O “filho” do Krakatoa volta a entrar em erupção — e reacende a memória do vulcão que abalou o planeta em 1883

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O Anak Krakatau, vulcão que nasceu dentro da caldeira deixada pela destruição do antigo Krakatau, passou cerca de 25 horas em erupção contínua neste fim de semana e lançou cinzas a altitudes que chegaram a 15 quilômetros em algumas regiões. Aeroportos foram fechados, milhares de voos foram afetados e o nível de alerta permanece elevado. A atividade atual está muito longe da catástrofe de 1883, mas oferece um gancho para entender por que aquela erupção entrou para a história: mais de 36 mil mortos, tsunamis gigantescos, ondas de pressão que deram voltas no planeta e efeitos atmosféricos percebidos a milhares de quilômetros de distância.

O nome Krakatoa voltou ao noticiário neste fim de semana, mas existe uma primeira distinção importante: o vulcão em atividade atualmente é o Anak Krakatau, expressão indonésia que significa aproximadamente “Filho de Krakatau”. Ele cresceu dentro da enorme caldeira deixada pela catástrofe de 1883 e vem apresentando episódios eruptivos desde que começou a emergir do mar, no fim da década de 1920. Entre a noite de 4 de setembro e o início do dia 6, autoridades indonésias registraram aproximadamente 25 horas de atividade eruptiva contínua. O episódio principal terminou, mas uma nova explosão do tipo estromboliano foi observada poucas horas depois, e o vulcão permanece no nível III de alerta, “Siaga”, o segundo mais elevado da escala utilizada no país. 

As consequências já foram suficientes para atingir uma das regiões mais movimentadas do Sudeste Asiático. Nesta segunda-feira, sete aeroportos indonésios continuavam fechados por causa das cinzas, incluindo os dois que atendem Jacarta. Segundo autoridades ouvidas pela Reuters, cerca de 341 mil passageiros haviam sido afetados por aproximadamente 2.961 voos cancelados, desviados ou atrasados. Em determinadas áreas, as nuvens de cinzas alcançaram até 50 mil pés, cerca de 15 quilômetros de altitude, nível perigoso para aeronaves porque partículas vulcânicas podem reduzir a visibilidade e danificar motores. As autoridades afirmam que a possibilidade de novas erupções continua elevada, embora até o momento não exista indicação de um tsunami iminente semelhante ao ocorrido em 2018. 

A atividade atual chama atenção justamente porque acontece no mesmo complexo vulcânico responsável por uma das maiores catástrofes naturais da história moderna. Mas comparar diretamente 2026 com 1883 seria enganoso. O Krakatau daquela época era uma ilha vulcânica muito maior, formada por diferentes cones, e grande parte dela simplesmente desapareceu durante a erupção. O que existe hoje no centro da antiga caldeira é uma construção vulcânica posterior, o Anak Krakatau. Para entender por que o nome ainda provoca tanta atenção, é preciso voltar a agosto de 1883.

Em 1883, parte de uma ilha simplesmente desapareceu

Krakatau está localizado no Estreito de Sunda, entre as grandes ilhas indonésias de Java e Sumatra, em uma região tectonicamente extremamente ativa. O complexo está associado a uma zona de subducção, onde o movimento das placas tectônicas favorece a geração de magma e explica por que a Indonésia concentra tantos vulcões ativos. Antes de 1883, Krakatau não era apenas um único cone isolado: a ilha reunia principalmente os centros vulcânicos de Rakata, Danan e Perbuwatan, construídos sobre os restos de uma estrutura vulcânica ainda mais antiga. O Smithsonian classifica a erupção de 1883 com VEI 6, nível reservado para eventos extremamente explosivos. 

Representação do Krakatau antes e depois da erupção de agosto de 1883, mostrando a destruição de grande parte da antiga ilha. Imagem: Popular Science Monthly, 1884 / Wikimedia Commons — domínio público.

Os primeiros sinais importantes daquele episódio começaram meses antes. Em maio de 1883, Perbuwatan voltou a apresentar atividade, com explosões, cinzas e emissões que atraíam inclusive embarcações curiosas para a região. A situação oscilou durante os meses seguintes, mas se agravou dramaticamente nos dias 26 e 27 de agosto. Uma sequência de explosões cada vez mais violentas culminou na manhã do dia 27 com eventos de escala extraordinária. Grandes quantidades de magma foram fragmentadas e lançadas para a atmosfera, enquanto partes da estrutura vulcânica perderam sustentação e colapsaram. O Smithsonian estima que o colapso destruiu completamente Danan e Perbuwatan e deixou apenas uma parte de Rakata acima do nível do mar. 

Esse colapso é essencial para entender o tamanho da catástrofe. Não estamos falando apenas de “lava saindo de um vulcão”. Durante uma grande erupção explosiva, gases dissolvidos no magma podem se expandir violentamente conforme a pressão diminui, fragmentando o material em cinzas, pedra-pomes e outros detritos. Ao mesmo tempo, a retirada de grandes volumes de magma pode deixar partes do edifício vulcânico sem sustentação. Quando uma parcela considerável da estrutura desabou, formou-se uma caldeira com cerca de seis quilômetros de largura. Segundo a NOAA, aproximadamente 21 quilômetros cúbicos de fragmentos de rocha foram lançados durante o evento.

O resultado mudou permanentemente o mapa do estreito. A antiga ilha de Krakatau deixou de existir na forma que possuía até então.

Pluma de cinzas, vapor e gases vulcânicos sobe do Anak Krakatau em imagem registrada por satélite. Imagem: NASA Earth Observatory/Jesse Allen — domínio público.

A maior parte das vítimas não morreu por causa da explosão

É fácil imaginar que as dezenas de milhares de mortes tenham sido provocadas principalmente pelo calor, pelas cinzas ou pelas explosões. Na realidade, a maior causa de mortes foram os tsunamis.

O colapso da estrutura vulcânica e a movimentação de enormes volumes de material deslocaram violentamente a água do Estreito de Sunda. Ondas gigantescas atingiram rapidamente as costas densamente povoadas de Java e Sumatra. A NOAA registra uma onda estimada em aproximadamente 41 metros de altura na região de Banten, enquanto centenas de comunidades costeiras foram destruídas. Das cerca de 36 mil mortes associadas à catástrofe, mais de 34 mil foram atribuídas aos tsunamis

Os efeitos não ficaram restritos às praias mais próximas. Marégrafos detectaram perturbações do oceano a milhares de quilômetros de distância, e fluxos piroclásticos — misturas extremamente quentes de gases, cinzas e fragmentos vulcânicos — atravessaram trechos do mar e chegaram à costa de Sumatra a cerca de 40 quilômetros do vulcão. Esse detalhe mostra como uma grande erupção pode produzir perigos muito diferentes ao mesmo tempo: queda de cinzas, correntes piroclásticas, ondas de choque atmosféricas, colapso estrutural e tsunamis podem fazer parte de um único episódio. 

A tragédia de 1883 também ajudou a transformar a maneira como cientistas estudavam tsunamis vulcânicos. Ao contrário de um tsunami típico provocado por um grande terremoto submarino, aquele desastre mostrou que o colapso de um edifício vulcânico e a entrada rápida de enormes volumes de material no oceano também podem gerar ondas devastadoras. Mais de um século depois, essa lição voltaria a ser relevante exatamente no mesmo lugar.

Em 22 de dezembro de 2018, parte do Anak Krakatau colapsou durante uma erupção. O deslizamento gerou outro tsunami no Estreito de Sunda, matando mais de 400 pessoas em Java e Sumatra. A escala foi muito menor que a de 1883, mas demonstrou que o perigo não pertence apenas aos livros de história. 

O som foi ouvido a milhares de quilômetros — e a atmosfera registrou a explosão

Outra razão pela qual Krakatau se tornou quase lendário está no som produzido pelas maiores explosões. Relatos históricos registraram detonações ouvidas a mais de 4.600 quilômetros de distância, incluindo locais próximos às ilhas Maurício. A Royal Society registra estimativas de que a grande explosão produziu uma intensidade acústica próxima de 180 decibéis e foi percebida por pessoas a até aproximadamente 5 mil quilômetros. Próximo ao vulcão, a onda de pressão foi suficientemente intensa para causar danos auditivos. 

Por isso, o episódio é frequentemente descrito como o som mais alto documentado da história moderna. A afirmação precisa ser entendida com alguma cautela, porque não existia em 1883 uma rede moderna de microfones capaz de medir diretamente a explosão da maneira como faríamos hoje. O que temos são relatos humanos, registros barométricos e reconstruções científicas. Ainda assim, a dimensão da onda atmosférica foi excepcional: barômetros em diferentes continentes registraram alterações de pressão à medida que a perturbação se propagava pelo planeta, e documentos históricos indicam que essas ondas circularam ao redor da Terra repetidamente. 

Isso significa que pessoas que nunca ouviram a explosão diretamente puderam, de certa maneira, ter seus instrumentos meteorológicos atingidos por ela dias depois. A atmosfera terrestre funcionou como um meio capaz de transportar parte da energia liberada ao redor de todo o globo.

A erupção também lançou cinzas e gases a altitudes extraordinárias. A NOAA registra que materiais chegaram a aproximadamente 80 quilômetros de altura durante o evento mais violento, enquanto cinzas cobriram uma área de centenas de milhares de quilômetros quadrados. Nas proximidades do vulcão, algumas regiões permaneceram em escuridão por dias. 

Krakatau chegou a afetar o clima do planeta

O material que permanece nas partes mais baixas da atmosfera tende a cair relativamente rápido, mas grandes erupções podem lançar dióxido de enxofre na estratosfera. Ali, o gás participa de reações que formam aerossóis de ácido sulfúrico capazes de refletir parte da radiação solar de volta para o espaço. O resultado pode ser um resfriamento temporário da superfície terrestre.

Depois da erupção de Krakatau, partículas vulcânicas se espalharam ao redor do planeta e produziram efeitos ópticos observados durante meses. Relatos históricos descrevem pores do sol intensamente avermelhados e halos incomuns ao redor do Sol e da Lua. A NOAA estima que a temperatura média global chegou a ficar aproximadamente 0,5 °C abaixo do normal no ano seguinte, levando vários anos para retornar aos níveis anteriores. 

Isso não significa que Krakatau tenha provocado uma mudança climática permanente. Grandes erupções vulcânicas normalmente produzem um efeito de resfriamento temporário, porque os aerossóis estratosféricos acabam sendo removidos da atmosfera. É uma diferença fundamental em relação ao aquecimento causado pelo dióxido de carbono, que pode permanecer no sistema climático durante períodos muito maiores.

Mesmo assim, a capacidade de uma única erupção alterar temporariamente a temperatura global mostra a quantidade extraordinária de material que foi lançada na atmosfera em 1883. Krakatau não foi apenas um desastre regional: seus efeitos físicos foram observados em praticamente todo o planeta.

Krakatoa ou Krakatau?

Existe ainda uma curiosidade no próprio nome. Krakatau é a forma tradicional indonésia e é o nome utilizado atualmente pelo Smithsonian Global Volcanism Program. “Krakatoa”, porém, tornou-se extremamente popular no mundo de língua inglesa e acabou sendo reproduzido em livros, jornais, filmes e documentários.

Segundo o Smithsonian, documentos do grande relatório produzido pela Royal Society após a erupção mostram que a grafia “Krakatau” teria sido alterada para “Krakatoa” durante o processo editorial. A forma anglicizada acabou se espalhando internacionalmente e permaneceu tão conhecida que hoje muitas pessoas tratam Krakatoa e Krakatau como nomes de vulcões diferentes, embora essa distinção esteja errada. 

O nome do vulcão atual também ajuda a evitar a confusão. Anak Krakatau — “Filho de Krakatau” — não é simplesmente a metade restante do vulcão de 1883. Depois da destruição daquela estrutura, o sistema vulcânico permaneceu ativo abaixo do mar. A partir de 1927, novas erupções começaram a construir um cone dentro da antiga caldeira. Depois de sucessivos episódios de crescimento e erosão, uma nova ilha emergiu.

Em outras palavras, a mesma fonte de atividade geológica que destruiu boa parte do Krakatau antigo começou lentamente a construir outro vulcão no lugar.

A erupção atual não é uma repetição de 1883

As imagens atuais de lava, cinzas e aeroportos fechados inevitavelmente despertam comparações com a catástrofe histórica, mas não existe hoje evidência de que o Anak Krakatau esteja prestes a repetir uma erupção da escala de 1883. As autoridades indonésias mantêm o nível de alerta elevado e restringem o acesso ao entorno do vulcão, mas a agência de desastres informou que não há risco iminente de tsunami nas condições atuais. 

Ainda assim, o vulcão merece monitoramento constante. A erupção iniciada na noite de 4 de setembro espalhou cinzas por grandes áreas, interrompeu atividades escolares, prejudicou a pesca e provocou uma das maiores perturbações recentes no transporte aéreo indonésio. As autoridades também alertam que novas explosões continuam possíveis. 

Essa é talvez a maneira mais correta de olhar para Krakatau: não como um monstro adormecido aguardando repetir exatamente a mesma catástrofe, mas como um sistema vulcânico continuamente ativo em uma das regiões geologicamente mais dinâmicas do planeta. O evento de 1883 foi excepcional, resultado de uma combinação de processos que levou à destruição de grande parte da antiga ilha. O Anak Krakatau é o produto posterior dessa mesma história geológica e continuará mudando enquanto magma continuar alcançando a superfície.

Mais de 140 anos depois, o mapa já é diferente, a ciência possui satélites, sismômetros e sistemas de alerta que os habitantes de 1883 jamais poderiam imaginar, e milhões de pessoas vivem hoje em uma região cuja atividade vulcânica é monitorada permanentemente.

Mas o vulcão continua ali.

Em 1883, Krakatau mostrou que uma erupção em uma pequena ilha entre Java e Sumatra poderia produzir tsunamis devastadores, uma onda atmosférica planetária e alterações perceptíveis no clima global.

Em 2026, seu “filho” voltou a lançar cinzas quilômetros acima da Indonésia.

A escala é outra. A história, porém, ajuda a explicar por que o mundo continua olhando para aquele pequeno pedaço do Estreito de Sunda sempre que a terra volta a tremer.

Fontes

PVMBG / Ministério de Energia e Recursos Minerais da Indonésia — Atualização oficial de 6 de setembro de 2026 sobre as aproximadamente 25 horas de atividade eruptiva contínua do Anak Krakatau e a manutenção do nível III de alerta. (Kementerian ESDM)

Reuters — “Seven Indonesian airports remain shut due to volcanic ash from Anak Krakatau” — Situação atual dos aeroportos, passageiros e voos afetados, altura das cinzas e avaliação das autoridades sobre novas erupções. (Reuters)

Smithsonian Institution — Global Volcanism Program — Histórico geológico do complexo Krakatau, erupção de 1883, formação da caldeira, Anak Krakatau e episódios eruptivos posteriores. (Programa Global de Vulcanismo)

NOAA — National Centers for Environmental Information — Dados históricos sobre os tsunamis, mortes, dispersão das cinzas e efeitos climáticos da erupção de 1883. (CNIA)

Royal Society — arquivos históricos de Krakatau — Registros das ondas de pressão, relatos acústicos e estudos realizados imediatamente após a erupção de 1883. (Royal Society)

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