A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou por 164 votos a 1 uma resolução que incentiva o uso de mapas capazes de representar melhor o tamanho relativo dos continentes. A mudança favorece projeções como a Equal Earth e reduz uma distorção que, durante séculos, fez África, América do Sul e outras regiões próximas ao Equador parecerem menores diante de Europa e América do Norte. A discussão parece cartográfica, mas rapidamente entrou no terreno da geopolítica: afinal, um mapa apenas representa o mundo — ou também influencia a maneira como aprendemos quem é grande, quem é central e quem ocupa as margens?
Durante gerações, milhões de estudantes aprenderam a reconhecer o planeta por uma imagem bastante específica: América do Norte no canto superior esquerdo, Europa e África no centro, Ásia ocupando grande parte do lado direito e uma enorme Groenlândia próxima ao topo. Esse desenho parece tão familiar que dificilmente paramos para questioná-lo. Mas existe um problema fundamental: a Terra não possui aquela forma e os continentes não possuem aquelas proporções. O mapa é resultado da projeção de Mercator, criada em 1569 para resolver um problema de navegação marítima e que, séculos depois, acabou se transformando em uma das representações mais conhecidas do planeta.
Na sexta-feira, 4 de setembro, essa antiga escolha cartográfica ganhou dimensão diplomática. A Assembleia Geral da ONU aprovou a resolução “Correct the Map” — “Corrija o Mapa”, apresentada pelo Togo em nome do grupo de países africanos e apoiada pela União Africana. Foram 164 votos favoráveis, apenas um contrário — o dos Estados Unidos — e seis abstenções, de Estônia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia. O texto incentiva governos, instituições internacionais, escolas e empresas de tecnologia a utilizar projeções de área equivalente, especialmente a Equal Earth, quando a comparação entre o tamanho de diferentes regiões do planeta for importante.
A resolução não proíbe a projeção de Mercator, não obriga países a retirar mapas das salas de aula e tampouco cria uma única representação oficial obrigatória para toda a humanidade. Trata-se de uma recomendação política, sem caráter vinculante. Mesmo assim, o resultado da votação transformou uma discussão aparentemente técnica em um debate sobre educação, colonialismo, percepção de poder e a maneira como o próprio mapa do mundo pode carregar escolhas políticas.
O primeiro problema: transformar uma esfera em uma folha de papel é impossível sem distorcer alguma coisa
Antes de discutir política, é necessário entender a geometria.
Nenhum mapa plano consegue reproduzir perfeitamente a superfície de um planeta esférico. Para colocar a Terra em uma folha retangular, o cartógrafo precisa necessariamente sacrificar alguma característica: área, forma, distância, direção ou uma combinação delas. Não existe uma projeção universalmente “correta”; existem projeções mais adequadas para diferentes finalidades.
Gerardus Mercator desenvolveu sua famosa projeção no século XVI pensando principalmente em marinheiros. Seu grande mérito é preservar localmente ângulos e direções. Uma rota de rumo constante pode ser representada como uma linha reta, característica extremamente útil para navegar com bússola. Para um navegador europeu atravessando o Atlântico há séculos, isso era muito mais importante do que representar perfeitamente a área da Groenlândia.
O preço dessa vantagem aparece conforme nos afastamos do Equador. Na projeção de Mercator, as regiões próximas aos polos precisam ser progressivamente ampliadas para manter as propriedades geométricas necessárias à navegação. Por isso, Groenlândia parece quase comparável à África em muitos mapas, embora o continente africano possua aproximadamente 14 vezes sua área. Europa, Canadá e Rússia também ganham uma presença visual muito maior, enquanto África, América do Sul e regiões tropicais da Ásia parecem proporcionalmente menores.
Isso não significa que Mercator tenha deliberadamente desenhado seu mapa para diminuir a África ou engrandecer a Europa. A projeção surgiu como uma solução matemática para navegação e cumpriu extraordinariamente bem essa função. A discussão começa quando um mapa especializado passa a ser utilizado como se fosse uma fotografia neutra das proporções do mundo.
Durante séculos, ele apareceu em escolas, escritórios, jornais, instituições e, mais recentemente, plataformas digitais. A técnica de navegação acabou se tornando também uma imagem cultural do planeta.
E é nesse ponto que cartografia e geopolítica começam a se encontrar.
Um mapa não muda o tamanho de um país — mas pode mudar a maneira como imaginamos seu tamanho
Nenhum governo africano ganhará um quilômetro quadrado de território porque uma escola trocar Mercator por Equal Earth. A economia da Europa não diminuirá porque o continente aparecer menor no papel. Estados Unidos e Canadá continuarão exatamente com a mesma área.
O efeito discutido pela iniciativa africana é mais sutil: a construção da percepção.
Mapas estão entre as primeiras ferramentas que utilizamos para compreender a posição dos países no mundo. Antes de conhecermos PIB, população, recursos naturais ou capacidade militar, aprendemos visualmente que algumas regiões parecem gigantescas e outras parecem menores. Durante anos de exposição, essa representação acaba fazendo parte de nosso mapa mental do planeta.
Na justificativa apresentada à Assembleia Geral, os defensores da resolução afirmaram que essa distorção pode afetar educação, cultura, percepção geopolítica e a maneira como a importância relativa das diferentes regiões é imaginada. O ministro das Relações Exteriores do Togo, Robert Dussey, argumentou que corrigir o mapa não significa apenas corrigir uma representação geométrica, mas também corrigir uma percepção construída durante séculos.
É importante separar essa afirmação de algo que a ciência dificilmente permitiria provar de maneira simples. Não existe uma relação direta pela qual um continente recebe menos investimento estrangeiro porque parece pequeno em um mapa escolar, ou um país automaticamente adquire maior influência diplomática quando sua área é representada corretamente. Geopolítica não funciona dessa maneira.
Mas símbolos importam.
Quem aparece no centro de um mapa, qual região parece maior, quais nomes são utilizados para territórios e como fronteiras são desenhadas são escolhas capazes de transmitir uma visão específica do mundo. Durante períodos coloniais, mapas foram instrumentos de administração, conquista, demarcação e representação de impérios. Mesmo hoje, basta observar mapas produzidos por países que disputam uma fronteira para perceber que cartografia nunca é completamente separada da política.
A própria votação na ONU acabou demonstrando isso.
O debate sobre um desenho da Terra rapidamente virou uma disputa sobre colonialismo
A iniciativa foi liderada por países africanos e apresentada explicitamente dentro de um movimento de revisão de heranças históricas do colonialismo. A União Africana argumenta que representações desproporcionais diminuíram visualmente o continente durante séculos e que adotar mapas de área equivalente seria uma forma de promover uma representação geográfica mais justa.
A crítica possui uma força visual evidente. África tem aproximadamente 30 milhões de quilômetros quadrados e poderia comportar em seu território os Estados Unidos continentais, China, Índia e vários países europeus. Mesmo assim, no Mercator, sua dimensão relativa diante do extremo norte do planeta é drasticamente reduzida.
A nova projeção defendida pela resolução, Equal Earth, foi apresentada em 2018 pelos cartógrafos Bojan Šavrič, Tom Patterson e Bernhard Jenny. Ela pertence à categoria das projeções de área equivalente: um território que ocupa determinada proporção da superfície terrestre mantém aquela mesma proporção no mapa. Isso permite comparar áreas sem a ampliação crescente das regiões próximas aos polos produzida pelo Mercator.
A escolha da Equal Earth também não é acidental. Outras projeções de área equivalente já existiam, mas algumas deformam bastante o formato visual dos continentes. Seus criadores tentaram combinar proporcionalidade de área com uma aparência que permanecesse reconhecível para quem está acostumado a mapas tradicionais. A projeção é inspirada visualmente na Robinson, mas, diferentemente dela, preserva rigorosamente as proporções de área.
Para os governos africanos que lideraram a campanha, portanto, a mudança possui dois componentes simultâneos: precisão cartográfica e representação simbólica.
É exatamente essa segunda dimensão que transformou o assunto em controvérsia internacional.
Os Estados Unidos foram o único país a votar contra — e a divergência não foi sobre matemática
Washington não contestou que Mercator distorce áreas. A representante americana Yaryna Ferencevych argumentou que a resolução fazia parte de um projeto ideológico mais amplo relacionado a reparações e à chamada “justiça cognitiva”. Na posição apresentada antes da votação, os Estados Unidos afirmaram que a ONU deveria concentrar seus esforços em problemas mais urgentes de paz, prosperidade e relações internacionais, em vez de produzir uma resolução sobre representações cartográficas do século XVI.
Essa reação mostra como o debate ultrapassou rapidamente aquilo que poderia ser resolvido com uma aula de geometria. Para os patrocinadores africanos, o mapa é parte de uma discussão maior sobre como estruturas produzidas durante períodos de domínio europeu continuam influenciando a maneira como o mundo é representado. Para Washington, vincular uma alteração cartográfica a conceitos de reparação histórica transforma uma questão técnica em uma agenda ideológica desnecessária.
As duas posições ajudam a explicar por que uma votação sobre projeções cartográficas terminou adquirindo significado diplomático.
Há ainda um movimento geopolítico mais amplo acontecendo simultaneamente. Países africanos vêm reivindicando maior representação em instituições multilaterais, mais peso nas decisões financeiras internacionais e reformas no Conselho de Segurança da própria ONU. O continente possui 54 Estados-membros das Nações Unidas, uma parcela enorme da Assembleia Geral, além de uma população que deverá representar uma proporção crescente da humanidade nas próximas décadas.
Nesse contexto, exigir que a África apareça em sua proporção correta no mapa possui um evidente valor simbólico: um continente que reivindica mais espaço nas instituições internacionais começa reivindicando também o espaço que já possui fisicamente no planeta.
Isso não torna a projeção Equal Earth uma ferramenta “africana” ou politicamente partidária. Matemáticamente, sua propriedade de preservar áreas funciona exatamente da mesma maneira para África, Brasil, Canadá, Rússia ou qualquer outro território. Mas explica por que foram governos africanos que transformaram uma questão cartográfica antiga em uma pauta diplomática global.
Até as abstenções mostraram que um mapa pode virar problema de soberania
Um dos detalhes mais interessantes da votação ocorreu com a Ucrânia.
Kiev afirmou que não se opunha ao princípio central da resolução, mas apresentou objeção à representação de territórios ucranianos temporariamente ocupados pela Rússia na versão da Equal Earth mencionada durante a discussão. Segundo a delegação ucraniana, a forma como algumas dessas áreas apareciam era incompatível com as resoluções da própria Assembleia Geral que rejeitam a anexação russa da Crimeia. A Ucrânia, por isso, se absteve.
A União Europeia fez questão de registrar uma interpretação importante: o objetivo da resolução se limita a educação, conscientização e alfabetização geográfica e não altera soberania, fronteiras, status territorial ou delimitações internacionalmente reconhecidas.
O episódio é quase uma demonstração perfeita de por que mapas são politicamente sensíveis. A fórmula matemática utilizada para projetar uma esfera pode ser neutra, mas alguém ainda precisa decidir qual fronteira desenhar, qual nome escrever e qual território atribuir a qual Estado.
A projeção responde “como transformar coordenadas do globo em pontos numa superfície plana”. Ela não responde quem é soberano sobre a Crimeia, Taiwan, Caxemira, Saara Ocidental ou qualquer outra região disputada.
Essa parte continuará sendo política.
Para a América do Sul, a mudança também é muito mais visível do que parece
Embora a campanha tenha colocado a África no centro da discussão, a América do Sul também é uma das regiões visualmente diminuídas pelo Mercator quando comparada às áreas localizadas em latitudes mais altas.
Isso significa que o Brasil apareceria dentro de uma relação de tamanhos muito mais intuitiva em uma projeção de área equivalente. O território brasileiro não fica maior; são principalmente algumas regiões do Norte que deixam de receber a ampliação artificial produzida pela projeção de Mercator.
A mudança também pode alterar algumas comparações que parecem naturais apenas porque nos acostumamos com determinado mapa. A América do Sul possui área significativamente superior à Europa, algo que uma projeção equivalente deixa muito mais evidente. Regiões tropicais da Ásia e ilhas próximas ao Equador também recuperam proporcionalmente a presença visual que possuem sobre a superfície terrestre.
Para o ensino de geografia, essa diferença pode ser útil porque permite discutir uma ideia frequentemente esquecida: um mapa não é o território.
Ele é uma ferramenta matemática construída para responder determinadas perguntas.
Se a pergunta for “qual rumo um navio deveria seguir?”, Mercator continua extremamente útil.
Se a pergunta for “qual continente possui mais área?”, uma projeção de área equivalente é claramente mais apropriada.
Talvez uma das melhores consequências educacionais da decisão da ONU, portanto, nem seja substituir um mapa por outro. Pode ser fazer com que estudantes finalmente aprendam por que existem diferentes mapas.
Google Maps vai mudar? Não necessariamente
Uma das consequências mais discutidas da resolução envolve empresas de tecnologia.
O texto incentiva também plataformas digitais a considerar projeções mais adequadas, mas isso não significa que aplicativos de mapas deixarão imediatamente de utilizar sistemas derivados de Mercator. Serviços digitais possuem necessidades diferentes das de um mapa-múndi escolar. Para navegação, zoom, divisão da superfície em blocos e visualização de ruas, projeções baseadas em Mercator continuam oferecendo vantagens técnicas.
A resolução é especificamente mais relevante quando o objetivo é comparar o tamanho relativo das regiões do mundo, e não quando uma pessoa está tentando encontrar o caminho de casa até um restaurante.
Essa distinção é essencial. O resultado da ONU não representa uma derrota matemática do Mercator. Representa uma crítica ao seu uso fora do contexto para o qual suas características são apropriadas.
Uma plataforma pode perfeitamente utilizar uma projeção para navegação local e outra para apresentar uma visão completa do planeta. Da mesma maneira, um atlas pode apresentar Equal Earth em sua abertura e utilizar projeções regionais diferentes nas páginas seguintes.
Não precisa existir um único mapa para todas as situações.
Então a ONU “mudou o mapa-múndi”?
Não exatamente.
A manchete é atraente, mas simplifica demais o que aconteceu.
A ONU não possui autoridade para determinar qual projeção toda escola, empresa, jornal ou cidadão precisa utilizar. A resolução aprovada é não vinculante e não aposenta legalmente Mercator. O que ocorreu foi uma manifestação política extremamente ampla — 164 países — em favor de representações que preservem melhor as proporções territoriais quando essa comparação for relevante.
Isso pode, entretanto, produzir consequências concretas ao longo do tempo. Togo já pretende atualizar seus materiais escolares, e a campanha africana planeja pressionar instituições internacionais, governos e empresas de tecnologia a reconsiderar quais projeções utilizam. Se grandes sistemas educacionais e plataformas adotarem Equal Earth ou outras projeções equivalentes em visualizações globais, uma geração de crianças poderá crescer vendo um planeta visualmente diferente daquele aprendido por seus pais.
E talvez seja justamente aí que esteja a verdadeira importância da decisão.
A geografia física não mudou na sexta-feira. África continua com a mesma extensão. Europa não perdeu território. Groenlândia não encolheu. O Brasil continua exatamente onde sempre esteve.
O que pode mudar é a imagem que carregamos dessas proporções.
Durante séculos, uma projeção extremamente eficiente para orientar navios acabou ensinando gerações a visualizar o planeta com algumas regiões muito maiores do que realmente são. Isso não transforma Mercator em uma conspiração colonial e tampouco faz da Equal Earth uma representação perfeita — qualquer mapa plano continuará distorcendo alguma característica da Terra.
Mas a discussão levantada pela ONU expõe algo que raramente percebemos porque está literalmente diante de nossos olhos: até a maneira mais básica de desenhar o mundo envolve escolhas.
Escolhemos o centro. Escolhemos o topo. Escolhemos a projeção. Escolhemos os nomes e desenhamos as fronteiras.
Durante muito tempo, essas decisões pareceram naturais porque nos acostumamos com elas.
Agora, 164 países decidiram dizer que pelo menos uma dessas escolhas merece ser revista.
E talvez a consequência mais interessante do novo mapa não seja fazer a África parecer maior.
É perceber que ela nunca foi pequena. O mapa é que nos ensinou a enxergá-la assim.
Fontes
Organização das Nações Unidas — Assembleia Geral
Registro oficial da sessão de 4 de setembro de 2026 e da resolução “Correct the Map”, incluindo resultado da votação e posicionamentos apresentados por Togo, Estados Unidos, Ucrânia e União Europeia. (Jacaranda FM)
Reuters — UN approves resolution in support of map that shows Africa’s true size
Cobertura da votação, da campanha liderada pelo Togo e pela União Africana e das possíveis consequências educacionais e tecnológicas da resolução. (Reuters)
Equal Earth / International Journal of Geographical Information Science
Artigo original de Bojan Šavrič, Tom Patterson e Bernhard Jenny descrevendo a projeção Equal Earth e sua propriedade de preservar as áreas relativas dos territórios. (Taylor & Francis Online)
Agência Brasil — Novo mapa-múndi corrige tamanho da África, América do Sul e Ásia
Cobertura brasileira da decisão e dos argumentos apresentados pela União Africana sobre educação, percepção e representação internacional. (Agência Brasil)




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