Javier Milei transformou a motosserra no símbolo de um programa econômico baseado em cortes profundos do Estado, equilíbrio fiscal e desregulamentação. No Brasil, Flávio Bolsonaro incorporou ao seu programa a ideia de um “tesouraço”, com novo teto de gastos, redução da estrutura administrativa e retomada de privatizações. A experiência argentina mostra resultados que não podem ser ignorados, especialmente na redução da inflação e no ajuste das contas públicas. Mas também revela uma questão que deveria preocupar o Brasil: estabilizar uma economia comprimindo gasto, renda e demanda pode produzir números melhores sem necessariamente construir as bases de um desenvolvimento duradouro.
A motosserra de Javier Milei talvez seja uma das imagens políticas mais eficientes produzidas pela América Latina nos últimos anos. Ela transformou em objeto uma concepção inteira de política econômica: diante de um Estado considerado excessivamente grande, deficitário e intervencionista, a solução seria cortar. Ministérios, subsídios, empregos públicos, obras, transferências e regulações passaram a ser apresentados como partes de uma estrutura que precisava ser reduzida para que o setor privado voltasse a respirar. Três anos depois, a metáfora atravessou a fronteira. O plano de governo de Flávio Bolsonaro apresentado nas eleições brasileiras de 2026 propõe aquilo que chamou de “tesouraço”, acompanhado da criação de um novo teto de gastos, redução de ministérios e cargos comissionados, reforma administrativa e retomada de um programa de desestatização. As dimensões e os instrumentos não são idênticos aos adotados por Milei, mas existe uma afinidade evidente na premissa de que diminuir o peso do Estado abriria espaço para uma economia mais eficiente e dinâmica.

Flávio Bolsonaro discursa no Congresso Nacional. Seu programa propõe um “tesouraço” nas despesas públicas, além de novo teto de gastos e retomada de privatizações. Foto: Andressa Anholete/Agência Senado, via Wikimedia Commons — imagem sob licença CC BY-SA 4.0.
O argumento possui uma simplicidade sedutora. Se o governo gasta demais, corte. Se possui déficit, diminua despesas. Se uma estrutura pública é ineficiente, elimine-a. Existe, evidentemente, racionalidade em revisar gastos, acabar com privilégios, combater desperdícios e impedir que uma dívida pública cresça indefinidamente. O problema começa quando essa ferramenta se converte numa teoria completa de desenvolvimento, como se uma economia pudesse alcançar maior produtividade, capacidade tecnológica e prosperidade simplesmente retirando do caminho aquilo que pertence ao Estado. A Argentina oferece justamente a oportunidade de observar esse modelo para além da campanha eleitoral: Milei conseguiu resultados macroeconômicos relevantes, mas o país também apresenta sinais claros de que estabilização fiscal e monetária não resolvem automaticamente problemas de emprego, renda, consumo, indústria e capacidade produtiva.
A Argentina conseguiu reduzir a inflação — e isso precisa ser reconhecido
Qualquer crítica séria ao modelo argentino precisa começar por aquilo que efetivamente funcionou. A inflação argentina havia alcançado níveis que destruíam praticamente qualquer capacidade de planejamento econômico. Famílias perdiam poder de compra entre o recebimento do salário e a ida ao supermercado, empresas tinham dificuldade para formar preços e a moeda nacional deixava progressivamente de funcionar como referência de valor. Sob Milei, a inflação mensal caiu de níveis de dois dígitos encontrados no começo do governo para 1,9% em setembro de 2026, segundo o INDEC, enquanto a inflação acumulada em doze meses ficou em 33,4%. Ainda é uma inflação elevada para padrões internacionais, mas a queda em relação ao cenário encontrado pelo governo é inegável.
Também houve uma profunda reorganização fiscal. O governo reduziu despesas, cortou subsídios, diminuiu transferências e restringiu fortemente o investimento público, conseguindo produzir superávits fiscais depois de anos de desequilíbrio. Para um país que financiou repetidamente déficits em um ambiente de baixa credibilidade monetária, restaurar alguma disciplina fiscal era necessário. A inflação elevada também atinge os mais pobres de maneira especialmente cruel, porque trabalhadores que dependem do salário possuem muito menos instrumentos para proteger seu dinheiro de uma rápida perda de valor. Portanto, reconhecer que a estabilização trouxe benefícios não é aderir politicamente a Milei; é apenas evitar que a crítica seja construída negando resultados que efetivamente ocorreram.
O problema aparece quando a discussão termina aí. Inflação baixa é uma condição importante para que uma economia funcione, assim como contas públicas sustentáveis são importantes para evitar crises futuras, mas nenhuma das duas coisas constitui, isoladamente, uma estratégia de desenvolvimento. Um país pode possuir inflação baixa e baixo crescimento; pode apresentar superávit fiscal e infraestrutura deteriorada; pode estabilizar sua moeda enquanto famílias possuem cada vez menos renda disponível. A Argentina de 2026 mostra justamente por que é necessário observar simultaneamente os indicadores macroeconômicos e aquilo que acontece na vida material da população.
Reduzir a demanda ajuda a controlar preços, mas alguém paga por esse ajuste
Parte importante do debate econômico sobre inflação envolve a chamada demanda agregada. Quando famílias, empresas e governo tentam comprar mais bens e serviços do que a capacidade produtiva consegue oferecer, preços podem subir; por isso, políticas monetárias e fiscais contracionistas procuram justamente esfriar a economia. Juros maiores reduzem crédito e financiamento, cortes públicos retiram demanda da economia, desemprego reduz a capacidade de consumo e uma queda da renda real limita as compras das famílias. Esse mecanismo não é uma invenção de Milei: diferentes bancos centrais e governos utilizam políticas semelhantes para combater processos inflacionários. A questão que me parece muito mais importante é perguntar quem suporta o custo dessa desinflação e até que ponto enfraquecer o consumo pode ser considerado uma solução socialmente aceitável.
A inflação argentina não caiu apenas porque as famílias passaram a comprar menos. O ajuste fiscal, o fim de mecanismos de financiamento monetário do déficit, mudanças na política cambial, abertura às importações e outros fatores tiveram papel importante. Ainda assim, a compressão da demanda fez parte do processo, especialmente durante a fase mais dura do ajuste. Isso significa que uma parcela da estabilização ocorreu justamente porque famílias, empresas e governo tiveram menos capacidade de gastar. Do ponto de vista estritamente contábil, isso reduz pressões sobre preços; do ponto de vista social, porém, existe uma enorme diferença entre a demanda diminuir porque a produtividade aumentou e os preços se estabilizaram ou porque uma parcela da população simplesmente perdeu capacidade de consumir.
É nesse aspecto que vejo um limite moral e econômico importante nesse tipo de política. Uma família não reduz voluntariamente o consumo de alimentos, roupas ou lazer porque decidiu colaborar com o combate à inflação. Muitas vezes ela reduz porque perdeu renda, emprego ou acesso ao crédito. Para um investidor com patrimônio acumulado, atravessar um período de contração pode significar adiar determinado investimento ou reorganizar sua carteira; para quem depende do salário do mês, pode significar escolher qual conta ficará sem pagar. Uma política pode ser tecnicamente capaz de produzir desinflação e, ao mesmo tempo, distribuir de maneira profundamente desigual o custo necessário para alcançá-la.
Os dados recentes tornam essa discussão particularmente relevante. A pobreza oficial argentina subiu para 32,3% da população no primeiro semestre de 2026, depois de ter recuado para 28,2% no semestre anterior. O desemprego chegou a 7,9%, e o emprego privado vinha apresentando enfraquecimento. A Reuters encontrou famílias voltando a utilizar clubes de troca e crédito de curto prazo para conseguir adquirir produtos básicos. Esses números não anulam a melhora inflacionária, mas mostram que a estabilidade dos preços e a segurança econômica cotidiana não são necessariamente a mesma coisa.
O problema aparece quando estabilização é confundida com desenvolvimento
A economia argentina passou por uma recuperação depois do choque inicial do governo Milei, o que também precisa ser registrado para evitar uma narrativa artificialmente linear. O PIB voltou a crescer e setores ligados a mineração, energia e agricultura tiveram desempenho importante. Mas essa recuperação mostrou sinais crescentes de perda de força ao longo de 2026. O PIB caiu 0,6% no segundo trimestre em relação aos três meses anteriores, depois de ter crescido 0,7% no primeiro trimestre, e uma pesquisa da Reuters com 32 economistas publicada em outubro apontou que o país provavelmente voltou a entrar em recessão técnica no terceiro trimestre. A previsão mediana de crescimento para 2026 caiu para apenas 1,9%, enquanto o FMI reduziu sua própria projeção de 3,5% para aproximadamente 2,1%.
Ainda mais reveladora é a composição dessa economia. Em julho, a atividade econômica argentina caiu 1,4% em relação ao mesmo mês de 2025, com queda de 5,1% no comércio atacadista, varejista e reparações e retração de 4,6% na indústria de transformação, enquanto mineração e outros setores ligados às commodities apresentaram expansão. A indústria de autopeças também sofreu intensamente com abertura comercial, moeda valorizada e maior concorrência das importações, registrando fechamento de unidades e forte queda de produção em segmentos importantes.
Isso não significa que a Argentina esteja condenada ao fracasso ou que o modelo de Milei não possa produzir uma nova fase de crescimento. Há economistas que argumentam justamente que o custo inicial do ajuste era inevitável e que a disciplina fiscal, a abertura econômica e a melhora do ambiente empresarial permitirão maior investimento no futuro. A OCDE, por exemplo, ainda projetava crescimento argentino apoiado principalmente em energia, mineração e agricultura, embora reconhecesse que o consumo privado permaneceria limitado pela lenta recuperação dos salários e pelos juros elevados. A questão é que, passados alguns anos, a experiência já permite formular uma pergunta mais exigente: se uma economia passa a crescer sobretudo pela expansão de commodities enquanto comércio, consumo e parte da indústria permanecem frágeis, estamos diante de uma transformação produtiva ou apenas de uma estabilização acompanhada por especialização em setores que já possuíam vantagens naturais?
Cortar despesas é diferente de construir capacidade produtiva
Existe uma diferença importante entre política de estabilização e política de desenvolvimento. A primeira procura evitar que determinadas variáveis saiam de controle: dívida, inflação, déficit, câmbio. A segunda precisa responder a perguntas muito mais difíceis: como elevar produtividade? Como formar trabalhadores mais qualificados? Como ampliar infraestrutura? Como criar novas empresas tecnológicas? Como financiar pesquisa? Como desenvolver setores industriais capazes de competir internacionalmente? Nenhuma dessas tarefas é automaticamente resolvida porque o déficit diminuiu.
É justamente aí que considero limitada a ideia da motosserra — ou de seu equivalente brasileiro, o tesouraço — como filosofia econômica. Cortar oferece um resultado facilmente observável: uma despesa desapareceu, um ministério fechou, um número de servidores diminuiu e o déficit foi reduzido. Construir capacidade produtiva é muito mais demorado. Uma ferrovia leva anos até começar a reduzir custos logísticos; uma universidade pode formar pesquisadores que só produzirão tecnologias décadas depois; uma política industrial pode exigir experimentação e cometer erros antes de criar um setor competitivo. O retorno do investimento público frequentemente aparece muito depois do momento em que o dinheiro saiu do orçamento, e isso cria uma enorme tentação política de considerar o corte imediatamente virtuoso e o investimento imediatamente suspeito.
A experiência brasileira deveria tornar essa cautela ainda maior. O país não parte de um Estado que investe abundantemente em infraestrutura. Segundo o Observatório de Política Fiscal da FGV IBRE, o investimento público brasileiro representou 2,71% do PIB em 2025, depois de 3,05% em 2024, e o investimento público líquido — descontada a depreciação do capital existente — ficou em apenas 0,37% do PIB. A própria FGV considera o nível de investimento ainda muito baixo.
O Banco Mundial chega a uma conclusão semelhante ao analisar a infraestrutura brasileira. A instituição afirma que anos de investimento insuficiente deterioraram o estoque de infraestrutura e limitaram produtividade e competitividade, defendendo aumento do investimento público acompanhado de melhor planejamento e maior participação privada. Em outro estudo sobre a experiência histórica brasileira, pesquisadores do Banco Mundial encontraram ganhos expressivos de produtividade em municípios beneficiados por eletrificação e rodovias, incluindo efeitos particularmente elevados sobre a produtividade industrial.
Esse contexto muda completamente a pergunta sobre austeridade no Brasil. Não se trata de defender cada gasto público existente, e sim de reconhecer que cortar uma despesa ineficiente e cortar uma obra, um laboratório ou uma política de inovação são operações contabilmente semelhantes e economicamente muito diferentes.
O Brasil não é a Argentina e não enfrenta a mesma emergência econômica
Esse talvez seja o ponto central da comparação. Políticas econômicas precisam responder à doença que se pretende tratar. Milei assumiu uma Argentina que convivia com inflação anual de três dígitos, enormes distorções cambiais, baixíssima credibilidade monetária e uma longa sequência de desequilíbrios fiscais. O Brasil possui problemas fiscais importantes, dívida elevada e crescimento de produtividade insuficiente, mas não enfrenta a mesma estrutura de crise. O próprio Banco Mundial, em atualização publicada em outubro de 2026, considera o desequilíbrio fiscal brasileiro um desafio central e defende ajuste para melhorar a dinâmica da dívida e reduzir o custo de capital, ao mesmo tempo em que afirma que o país precisa ampliar investimentos em infraestrutura, inovação, educação e produtividade.
Essa combinação é fundamental. Responsabilidade fiscal e investimento público não são conceitos necessariamente opostos. Um Estado pode organizar suas despesas, eliminar subsídios ineficientes, reformar estruturas administrativas e controlar o crescimento da dívida enquanto preserva ou amplia investimentos capazes de aumentar a capacidade produtiva futura. Na verdade, uma estratégia de desenvolvimento precisa justamente separar gasto corrente improdutivo de investimento econômico e social. Aplicar um corte uniforme em nome da redução do tamanho do Estado corre o risco de tratar como equivalentes duas despesas que possuem efeitos completamente diferentes sobre o futuro.
O Brasil também possui uma estrutura econômica mais diversificada e uma escala muito maior. Como discutimos anteriormente neste blog, existe aqui uma das maiores bases industriais do mundo, uma grande estrutura científica e universitária, produção aeronáutica, petróleo em águas profundas, agronegócio altamente tecnológico, indústria automobilística, siderurgia, química, farmacêutica e um mercado interno superior a 200 milhões de pessoas. Uma estratégia de desenvolvimento brasileiro precisa pensar em logística, energia, inovação, semicondutores, inteligência artificial, defesa, indústria de saúde, biotecnologia e transição energética. A discussão fiscal precisa existir dentro dessa estratégia, não substituí-la.
Há uma contradição dentro da própria promessa do tesouraço
O programa de Flávio Bolsonaro propõe um “tesouraço” nas despesas públicas, um novo teto de gastos, redução de ministérios e cargos e retomada de privatizações. Ao mesmo tempo, sua campanha também promete preservar benefícios sociais e realizar investimentos importantes. A dificuldade aparece quando se pergunta de onde virão os recursos e exatamente quais despesas serão cortadas. Reportagens recentes apontaram divergências inclusive dentro da própria equipe econômica sobre a intensidade do ajuste, que poderia chegar a algo próximo de 2% do PIB, enquanto a campanha reafirma compromissos com benefícios sociais, saúde, educação e outros gastos.
Não há contradição em querer gastar melhor. O problema é que expressões como “tesouraço” escondem a parte mais difícil da política fiscal: qual linha orçamentária será efetivamente atingida? Dizer que serão cortados desperdícios é fácil, porque praticamente nenhum grupo político defende publicamente desperdício. A questão surge quando o ajuste encontra aposentadorias, investimentos, transferências, universidades, obras, salários, saúde, educação, subsídios e benefícios concretos. Foi exatamente isso que ocorreu na Argentina: a austeridade deixou de ser uma metáfora e passou a atingir despesas identificáveis, produzindo tanto melhora fiscal quanto efeitos econômicos e sociais que hoje podem ser medidos.
O mesmo vale para privatizações e parcerias com a iniciativa privada. Elas podem aumentar eficiência e liberar recursos públicos quando bem estruturadas, e o Brasil deveria utilizar capital privado em infraestrutura sempre que isso gerar melhores resultados. Mas há projetos cujo retorno financeiro privado é insuficiente apesar de seu elevado retorno social. Uma ferrovia que integra uma região pobre, um laboratório de pesquisa básica ou uma infraestrutura tecnológica estratégica pode não oferecer retorno imediato atraente para um investidor e, mesmo assim, produzir enorme benefício para o país. O mercado é excelente em financiar atividades capazes de remunerar o capital; não possui como função natural financiar todos os investimentos socialmente desejáveis.
O consumo também faz parte da engrenagem produtiva
Outro aspecto do modelo de austeridade que considero subestimado é o papel do consumo das famílias. Na discussão pública, consumo às vezes aparece quase como uma frivolidade ou como simples fonte de pressão inflacionária, quando na realidade ele representa demanda para empresas, comércio e serviços. Uma fábrica amplia produção porque espera vender seus produtos; uma loja contrata trabalhadores porque possui clientes; um pequeno empresário compra uma nova máquina porque acredita que haverá demanda suficiente para justificar a expansão.
Isso não significa defender consumo artificialmente sustentado por déficits eternos ou crédito insustentável. Significa reconhecer que uma economia possui circuitos de renda. O salário pago por uma empresa se transforma em compra realizada em outra, que se transforma em receita, investimento e novo emprego. Quando uma política contracionista reduz simultaneamente consumo privado, investimento público e crédito, ela pode produzir uma desaceleração maior do que inicialmente esperado, especialmente se o investimento privado não surgir rapidamente para ocupar esse espaço.
É precisamente por isso que considero socialmente problemático tratar a compressão do consumo como efeito colateral quase irrelevante de uma política anti-inflacionária. Reduzir demanda pode ser necessário em determinados momentos, mas existem maneiras diferentes de distribuir esse esforço. Uma política que depende fortemente da perda de renda e de emprego transfere parcela significativa do custo para aqueles que possuem menor capacidade de absorvê-lo. Combater inflação é necessário, mas o método importa tanto quanto o resultado.
A lição argentina é mais complexa do que vencedores e derrotados admitem
A experiência de Milei oferece ensinamentos inconvenientes para diferentes campos ideológicos. Para uma parte da esquerda, mostra que inflação elevada e desequilíbrio fiscal não podem ser tratados como problemas menores que desaparecerão sozinhos. Um país incapaz de estabilizar sua moeda pune diariamente trabalhadores e famílias de baixa renda. Milei conseguiu interromper uma dinâmica inflacionária gravíssima e melhorar substancialmente o resultado fiscal; qualquer avaliação que ignore isso estará analisando uma Argentina imaginária.
Para os defensores da motosserra, porém, a experiência oferece uma advertência igualmente importante: resolver inflação e déficit não significa automaticamente criar uma economia capaz de produzir emprego, indústria, consumo e desenvolvimento sustentável. A pobreza argentina voltou a crescer em 2026, o desemprego chegou a 7,9%, comércio e manufatura apresentaram fraqueza, o PIB recuou no segundo trimestre e economistas consultados pela Reuters consideram provável que o país tenha voltado a uma recessão técnica no terceiro. O FMI também acaba de reduzir significativamente sua projeção de crescimento para este ano.
Talvez a verdadeira lição seja que estabilidade e desenvolvimento precisam caminhar juntos. Um país não consegue se desenvolver sustentavelmente com inflação explosiva e dívida fora de controle, mas também não se desenvolve apenas por reduzir despesas. Precisa investir, produzir, inovar, formar trabalhadores, ampliar produtividade e criar demanda suficiente para que empresas tenham razão econômica para expandir sua capacidade.
O Brasil precisa de uma estratégia, não de uma ferramenta transformada em ideologia
Há gastos públicos que precisam ser cortados. Há benefícios tributários que deveriam ser revistos, estruturas administrativas que podem ser simplificadas e políticas públicas que consomem recursos sem produzir retorno proporcional. Responsabilidade fiscal não deveria ser propriedade ideológica da direita, assim como investimento público não deveria ser tratado como sinônimo de irresponsabilidade pela esquerda. Uma economia desenvolvida precisa das duas coisas: capacidade de controlar suas contas e capacidade de investir no futuro.
O que considero limitado é transformar o corte em projeto econômico. A motosserra é uma ferramenta, assim como a tesoura. Nenhum marceneiro definiria seu projeto dizendo apenas quais instrumentos pretende usar; primeiro decidiria aquilo que deseja construir. Uma política econômica deveria seguir a mesma lógica. Antes de anunciar quanto será cortado, deveríamos perguntar qual infraestrutura o país precisa, quais setores tecnológicos deseja desenvolver, qual nível de produtividade pretende alcançar e quais serviços públicos considera indispensáveis. Somente depois disso faz sentido reorganizar o orçamento para financiar essas prioridades de maneira sustentável.
Para o Brasil, essa discussão é ainda mais urgente porque possuímos ativos que a Argentina simplesmente não possui na mesma escala: enorme mercado interno, grande base industrial, matriz energética diversificada, petróleo, agricultura, universidades, empresas tecnológicas e capacidade de atuar em setores sofisticados. Isso não significa que o Estado brasileiro deva crescer indefinidamente ou administrar cada atividade econômica. Significa que desperdiçar essa escala em nome de uma concepção segundo a qual o desenvolvimento surgirá espontaneamente depois que o Estado recuar seria uma aposta extraordinariamente arriscada.
Talvez a metáfora econômica adequada para o Brasil não seja a motosserra nem o tesouraço, mas algo muito menos cinematográfico: planejamento. Identificar desperdícios e cortá-los, preservar aquilo que funciona, reformar aquilo que funciona mal e direcionar recursos para infraestrutura, educação, ciência, tecnologia e capacidade produtiva. O setor privado precisa estar no centro desse processo porque é responsável pela maior parte da produção e do investimento da economia, mas o Estado também possui papel na construção das condições que tornam esse investimento possível.
A Argentina mostrou que uma política radical de austeridade pode contribuir para controlar uma crise inflacionária e restaurar equilíbrio fiscal. Também começa a mostrar os limites de imaginar que essas conquistas sejam suficientes para resolver o problema do desenvolvimento. Quando consumo, emprego, indústria e investimento continuam frágeis, o país descobre que cortar foi apenas uma etapa e que a pergunta seguinte é muito mais difícil.
É exatamente essa pergunta que deveria anteceder qualquer “tesouraço” brasileiro: depois que terminarmos de cortar, o que pretendemos construir?
Porque equilíbrio fiscal pode criar espaço para o desenvolvimento.
Mas espaço vazio, sozinho, não constrói nada.
FONTES
Tribunal Superior Eleitoral — propostas de governo do segundo turno de 2026. Reúne os programas oficiais registrados pelas candidaturas de Flávio Bolsonaro e Lula. Consultar os programas no TSE
Folha de S.Paulo — plano de Flávio Bolsonaro e o “tesouraço”. Detalha propostas como novo teto de gastos, redução de ministérios e cargos, reforma administrativa e retomada de desestatizações. Acessar a reportagem
INDEC — inflação argentina. O índice oficial registrou inflação mensal de 1,9% em setembro de 2026. Consultar os dados do INDEC
Reuters — pobreza e mercado de trabalho na Argentina. A pobreza chegou a 32,3% no primeiro semestre de 2026 e o desemprego a 7,9%. Acessar a reportagem
Reuters — perspectivas da economia argentina. Pesquisa com economistas aponta provável recessão técnica em 2026 e crescimento mais fraco do que anteriormente esperado. Acessar a reportagem reproduzida pelo UOL
FMI — Perspectivas Econômicas de outubro de 2026. O Fundo reduziu sua previsão de crescimento da Argentina para cerca de 2,1% em 2026. Consultar a análise da Reuters sobre a revisão do FMI
FGV IBRE — investimentos públicos no Brasil entre 1947 e 2025. A série mostra investimento público equivalente a 2,71% do PIB em 2025 e investimento líquido de 0,37%. Consultar a série histórica
Banco Mundial — Avaliação da Infraestrutura no Brasil. O estudo relaciona a insuficiência de investimentos em infraestrutura a limitações de produtividade e competitividade e defende ampliar investimento público acompanhado de maior eficiência e participação privada. Acessar o estudo do Banco Mundial
Banco Mundial — infraestrutura e produtividade no Brasil. Pesquisa encontra efeitos importantes de eletrificação e rodovias sobre produtividade e transformação estrutural dos municípios brasileiros. Acessar a análise



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