formalmente a dissolução em novembro de 2023 e iniciou um processo de recuperação operacional. A retomada está longe de ser uma história de sucesso concluída. Documentos do próprio governo mostram as dificuldades: no monitoramento do PPA, a Ceitec não conseguiu retomar a produção prevista em 2024 por insuficiência orçamentária para equipamentos e requalificação da fábrica. O atual plano pretende restaurar produção e comercialização de dispositivos RFID ao mesmo tempo em que reposiciona a empresa numa tecnologia diferente, os semicondutores de potência em carbeto de silício, o SiC, utilizados especialmente em eletrificação, veículos, conversores de energia e sistemas de alta eficiência. A Mensagem ao Congresso de 2026 informa investimentos da ordem de R$ 220 milhões, com R$ 100 milhões aplicados em 2025 e R$ 120 milhões previstos para 2026, com objetivo de atingir produção em escala desses dispositivos até o fim de 2027.

Portanto, também seria precipitado apresentar a Ceitec atual como prova de que a política industrial já funcionou. O projeto está sendo reconstruído e precisa demonstrar resultados. A questão é justamente se devemos avaliá-lo antes que essa reconstrução termine exclusivamente com a régua da receita corrente ou se devemos estabelecer metas tecnológicas e comerciais objetivas, cobrar sua execução e medir a empresa pelo valor estratégico produzido.

Enquanto discutimos se o Estado deve participar, Estados Unidos, Europa, Japão e Taiwan colocam bilhões na mesa

Talvez a parte mais desconfortável dessa discussão seja observar o que fazem os países que normalmente utilizamos como exemplos de economias de mercado. Os Estados Unidos não possuem uma “Ceitec americana” diretamente equivalente, mas isso está muito longe de significar que Washington deixou a indústria de semicondutores simplesmente nas mãos do mercado. O CHIPS and Science Act destinou US$ 52,7 bilhões a políticas de fabricação, pesquisa e desenvolvimento de semicondutores, incluindo US$ 39 bilhões em incentivos industriais e US$ 11 bilhões para pesquisa e desenvolvimento. Em julho de 2026, o governo americano anunciou até US$ 225 milhões de incentivo federal para apoiar uma fábrica de semicondutores de carbeto de silício da Bosch na Califórnia — justamente a família tecnológica para a qual a Ceitec está tentando se reposicionar.

Wafer utilizado em microeletrônica, contendo diversos circuitos que posteriormente podem ser separados em chips individuais. Semicondutores estão presentes em automóveis, telecomunicações, energia, equipamentos médicos, defesa e inteligência artificial. Foto: DrHughManning, via Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.

E essa política não desapareceu com a mudança de governo nos Estados Unidos. Em janeiro de 2026, o governo de Donald Trump declarou oficialmente que a dependência americana de semicondutores estrangeiros constituía risco econômico e de segurança nacional, destacando o papel dos chips em defesa, telecomunicações, energia, infraestrutura, equipamentos médicos e inteligência artificial. A administração passou a utilizar tarifas e incentivos para estimular produção doméstica e, em acordo com Taiwan, vinculou benefícios comerciais à instalação de nova capacidade fabril dentro dos Estados Unidos. Em outras palavras, mesmo um governo republicano e fortemente associado à defesa da iniciativa privada considera que semicondutores são estratégicos demais para que localização industrial seja definida exclusivamente pelo menor preço disponível no mercado internacional.

A União Europeia segue caminho semelhante. O European Chips Act mobiliza mais de € 43 bilhões em investimentos orientados por política pública para ampliar fabricação, pesquisa, design, capacitação e resiliência das cadeias europeias. O Japão estabeleceu um programa ainda mais explícito de apoio e participação estatal: seu Ministério da Economia anunciou investimentos públicos na Rapidus, empresa criada para reconstruir a capacidade japonesa em semicondutores avançados, dentro de uma estratégia que prevê mais de 10 trilhões de ienes de apoio público a IA e chips até 2030, tentando induzir dezenas de trilhões adicionais de investimento privado.

Talvez o exemplo mais contundente seja Taiwan. Mesmo sendo o país que abriga a TSMC e possui um dos ecossistemas privados de semicondutores mais sofisticados do planeta, seu governo anunciou em setembro deste ano investimento de cerca de NT$ 300 bilhões, aproximadamente US$ 9,5 bilhões, até 2033 em instalações de pesquisa, linhas piloto, softwares de design e formação tecnológica. Taiwan aparentemente não concluiu que, por possuir empresas privadas altamente eficientes, o Estado perdeu sua função. Pelo contrário: justamente porque os semicondutores são fundamentais para sua economia e segurança, continua utilizando planejamento e dinheiro público para preservar a liderança tecnológica.

Isso não prova que a Ceitec deva necessariamente permanecer uma empresa estatal brasileira. Estados Unidos subsidiam empresas privadas; Taiwan combina indústria privada com institutos tecnológicos e investimento governamental; Japão financia e até investe em companhias estratégicas; Europa utiliza subsídios, fundos de pesquisa e coordenação regulatória. Há vários modelos institucionais possíveis. O que esses casos mostram é algo diferente: nenhuma grande potência tecnológica relevante parece acreditar que semicondutores sejam apenas mais uma mercadoria que pode ser comprada eternamente de quem oferecer o menor preço.

O paradoxo do discurso: querer transferência de tecnologia enquanto se fecha a estrutura capaz de absorvê-la

É nesse ponto que aparece uma contradição particularmente interessante dentro do próprio discurso atual da candidatura de Flávio Bolsonaro. Em setembro, o senador afirmou que deseja atrair países que “queiram investir no Brasil” e “transferir tecnologia para o Brasil”, defendendo relações pragmáticas tanto com Estados Unidos quanto com China. Em maio, depois de encontro com Donald Trump, também falou em uma “reindustrialização compartilhada” relacionada aos minerais críticos brasileiros. Portanto, sua posição pública não é simplesmente a de um país resignado a exportar commodities e importar produtos sofisticados. Há no discurso de Flávio uma defesa explícita de investimento estrangeiro, industrialização e transferência tecnológica.

A pergunta passa a ser como essa transferência acontecerá. Tecnologia não é um arquivo que uma empresa estrangeira entrega num pen drive. Para absorvê-la, um país precisa ter engenheiros, técnicos, laboratórios, universidades, fornecedores, centros de pesquisa e empresas capazes de compreender, adaptar e reproduzir aquilo que recebe. É exatamente por isso que economistas do desenvolvimento falam em capacidade de absorção tecnológica. Um país com estrutura industrial sofisticada consegue utilizar investimento estrangeiro para aprender e construir novas competências; um país sem essa base corre o risco de simplesmente receber uma planta de montagem cuja tecnologia central continua controlada no exterior.

A Ceitec pode ou não ser o instrumento correto para construir essa capacidade. Isso deveria ser discutido com números, metas e resultados. Mas fechar uma infraestrutura de semicondutores ao mesmo tempo em que se promete atrair transferência de tecnologia cria uma pergunta que a campanha precisaria responder: quem, dentro do Brasil, absorverá essa tecnologia? Se a resposta for exclusivamente empresas estrangeiras instaladas aqui, parte da produção poderá ser nacional, mas o domínio tecnológico continuará podendo permanecer fora do país. Produzir dentro do território e dominar tecnologia são objetivos relacionados, mas não idênticos.

Essa diferença é especialmente relevante quando o Brasil discute suas enormes reservas de minerais críticos. Exportar lítio, terras raras, nióbio ou outros materiais e depois importar baterias, chips, sensores, máquinas e sistemas construídos a partir deles reproduz uma velha característica periférica: vendemos aquilo que possui menor conteúdo tecnológico e compramos de volta aquilo que incorpora conhecimento. A política industrial contemporânea tenta justamente alterar essa relação, utilizando recursos naturais, mercado interno e demanda estatal como instrumentos para construir cadeias produtivas de maior valor agregado.

“Chip do boi” pode parecer simples; soberania tecnológica quase nunca é

A expressão utilizada para diminuir a Ceitec também merece uma reflexão própria. Um chip destinado à identificação animal é muito menos sofisticado do que os processadores de IA mais avançados produzidos por TSMC, Samsung ou Intel. Isso é verdade. Mas desenvolvimento industrial raramente começa na fronteira tecnológica mundial. Países aprendem produzindo, acumulando conhecimento, formando mão de obra e avançando progressivamente para segmentos mais complexos. O problema brasileiro talvez seja justamente nossa tendência de avaliar um setor nascente perguntando por que ele ainda não consegue competir com empresas que receberam décadas de investimento, proteção, compras públicas, pesquisa e planejamento estatal.

Isso não significa proteger eternamente uma empresa incompetente sob o argumento da soberania. Uma política industrial séria precisa estabelecer contrapartidas. Se o Estado investe R$ 220 milhões na recuperação da Ceitec, deveria haver metas verificáveis de produção, tecnologia incorporada, contratos comerciais, formação de profissionais, patentes, parcerias privadas e redução progressiva da dependência de aportes correntes. O mesmo desenvolvimentismo que defende política industrial deveria ser capaz de encerrar projetos que sistematicamente não entregam resultados. Planejamento não significa manter tudo; significa saber por que se está investindo e medir se o objetivo foi alcançado.

Manipulação de um wafer no interior de uma sala limpa de microeletrônica. A capacidade de fabricar semicondutores depende não apenas de máquinas, mas de engenheiros, técnicos, processos industriais e conhecimento acumulado durante anos. Foto: Niftyfiftycat, via Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.

Mas o inverso também precisa ser verdadeiro. Uma empresa estratégica não deveria ser encerrada apenas porque ainda não apresenta a rentabilidade que uma indústria madura alcança. É preciso calcular o custo do fechamento, da perda de engenheiros especializados, da destruição de infraestrutura, da dependência de importações e de reconstruir essa capacidade caso uma crise internacional revele que o país voltou a precisar dela. Foi justamente esse conjunto de fatores que o TCU exigiu que fosse considerado quando suspendeu a liquidação anterior.

Talvez a pergunta esteja errada desde o começo

Perguntar “o governo deveria produzir chips?” cria uma falsa escolha. O Estado não precisa necessariamente ser o fabricante dominante de semicondutores para possuir política industrial. Os Estados Unidos mostram isso com subsídios e compras; a Europa com incentivos e centros de competência; Taiwan com institutos de pesquisa e planejamento; o Japão com apoio financeiro e participação estratégica. O Brasil também pode combinar empresas privadas, universidades, institutos públicos, financiamento do BNDES e da Finep, compras governamentais e uma empresa como a Ceitec exercendo funções específicas dentro dessa estrutura.

A pergunta mais útil seria: qual capacidade tecnológica o Brasil considera indispensável manter dentro de seu território e qual é a melhor instituição para construí-la?

Se a resposta for que semicondutores não são estratégicos, então talvez realmente não faça sentido manter a Ceitec. Podemos importar chips e concentrar nossos recursos em setores nos quais possuímos vantagens imediatas.

Mas essa parece ser uma conclusão cada vez mais difícil de sustentar num mundo em que Estados Unidos classificam semicondutores como questão de segurança nacional, Taiwan investe bilhões para manter sua liderança, a Europa tenta reduzir sua dependência asiática e o Japão utiliza dinheiro público para reconstruir uma indústria que perdeu espaço. Chips controlam automóveis, redes elétricas, sistemas de comunicação, satélites, equipamentos médicos, computadores, armas, data centers e inteligência artificial. Eles não são simplesmente mais um componente da indústria moderna; são parte da infraestrutura sobre a qual praticamente toda a indústria moderna funciona.

O Brasil não precisa fabricar cada chip que consome e provavelmente jamais fará isso. Soberania não é autarquia. Também não precisa competir imediatamente em nós tecnológicos de dois nanômetros. Países escolhem nichos, constroem competências e integram cadeias globais. A atual aposta da Ceitec em carbeto de silício, por exemplo, procura ocupar um segmento relacionado a eletrificação e transição energética, e não competir diretamente com processadores de smartphone ou chips de inteligência artificial. Esse pode ser um caminho bem-sucedido ou pode fracassar; os próximos anos precisarão demonstrar isso. O que parece estranho é decidir que a experiência sequer merece ser tentada justamente quando outras economias aumentam seus investimentos públicos no mesmo setor.

Existe, portanto, uma discussão fiscal legítima sobre a Ceitec. Há dependência do Tesouro, problemas históricos de escala, investimentos que precisam produzir resultados e uma obrigação evidente de evitar que “soberania” se transforme em justificativa para desperdício permanente. Mas há também uma discussão igualmente legítima sobre o custo de não possuir tecnologia.

Esse custo quase nunca aparece imediatamente no balanço de uma empresa.

Ele aparece quando uma cadeia internacional quebra.

Quando uma potência restringe exportações.

Quando uma fábrica de automóveis precisa interromper a produção por falta de componentes.

Quando equipamentos militares dependem de fornecedores externos.

Quando um país possui o minério, a energia e o mercado, mas precisa comprar no exterior a tecnologia que transforma tudo isso em produtos de alto valor.

Nesse momento, aquilo que parecia apenas um gasto passa a ser entendido como capacidade estratégica.

Talvez a grande discussão sobre a Ceitec, portanto, não seja se o Estado deve ou não fabricar um “chip do boi”.

É se o Brasil deseja continuar sendo principalmente o país que fornece o boi, o minério e a energia enquanto outros países dominam os chips, máquinas e tecnologias que organizam essas cadeias.

Uma economia pode comprar chips no exterior. O que ela não consegue comprar de uma hora para outra é a capacidade de produzi-los.

E soberania tecnológica começa justamente nessa diferença.

FONTES

Poder360 — proposta de liquidação da Ceitec pela equipe de Flávio Bolsonaro. A reportagem registra a declaração da coordenadora econômica Daniella Marques de que algumas estatais deveriam ser liquidadas e sua afirmação de que “não faz sentido o Estado ter uma estatal de chip do boi”. Acessar a reportagem

Veja — Ceitec na mira da equipe econômica de Flávio Bolsonaro. Reportagem que detalha as críticas de Daniella Marques à situação financeira da estatal e a intenção de colocar a Ceitec entre as primeiras empresas a serem descontinuadas em um eventual governo. Acessar a reportagem

CNN Brasil — Flávio Bolsonaro e a defesa da transferência de tecnologia para o Brasil. Registra a afirmação do candidato de que pretende manter relações pragmáticas com diferentes países e atrair investimentos que tragam transferência tecnológica para a economia brasileira. Acessar a reportagem

Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação — Ceitec. Página institucional que apresenta a missão da empresa pública e suas áreas de atuação em semicondutores, incluindo identificação por radiofrequência, smartcards e circuitos integrados para aplicações específicas. Consultar a página institucional

Tribunal de Contas da União — suspensão da desestatização da Ceitec. Em 2021, o TCU considerou frágeis as justificativas apresentadas para a liquidação da companhia e determinou que fossem avaliados o interesse público, a posição estratégica da empresa na produção nacional de semicondutores, o capital intelectual acumulado e os custos associados ao fechamento da fábrica. Consultar a decisão do TCU

Presidência da República — Decreto nº 11.768, de 6 de novembro de 2023. Norma que autorizou a reversão do processo de dissolução da Ceitec e determinou providências para restabelecer o funcionamento regular da empresa. Consultar o decreto

Presidência da República — Mensagem ao Congresso Nacional de 2026. Documento oficial que informa investimentos de aproximadamente R$ 220 milhões na modernização da Ceitec, sendo R$ 100 milhões aplicados em 2025 e R$ 120 milhões previstos para 2026, com objetivo de alcançar produção em escala de semicondutores de potência em carbeto de silício até o final de 2027. Acessar a Mensagem ao Congresso

Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — Programa Brasil Semicondutores. Apresenta a estratégia federal para desenvolver a cadeia brasileira de chips, ampliando instrumentos de apoio à pesquisa, inovação e produção nacional de componentes eletrônicos. Consultar o Programa Brasil Semicondutores

MDIC — Base Industrial de Semicondutores. Fonte utilizada para contextualizar semicondutores como tecnologia central para a autonomia brasileira e para setores estratégicos como energia, saúde, defesa, agricultura e infraestrutura digital. Consultar a página do MDIC

Departamento de Comércio dos Estados Unidos / NIST — investimento na produção de semicondutores de carbeto de silício. Em julho de 2026, o governo norte-americano anunciou até US$ 225 milhões em financiamento direto para apoiar o investimento de US$ 2 bilhões da Bosch numa fábrica de semicondutores SiC na Califórnia, tecnologia da mesma família em que a Ceitec pretende avançar. Consultar o anúncio do NIST

Comissão Europeia — European Chips Act. A União Europeia mobiliza mais de € 43 bilhões em investimentos orientados por política pública para fortalecer fabricação, pesquisa, design, infraestrutura e formação profissional na cadeia de semicondutores. Consultar a Comissão Europeia

Governo de Taiwan — novos investimentos públicos em semicondutores. Em setembro de 2026, Taiwan anunciou aproximadamente NT$ 300 bilhões, cerca de US$ 9,5 bilhões, em investimentos governamentais até 2033 para infraestrutura de pesquisa, linhas piloto, ferramentas de design e desenvolvimento de novas tecnologias de semicondutores. Consultar o anúncio do governo de Taiwan

Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão — política para inteligência artificial e semicondutores. O governo japonês estabeleceu apoio público superior a 10 trilhões de ienes até 2030 para estimular investimentos em inteligência artificial e chips e reconstruir a capacidade doméstica de produzir semicondutores de nova geração. Consultar o Ministério da Economia do Japão

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