Um novo relatório da ONU afirma que ultrapassar de forma sustentada o limite de 1,5°C tornou-se praticamente inevitável nos próximos anos. Isso não significa que o planeta atravesse subitamente um ponto sem retorno, mas cada fração adicional de aquecimento aumenta os riscos de ondas de calor, secas, enchentes, perda de ecossistemas e mudanças potencialmente irreversíveis. A discussão agora passa a ser não apenas evitar a ultrapassagem, mas impedir que ela seja grande e duradoura.
Durante anos, 1,5°C apareceu em discursos de chefes de Estado, conferências climáticas e relatórios científicos como uma espécie de linha que a humanidade deveria evitar atravessar. Agora, porém, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente colocou de maneira especialmente direta aquilo que cientistas já vinham alertando há algum tempo: considerando as políticas atuais e as trajetórias de emissões mais prováveis, a temperatura média global deverá ultrapassar de forma sustentada esse nível nos próximos anos. Mesmo nos cenários mais favoráveis, o aquecimento pode ultrapassar 1,5°C antes de eventualmente começar a cair.
A notícia pode dar a impressão de que uma contagem regressiva terminou e que o planeta perdeu definitivamente a batalha climática. A realidade é mais complexa. 1,5°C não funciona como um interruptor: a Terra não permanece relativamente segura em 1,49°C e se transforma em um planeta condenado ao alcançar 1,51°C. O que existe é uma progressão de riscos. Quanto maior o aquecimento e quanto mais tempo ele permanecer elevado, maiores tendem a ser os danos e maior a possibilidade de algumas transformações não poderem ser revertidas completamente. Por isso, ultrapassar 1,5°C não torna inútil tentar limitar o aquecimento. Pelo contrário: faz com que cada décimo de grau evitado se torne ainda mais importante.
Mas o que realmente significa aquecer o planeta em 1,5°C?
Quando cientistas dizem que a Terra aqueceu 1,5°C, isso não significa que amanhã a temperatura de São Paulo, Londres ou Tóquio ficará exatamente um grau e meio maior. O número representa a mudança na temperatura média global da superfície do planeta em comparação com o período entre 1850 e 1900, utilizado como referência aproximada das condições anteriores à industrialização em larga escala. A média reúne temperaturas de continentes, oceanos, regiões polares e tropicais, e justamente por isso uma alteração aparentemente pequena é capaz de produzir mudanças profundas no sistema climático.
O Acordo de Paris, firmado em 2015, estabeleceu como objetivo manter o aumento da temperatura global bem abaixo de 2°C e realizar esforços para limitá-lo a 1,5°C. Esse valor não foi escolhido porque exatamente 1,5°C representasse uma barreira física absoluta, mas porque os estudos mostram diferenças importantes entre um planeta aquecido em 1,5°C e outro em 2°C. Aumentam os riscos de ondas de calor, perda de biodiversidade, elevação do nível do mar e degradação de ecossistemas, enquanto algumas espécies e comunidades enfrentam condições cada vez mais difíceis de suportar.
Um dos exemplos mais conhecidos são os recifes de coral. Mesmo com o aquecimento limitado a 1,5°C, as perdas projetadas são enormes. Em um cenário de 2°C, elas se tornam ainda mais severas. Portanto, meio grau pode parecer insignificante quando pensamos na temperatura de um dia, mas representa uma enorme diferença quando aplicado à média térmica de um planeta inteiro durante décadas.
Mas o planeta já não passou de 1,5°C?
Essa é uma das maiores fontes de confusão sobre o tema. Sim, já houve períodos em que a temperatura média global ultrapassou 1,5°C em relação ao nível pré-industrial, e 2024 foi um exemplo particularmente importante. Isso, porém, não significa automaticamente que o limite climático de longo prazo estabelecido como referência pelo Acordo de Paris já tenha sido definitivamente ultrapassado.
A diferença está entre um ano excepcionalmente quente e uma tendência climática sustentada. Fenômenos naturais como El Niño e La Niña, alterações nos oceanos, erupções vulcânicas e outras variações podem fazer determinado ano ficar temporariamente mais quente ou mais frio. Para avaliar o aquecimento causado de maneira persistente pelas atividades humanas, cientistas analisam períodos muito maiores. Por isso, um ano acima de 1,5°C funciona como um alerta importante, mas não significa sozinho que a média climática de longo prazo tenha cruzado definitivamente esse limite.
O problema é que esses episódios temporários estão se tornando cada vez menos excepcionais. À medida que a temperatura média de longo prazo continua subindo, os anos acima de 1,5°C deixam de representar apenas extremos ocasionais e começam a apontar para a aproximação de uma nova realidade climática.
Por que estamos chegando a esse limite?
A principal causa continua sendo a emissão de dióxido de carbono, metano e outros gases de efeito estufa produzidos pelas atividades humanas. Esses gases existem naturalmente e são fundamentais para manter a Terra quente o suficiente para sustentar vida, mas sua concentração aumentou rapidamente desde a Revolução Industrial, principalmente devido à queima de carvão, petróleo e gás, além de desmatamento, agricultura e determinadas atividades industriais.
O dióxido de carbono é particularmente importante porque permanece influenciando o sistema climático durante muito tempo. Enquanto as emissões líquidas globais continuarem positivas, a concentração de CO₂ tende a aumentar e o planeta continua acumulando calor. É por isso que atingir emissões líquidas zero, o chamado net zero, é considerado tão importante: nesse momento, as emissões restantes seriam equilibradas pela quantidade de carbono retirada da atmosfera e a temperatura poderia começar a se estabilizar.
O problema é que décadas de redução insuficiente das emissões tornaram cada vez mais difícil evitar qualquer ultrapassagem de 1,5°C. A expansão das energias renováveis, dos veículos elétricos e de tecnologias de baixo carbono representa avanço importante, mas não acontece ainda na velocidade necessária para substituir completamente os combustíveis fósseis e reduzir as emissões globais de maneira suficientemente rápida.
O que muda quando passamos de 1,5°C?
Não existe um momento em que o planeta inteiro passa a sofrer a mesma catástrofe simultaneamente. O que aumenta é a probabilidade e a intensidade dos riscos. Ondas de calor que antes eram raras tornam-se mais frequentes, atmosferas mais quentes conseguem armazenar mais vapor d’água e podem favorecer chuvas extremamente intensas, enquanto outras regiões enfrentam secas prolongadas. Geleiras perdem massa, oceanos absorvem mais calor e o nível do mar continua aumentando.
Esses impactos não acontecem da mesma maneira em todos os lugares. Uma comunidade costeira pode enfrentar principalmente elevação do nível do mar e erosão, enquanto uma região agrícola pode sofrer mais com secas, ondas de calor ou mudanças no regime de chuvas. Grandes cidades precisam lidar com temperaturas cada vez mais elevadas e eventos extremos que pressionam sistemas de saúde, energia, transporte e abastecimento de água.
Também existe uma dimensão social importante. Países e comunidades com menos recursos geralmente possuem menor capacidade de adaptação, mesmo quando contribuíram proporcionalmente muito menos para as emissões históricas que provocaram o aquecimento. Por isso, mudanças climáticas não são apenas uma questão de temperatura. Elas também envolvem desigualdade, financiamento, infraestrutura, produção de alimentos e capacidade de proteção das populações mais vulneráveis.
E os chamados pontos de não retorno?
A expressão costuma aparecer de maneira dramática, como se existisse um dia específico em que o planeta atravessaria uma linha e todo o sistema climático entraria em colapso. A ciência trabalha com um conceito mais específico: os pontos de inflexão climática, ou tipping points. Determinados componentes do sistema terrestre podem responder de maneira não linear ao aquecimento, chegando a situações em que mudanças relativamente pequenas desencadeiam processos muito difíceis de interromper posteriormente.
Entre os riscos discutidos estão a perda de grandes massas de gelo, alterações importantes em correntes oceânicas e mudanças profundas em ecossistemas como a Floresta Amazônica. Isso não significa que exatamente 1,5°C provoque automaticamente todos esses processos, nem que todos possuam o mesmo limite. O que a ciência aponta é que a probabilidade de mudanças perigosas aumenta conforme o aquecimento cresce e permanece elevado por mais tempo.
É justamente por isso que não existe uma justificativa para pensar que, uma vez ultrapassados 1,5°C, 1,6°C ou 1,7°C já não fariam diferença. Fazem — e podem fazer muita diferença.
Se ultrapassarmos 1,5°C, ainda podemos voltar?
Em teoria, sim. Um dos cenários cada vez mais discutidos é conhecido como overshoot, quando o planeta ultrapassa temporariamente determinado nível de aquecimento, alcança um pico e posteriormente volta a temperaturas menores. Para que isso aconteça, porém, não basta apenas diminuir a velocidade das emissões. Primeiro seria necessário chegar às emissões líquidas zero e, posteriormente, provavelmente alcançar emissões líquidas negativas, retirando da atmosfera mais dióxido de carbono do que ainda é emitido.
Parte dessa remoção pode ser realizada por florestas, recuperação de ecossistemas e manejo do solo. Existem também tecnologias capazes de retirar CO₂ diretamente do ar, mas utilizá-las em escala suficiente para reduzir significativamente a temperatura global representaria um desafio gigantesco de custo, energia, infraestrutura e armazenamento. Portanto, a possibilidade de retirar carbono no futuro não deve funcionar como desculpa para continuar emitindo grandes quantidades hoje.
Existe ainda outro problema: fazer o termômetro cair não significa desfazer automaticamente todos os danos ocorridos durante o período de aquecimento mais intenso. Geleiras perdidas podem levar séculos para se recuperar, determinadas espécies podem desaparecer e a elevação do nível do mar pode continuar produzindo efeitos durante muito tempo. A temperatura pode voltar; algumas consequências podem não acompanhar o caminho de volta.
Se vamos ultrapassar 1,5°C, a meta perdeu o sentido?
Não. Essa talvez seja a interpretação mais perigosa que poderia surgir dessa notícia. Se a ultrapassagem se tornou provável, seria tentador concluir que o objetivo fracassou e que não existe mais razão para tentar limitar o aquecimento. Mas existe uma diferença enorme entre um planeta que ultrapassa temporariamente 1,5°C e depois volta a cair e outro que continua avançando para 2°C, 2,5°C ou 3°C.
Cada décimo adicional representa mais calor acumulado nos oceanos, maior pressão sobre ecossistemas, aumento da frequência e intensidade de extremos climáticos e maior dificuldade para comunidades se adaptarem. Por isso, a discussão não termina quando 1,5°C é ultrapassado. Ela muda. O objetivo passa a ser limitar o pico do aquecimento, diminuir o tempo que permanecemos acima desse nível e evitar que a temperatura continue avançando para patamares ainda mais perigosos.
Essa lógica também ajuda a combater um tipo de fatalismo climático que pode ser tão prejudicial quanto negar o problema. A ideia de que “já passamos do limite, então não adianta mais fazer nada” ignora que os impactos crescem progressivamente. Se não foi possível manter o planeta abaixo de 1,5°C, ainda existe enorme diferença entre estabilizá-lo próximo de 1,6°C ou permitir que ultrapasse 2°C.
O planeta não cruza uma linha — ele sobe uma escada de riscos
Talvez o maior erro na forma como o limite de 1,5°C foi apresentado ao público durante anos tenha sido tratá-lo como uma fronteira rígida. A realidade climática se parece muito mais com uma escada de riscos. Já existem impactos no nível atual de aquecimento. Eles aumentam em 1,5°C, tornam-se maiores em 1,7°C e continuam crescendo conforme o planeta se aproxima de 2°C ou ultrapassa esse nível.
Isso significa que a provável ultrapassagem de 1,5°C não deveria ser entendida como anúncio de que a batalha terminou. Ela representa, na verdade, uma mudança na pergunta que precisamos fazer. Durante muito tempo, o objetivo principal foi descobrir se ainda conseguiríamos impedir qualquer ultrapassagem desse limite. Agora, a questão passa cada vez mais a ser quão alto deixaremos a temperatura chegar, por quanto tempo permaneceremos acima do patamar e quão rapidamente conseguiremos fazê-la diminuir novamente.
A resposta dependerá de decisões tomadas muito antes de sabermos qual será o número máximo registrado pelo termômetro. O planeta provavelmente ultrapassará 1,5°C, e isso significa que riscos que poderiam ter sido evitados estarão presentes. Mas 1,5°C não torna 2°C inevitáveis, assim como 2°C não tornam 3°C inevitáveis. O futuro climático continua sendo construído em frações de grau, e cada uma delas ainda pode representar menos pessoas expostas ao calor extremo, menos ecossistemas perdidos e menos regiões obrigadas a se adaptar a mudanças cada vez mais severas.
Ultrapassar 1,5°C não significa que deixou de existir algo para salvar. Significa que há ainda menos espaço para continuar adiando.
FONTES
Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA/UNEP) — relatório sobre a provável ultrapassagem de 1,5°C e os caminhos para limitar o pico de aquecimento.
Organização Meteorológica Mundial (OMM/WMO) — dados e projeções sobre temperatura global e distinção entre ultrapassagens anuais e aquecimento sustentado.
Copernicus Climate Change Service — acompanhamento das temperaturas globais recentes.
IPCC — avaliação científica dos impactos relacionados ao aquecimento de 1,5°C e das diferenças em relação a níveis superiores de aquecimento.
UNFCCC — metas climáticas estabelecidas pelo Acordo de Paris.




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