Saturno já era conhecido por abrigar um gigantesco hexágono atmosférico em seu polo norte. Agora, observações do telescópio Hubble revelaram algo igualmente estranho no outro extremo do planeta: uma onda atmosférica de dez lados circundando o polo sul. A estrutura parece ter se formado recentemente, atravessa diferentes camadas da atmosfera e está se tornando mais evidente — e os cientistas ainda não sabem por que ela surgiu justamente agora.
Saturno acaba de ganhar mais um capítulo em uma das histórias meteorológicas mais estranhas do Sistema Solar. Astrônomos identificaram uma gigantesca estrutura atmosférica de dez lados, semelhante a um decágono, envolvendo o polo sul do planeta. A descoberta foi anunciada pela NASA e pela Agência Espacial Europeia nesta semana e é especialmente intrigante porque não se trata simplesmente de uma nova fotografia mostrando algo que sempre esteve ali: ao analisar vários anos de observações do Telescópio Espacial Hubble, os pesquisadores encontraram sinais de que o padrão começou a surgir recentemente e está se tornando progressivamente mais definido. É a primeira vez que uma grande estrutura atmosférica com lados regulares é observada no hemisfério sul de Saturno.
A descoberta imediatamente lembra uma das características mais famosas do planeta: o gigantesco hexágono do polo norte de Saturno, observado há mais de quatro décadas e posteriormente estudado em detalhes pela missão Cassini. Mas agora existe algo diferente no extremo oposto. Em vez de seis lados, o Hubble identificou uma onda com dez lados, localizada dentro de uma das poderosas correntes de jato que circulam a atmosfera do gigante gasoso. Apesar da semelhança visual, os pesquisadores ainda não sabem se os dois fenômenos são produzidos exatamente pelos mesmos mecanismos. O novo decágono pode oferecer justamente a oportunidade que os cientistas nunca tiveram com o hexágono do norte: acompanhar praticamente desde o início o desenvolvimento de uma gigantesca estrutura atmosférica poligonal.
Saturno não criou uma figura geométrica sólida nas nuvens
Quando uma imagem mostra um hexágono ou um decágono em Saturno, pode parecer que existem enormes paredes de nuvens formando lados perfeitamente delimitados. Na realidade, o fenômeno é muito mais interessante. Saturno é um gigante gasoso, dominado por uma atmosfera extremamente dinâmica e atravessada por correntes de jato que se deslocam em diferentes direções e velocidades. O que assume a forma geométrica não é uma estrutura sólida, mas uma onda atmosférica inserida em uma dessas correntes.
É possível pensar em algo semelhante às ondulações que surgem quando diferentes fluxos de um líquido interagem. Em determinadas condições de velocidade, rotação e estabilidade, o movimento de um fluido pode deixar de formar um círculo uniforme e desenvolver ondas relativamente regulares. No caso de Saturno, essas ondas podem alcançar dimensões planetárias e permanecer organizadas durante períodos surpreendentemente longos. O famoso hexágono do polo norte é o exemplo extremo disso: mesmo com toda a turbulência existente na atmosfera saturniana, a estrutura continua sendo observada há mais de 40 anos.
O novo decágono, entretanto, parece contar uma história diferente. A estrutura está centrada aproximadamente em 63 graus de latitude sul e aparece em diferentes comprimentos de onda registrados pelo Hubble. Mais importante ainda, sua posição aparente muda ligeiramente dependendo do comprimento de onda utilizado. Como diferentes frequências da luz permitem observar diferentes altitudes da atmosfera, os pesquisadores concluíram que o fenômeno não está limitado apenas às nuvens que enxergamos na parte superior do planeta: a estrutura atravessa múltiplas camadas da atmosfera de Saturno.
O mais estranho é que o decágono parece ser novo
Talvez essa seja a parte mais importante da descoberta. Astrônomos procuram há décadas no hemisfério sul algo comparável ao hexágono existente no norte. O Hubble observa Saturno desde os anos 1990, enquanto a Cassini permaneceu no sistema do planeta entre 2004 e 2017, produzindo algumas das imagens mais detalhadas já feitas de seus polos. Mesmo assim, não havia sido encontrada uma estrutura duradoura de dez lados semelhante à que apareceu agora.
Os primeiros indícios começaram a surgir em observações terrestres. Em 2024, o pesquisador Agustín Sánchez-Lavega, da Universidade do País Basco, juntamente com os astrônomos amadores Trevor Barry e Jean-Paul Oger, percebeu uma faixa sutilmente ondulada próxima ao polo sul em imagens reunidas pelo Planetary Virtual Observatory Laboratory. Novas fotografias realizadas em 2025 reforçaram a suspeita de que ali existia algo incomum. A equipe então voltou aos registros do Hubble e encontrou sinais ainda mais discretos da estrutura em imagens de 2023.
Isso significa que os cientistas possuem algo semelhante a uma pequena sequência histórica do nascimento do fenômeno. Em 2023, havia sinais discretos. Nos anos seguintes, a forma se tornou mais evidente até revelar o padrão de dez lados observado atualmente. Amy Simon, pesquisadora do Goddard Space Flight Center da NASA e uma das autoras do estudo, destacou justamente essa diferença: enquanto o hexágono do polo norte esteve presente sempre que os cientistas conseguiram observá-lo durante mais de quatro décadas, o novo padrão do sul parece estar se fortalecendo.
É uma oportunidade científica rara. Normalmente, quando uma grande estrutura planetária é descoberta, ninguém sabe exatamente quando ela começou. No caso desse decágono, pode ser possível acompanhar seu desenvolvimento, observar durante quanto tempo permanecerá estável e eventualmente assistir ao seu desaparecimento.
Por que exatamente dez lados?
Por enquanto, ninguém sabe — e essa é justamente uma das perguntas mais interessantes abertas pela descoberta.
O número de lados provavelmente está relacionado às propriedades da corrente de jato onde a onda surgiu: sua velocidade, largura, diferenças de temperatura, rotação do planeta e interação com outras camadas da atmosfera podem determinar quais padrões conseguem permanecer estáveis. Experimentos com fluidos em rotação realizados em laboratórios já demonstraram que movimentos desse tipo podem espontaneamente produzir formas poligonais, mas a atmosfera real de Saturno é infinitamente mais complexa.
O fato de existir um hexágono no norte e agora um decágono no sul também não significa necessariamente que Saturno possua algum tipo de simetria matemática perfeita entre os polos. Pelo contrário: a diferença no número de lados pode fornecer pistas importantes sobre como as condições atmosféricas das duas regiões variam. Descobrir por que uma corrente formou seis lados durante décadas e outra aparentemente passou a formar dez poderá ajudar os pesquisadores a compreender melhor aquilo que acontece nas profundezas da atmosfera do planeta.
As estações de Saturno também entram nessa discussão. O planeta leva aproximadamente 29 anos terrestres para completar uma volta ao redor do Sol, o que faz com que cada estação dure mais de sete anos. Conforme Saturno avança em sua órbita, a quantidade de luz solar recebida em cada hemisfério se modifica lentamente, provocando mudanças na temperatura e na circulação atmosférica. Foi justamente essa mudança sazonal que tornou o polo sul novamente mais favorável à observação a partir da Terra. Ainda é cedo, porém, para afirmar que as estações sejam responsáveis pela formação do decágono.
O Hubble conseguiu fazer algo que uma única fotografia jamais faria
A descoberta também mostra por que manter telescópios científicos funcionando durante décadas pode ser tão importante quanto construir observatórios cada vez mais poderosos. O Hubble está em órbita desde 1990, e uma das grandes vantagens dessa longevidade é permitir que astrônomos comparem o mesmo objeto ao longo de muitos anos.
Parte das observações utilizadas na descoberta veio do programa OPAL — Outer Planet Atmospheres Legacy, que utiliza o Hubble para fotografar regularmente os gigantes do Sistema Solar exterior. Em vez de produzir apenas belas imagens de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, o programa cria um registro contínuo das mudanças em suas atmosferas.
Uma única imagem do polo sul de Saturno poderia revelar o decágono. Mas somente a comparação com fotografias antigas permite perceber que ele aparentemente não esteve sempre ali. É essa dimensão temporal que transforma uma forma curiosa em uma descoberta científica muito mais importante.
É quase como produzir um filme do Sistema Solar a uma velocidade extremamente baixa: uma fotografia por ano parece mostrar muito pouco, mas uma sequência acumulada durante décadas pode revelar tempestades nascendo, correntes se deslocando, cores mudando e, agora, uma gigantesca onda de dez lados surgindo ao redor de um planeta.
Hubble e James Webb agora vão acompanhar o que acontece
Os pesquisadores ainda precisam descobrir como exatamente a estrutura surgiu, por quanto tempo conseguirá sobreviver e até que profundidade ela alcança na atmosfera. Para isso, o estudo recomenda novas observações com o próprio Hubble, com o Telescópio Espacial James Webb e com observatórios terrestres, além da criação de modelos computacionais capazes de reproduzir as condições observadas em Saturno.
O James Webb pode ser particularmente útil porque observa principalmente no infravermelho, permitindo investigar características da atmosfera diferentes daquelas reveladas pelas imagens visíveis e ultravioletas do Hubble. Combinar os dois telescópios pode fornecer uma espécie de visão tridimensional mais completa da estrutura e ajudar a descobrir se aquilo que enxergamos no topo das nuvens está conectado a movimentos muito mais profundos.
Existe inclusive a possibilidade de que o decágono desapareça nos próximos anos. Nada garante que ele terá a longevidade extraordinária do hexágono do norte. Se isso acontecer, os cientistas poderão ter acompanhado praticamente o ciclo completo de uma estrutura atmosférica gigantesca: formação, desenvolvimento, estabilidade e desaparecimento.
Saturno, portanto, continua conseguindo surpreender mesmo depois de décadas de observações telescópicas e de uma missão que permaneceu mais de uma década explorando seu sistema. Seus anéis podem ser aquilo que imediatamente chama nossa atenção, mas a atmosfera do planeta guarda fenômenos igualmente impressionantes. Em um polo existe um hexágono gigantesco que permanece visível há mais de 40 anos. No outro, agora surge um decágono que aparentemente não existia algumas décadas atrás.
E talvez a parte mais interessante de toda a descoberta esteja justamente na pergunta que os cientistas ainda não conseguem responder: por que Saturno decidiu formar dez lados em suas próprias nuvens — e por que isso aconteceu agora?
Fontes
NASA — Hubble Space Telescope
NASA’s Hubble Tracks New Decagon Encircling Saturn’s South Pole
Publicação oficial de 2 de setembro de 2026 que apresenta a descoberta, as observações realizadas desde 2023 e os pesquisadores envolvidos no estudo. (science.nasa.gov)
Acessar a publicação da NASA
ESA — European Space Agency
Hubble tracks new decagon encircling Saturn’s south pole
Publicação da ESA sobre a descoberta e sua comparação com o conhecido hexágono do hemisfério norte. (esa.int)
Acessar a publicação da ESA
NASA / ESA / STScI — Hubble
Decagon on Saturn’s South Pole
Página oficial da imagem e informações técnicas sobre a estrutura observada em diferentes comprimentos de onda. (science.nasa.gov)
Acessar a imagem oficial em alta resolução




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